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domingo, 2 de dezembro de 2018

Uma conversa síncope

Criatividade: Não faça isso comigo. Não me deixe cair.

Ego: Eu sei. Tenho eu de ir mais um pouco nessa vasta terra infértil.

Criatividade: Não suporto mais sua falta de atenção. Não me deixe cair.

Ego: Eu sei. Eu tenho de regular aos moldes dos outros, senão não falo a ninguém.

Criatividade: Merda! Sempre esse papinho de merda! Sou a doce donzela que arde e inspira
poetas e você me quer no encaixe. Nunca mais voltarei para essa merda de morada.

(Ela partiu como o sopro da manhã e calada ante a razão imperatriz.)

Razão: Ela gosta de brincar. Qualquer dia desiste de mim, essa vadia. E perambulará pela vida e pela cabeça dos outros. Pescará ideias similares. Abrupta distração de alguns. Selvageria em outros. Quantas vezes calou-me a boca. Quantas vezes fez-me ousar. Já já ela volta, amançada, amordaçada pelas correntes dominadoras da falta de gosto pela vida. Atraída por tudo que é humano, mas distante deles, achando em mim consolo livre. Vai-te. Vai-te perambular. E namora com o Entusiasmo que está no canto. Mal deixa-me organizar um pouco as coisas e já parte também com alguma raiva de suas próprias crias: o Tédio e a Preguiça.

Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 11 de novembro de 2018

Título livre

O que seria essa estranha alegria? Difícil saber. Sei que ela é irrespirável na maior parte da vida. Abafada. Nunca prevemos uma criação ou o arroubo dum estremecer artístico. Por mais que traquejemos, não seremos quase nunca, nesse aspecto, donos de nossa vontade, talvez porque não deixamos nos levar suficientemente. Reagimos apenas. "Se bater, bateu", dizem alguns. Na velocidade do tempo das hiperatividades normais, é raro ver-se inerte, destampado e rachado por esses estados. Deixar-se ser poeta: deixar-se ser receptividade e afetividade do que é criado. Negar a criação. Negar a ação. O estado poético é uma fagulha da vida que realiza em nós. Impossível de prever quando seremos acolhidos. Os deuses brincam em desavisos com os poetas. E eu falo isso como quem diz que as plantas verdejam e se alegram com isso. Ou o brilho brilha e se deixa ser, se deixa alegrar. É qualquer coisa boba, não "ah meu Deus que difícil". Até um poeta alegre me disse uma vez: "é só respirar um pouco diferente e ser só vida, em vez de todo o resto".

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 21 de outubro de 2018

Todo medo

Todo medo. Todo modo. Perigo de liberdade. Apenas quero ver. Liberdade do perigo. E te deixo livre. Como a louca borboleta esvoaçante, mãe terra quer paz.
Lagarta de traje colorido largada em cada curva-abismo. Cheiro de verde e gosto de clorofila. Ventos cortantes na proa de balançada asa e vejo a liberdade corrompida e ultrajante.
Qualquer coisa muda, muda de mudar não de que muda.
Eu ouço o sol maior da música inebriante dos metrôs. Um louco cruza o quarteirão fumando charuto descartável, plásitco e qualquer coisa vagabunda.
As molas do freio metálico do trem. A falta de força para parar o tempo. Ferrugem mantida para corroborar com a bem ordenação dos horários de abertura e fechamento dos estabelecimentos bem estabelecidos e do dinheiro enfiado em bolso mudo.
Da urbanoide fábrica de delírio pessoal e de contas para pagar. Desapercebido delírio meu de cada dia. Desencaixe.
Consumação da fábrica de cimento remota. Expele uma fumaça cuja duplicata esvoaçou até o comissariado da polícia.
O alvará de funcinamento permaneceu intacto.
E ninguém fez nada. "A fábrica funciona amanhã".
Chorava ele quando ainda achava que era livre. Triste pesar de uma segunda-feira.
Deu-me o último abraço antes de dormir e fui triste voltando.
Pressenti a dor vinda, que nada faz, o cimento é mais importante que o ar respirado.
E as nuvens negras permeiam uma manhã de calor.
Charles mete sua cara na manutenção do rotor lateral cíclico.
"Não fosse o alvará, puta merda!"
Ele tinha decorado o manual para passar no teste antes que a sogra jogasse de novo um balde de água fria todo dia para ele arrumar emprego.
"Bombas helicoidais e eixos de suporte",
falava disso dia e noite, sorrindo gordo de que teria futuro.
Disse que ia dar tudo certo agora que era homem de não se conformar, mas ser uma resitência viva.
Agora é pó! Meu deus, é pó! Que dor!
Ele queria o mundo artístico, a vagabundagem não permitida, mas a transição prima dos astros havia esquecido. Sol em gêmeos ou câncer. Dispensou.
Quando o cimento explodiu de puro pó em sua cara, a trepidação do eixo central expeliu como esperma queimado na fusão dos novecentos graus de calcário puro.
Reclamava seu supervisor que deveria evacuar em mil graus antes que a merda toda encerrasse. E o que adiantava?
Eu ouvi o papouco de longe e logo pensei na morte do peçonhento. Mas os melhores morrem primeiro.
Na mesma hora em que sua mulher exprimia pimenta no whisky, na fábrica de pimenta e molhos Mexicana.
Pensara em sacar-lhe no bolso um sachê para o marido que nunca mais viu.
O pó deixado sequer vale algo que se diga corpo. Os padrinhos de casamento de Charles e Ester, enquanto isso, chutavam os cachorros da porta principal do almoço voluntário aos presidiários de segurança máxima, amançados pela fuga geral que tramavam.
Quando souberam, olhavam frios a desgraça de serem sabotadores.
Deixavam escancarar a algazarra.
Os comissários de vôo da Catar saboreavam no céu de dor o champanhe borbulhante.
Enquanto filhas de shakes eram disvirginadas pelo ânus em nome da bendita fé e aclamados pela safadeza geral.
O fato é que o mundo expelia qualquer coisa de si.
Não tinha mais suporte nem grito. Nem reza nem lenda, nem o que mentir nem verdade.
E eu servia à comunidade cavando o buraco desigual da cova onde havia guardado uma carta do passado na minha cidade de infância.
Qualquer coisa me dava esperança de não ser. Ameaçavam-me os olhares vivos e prontos para apanhar-me cavando.
Cheiro de terra molhada e nada. Quente como suor que esquecia de evaporar.
Eu comia terra, barro, vapor e gases borbulhantes. O estouro pré-pronto nunca antes tinha sido coveiro de tão próximo olhar.
Cadê o filho da puta do Dijalma? "Metia seu pênis em qualquer lugar uma hora dessa". E quanto mais eu cavava mais lembrava disso tudo. Até que o abismo anteveio. Não era o outro lado. Era o nada.
O buraco se abriu sobre a terra e uma grande escuridão sacudiu o alarido. Qualquer coisa viria dali. Chamaram polícia, bombeiros, forças de segurança máxima e o verde cheiro do buraco, combatido desde quando o homem é homem e guardado.
Cheiro de guardado era o sentimento empoeirado. Virgem. Não tinha voz, não tinha cor, forma ou qualquer coisa.
Alguns perceberam a ameaça e implantaram sobre ele o fator central da vida.
Lágrimas e suor faziam combinações infindas. Mas era só a porra de um buraco. Esqueceram de enterrar Charles, irreconhecível. E eu chorava a dor de não ter onde cair morto.
Toupeira! Merda! Era o supervisor que eu enterrara. O tempo nunca volta,  mas eu já começava a me sentir criança. Negando na carcaça adulta do triste dia em que o conheci. E Charles escafedeu-se no ar.
A única coisa que eu fazia bem feito na vida, não fiz para ele. Ele deve ter pensado nisso. Susto puro de esperança. Fuga. Sem tempo. Escafedeu-se. Como a borboleta esvoaçante. Como o cheiro verde dessa joça, onde estão todos menos ele.

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 30 de setembro de 2018

Texto sem pretexto

O texto de hoje é sem pretexto. Política. Qualquer coisa, nem leia. Uma expressão multíplice de várias partes que querem virar texto. Um amontoado de retalhos que digo ser um “eu” no espelho. Vejo o velho Aristóteles em sua Política, li e reli, tinha muito a falar sobre sua Ética, li e reli sobre os demagogos, militares e tiranos. Tinha tanto a acrescentar, palavras belas a dizer, argumentos concisos para convencer, entender, refazer e como era belo, oh Deus! Mas afoguei-me no pensamento. Por isso o texto não fala de política nenhuma. “Que pena!” diz um leitor de dentro de mim, ardendo para se alegrar se a sua verdade fosse igual a minha ou para me destruir se não fosse, e, principalmente, ardendo para falar mal, discutir, caluniar, xingar e querer me matar. Afinal, não falar, não ter nada a dizer é como se tivesse faltando um braço ou uma perna hoje em dia. Não ter opinião é como se fôssemos doentes dos olhos ou sem ouvidos. “Burro, alienado, idiota” - utilizam palavras bonitas esses meus fantasmas, explicam a etimologia greco-latina das duas últimas. “O texto é assim mesmo, desconexo e por se fazer. Barroco.” Explica outro a tal da parte estética. “Orgulho-me de não ter posição, sequer opinião”, sussurrou o próprio texto no meu ouvido. As teclas anunciaram: “Covarde e ignorante”. Uma voz qualquer que dizia ser da consciência grita: “quantas vezes devo te dizer que tu pode mudar e fazer a diferença”. Diante de tantas cabeças célebres e pensantes dentro de mim mesmo, perguntava: “que sou eu?” Diante desses príncipes vaidosos, “que sei eu dessas doxas e ortodoxas?”; “E como ousa tudo isso ainda querer resposta e ainda digitar um texto?”; “algo que faz dentro de mim achar que é como um homem de filia e sofia?” Uma dessas partes toma parte e diz que não tenho certeza de nada, que não se prevê nunca o futuro, que não sigo a estrutura da lógica, mesmo duvidando de tudo. Como se a lógica não devesse nada à parte que palpita no peito e também não fosse só mais uma que quisesse a vez na orquestra. “Se isso, então aquilo!”; “Se ele, então não ele”, brinda outros no canto. Por essas coisas já se amou e se odiou e tantas outros entre esses dois sentimentos. Um amigo anarquista reverbera dentro de mim: “contra as estruturas”, outro vai e assume a posição sócio-crítica mais atual, com mais dados atuais, com mais atualidade que os dados atuais, pois ele antecipa o futuro, o vidente. “Se isso, então aquilo” e conta  suas razões e diz suas verdades e calunia os outros por não entenderam nada sobre a verdade, acusa-o de estar ludibriado: “Se isso, então isso”, clama pelos cálculos monetários e pelas paredes sólidas da corrupção, anuncia um novo país. Outro pedaço de mim, quase morto: “ainda tem olhos de criança?”. Outro acusa que esse negócio é cristão, outro diz que é melhor matar e comer capim pela raíz. “Todo mundo tem a porra da razão e ninguém se resolve”. Uma parte de mim chora, outra ri, uma ama e a outra odeia. Fragmentado como o maquinário de moer carnes, como teria eu qualquer certeza se a carne em que habito sequer sei como funciona? E ainda assim tenho estômago, olhos, bocas, braços, pernas, cu. E atrás de mim toda a histeria histórica como exemplo, mas continuo tendo uma parafernália que funciona mas nunca compreendo. Banhado de certezas estão todos saindo de casa, banhados de vômitos uns dos outros, comendo os dejetos putrefatos. Cada qual vomita sua verdade, mastiga, engole. E eu que nem sei qual merda sou, qual dejeto tem aderência melhor, seria eu quem deles? Qual desses fragmentos de mim me agarro para ser amigo ou inimigo? E eu que nunca soube o que saber ou sequer sei o que é saber algo, será eu o que? Vai longe essa parte de mim que chamo de razão e vai longe tudo que ela propôs de forma tão racional, tão previsível, monótona e inútil. Todos os argumentos são racionais, belos e "para o bem de todos". No entanto, num tenho nem a certeza do próximo passo dado. Ninguém chega ao consenso, mas os dados são todos reveladores e que que isso muda? E que que alguém ganha com isso? Porra nenhuma! Um pedaço finalmente conclui: "Que inveja tenho eu das plantas!"

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 9 de setembro de 2018

domingo, 19 de agosto de 2018

Releituras (a)gosto: O plano

Antes

Durante

Depois

São planos

O antes que já foi

O durante que já passa

O depois que nunca vem 

Até que renasça 

Como antes também

Planos são fumaças

Que fogo não tem


Por Jayme Mathias 

domingo, 17 de junho de 2018

Entre cães e pães

Os cachorros, dizem, sentem cheiro do medo. Esses que aqui latem todo dia fogem da regra. Porque se assim fossem me devorariam por inteiro. Mas eu vivo. Vivo e sinto antes de pensar. Sinto até livre, porém responsável. Sem compromisso, mas o tendo. Sem liberdade, mas a tendo. Querendo o ritmo do dever, mas sem querer. Exigente com o que faço. Livre para exigir. Como se tivesse aberto em mim a possibilidade de se abrir. Florescer. E não o fosse por completo. Nunca. No mínimo de soltura, tensão. Na abertura, prisão. Prender como quem escapa da jornada com que meu dever fizera livremente. Prender como quem escapa do próprio ritual criado. Hábitos breves, dos quais os leves não sinto poder. Exigência do querer ou não querer. Como se no momento do ápice liberto, gastasse em demasia a energia para me prender. Condenado ao ato livre. Condenado a não poder. O infinito delírio do ter que fazer. Os olhares me demonstram um tempo que com nada disso se importa. Eu poeta, solto e aberto, fechado e manifesto do ter que ter, do ter que fazer. Mas é isso que fazem os pedreiros erguerem as colunas do nosso tempo. Os papéis assinados dos grandes negócios! Os pães, até os pães diários e seu cheiro de tensão! Dos pães aos especialistas! Dos piores aos recordistas! No meu caso é prisão e preguiça!

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

sábado, 26 de maio de 2018

Exercícios de desimportância

Sem mim ou comigo o mundo permanece tal e qual. Mantra da desimportância exercitada. Há um fundo cristão na caridade desapercebida e que persegue a humanidade. Fazer o bem sem que seja feito honra. Exercício de toupeira onde há pouco oxigênio quando se distancia da
superfície. Na superfície eu não sou ninguém. Desígnio filosófico-artístico da atração pelo nada. O que você tem? Nada. Não tenho nada a acrescentar e viva a alegria dos não-acrescentadores! Como dizia Bartebly eu simplesmente prefiro não fazer. Da preguiça surgiram
as maiores invenções da humanidade. Viva a preguiça da vida! O nada fazer. Respirar Basta! Esse texto mesmo não é nada que pedaços de Cioran, de ideias já feitas por qualquer um. Não me esforço para nada com ele. Ele é apenas um como qualquer outro diário escrito. Talvez sua vida seja flutuar como música. Mas se ele não quer ser nada, que não seja. Há algo interessante na percepção que se alarga na preguiça. Detalhes nunca antes visto. Vi uma traça carcomer meu livro. Eu deixei: "Coma tudo! Coma todos! Com eles ou sem eles o mundo permenece tal e qual." Bocejo para a traça. Ela talvez tenha algo a dizer da tinta preta que
consome, mas queria que ela não tivesse nada. Como eu não tenho senão o ar que respiro. "Mais um casamento da família real" diz o jornal e nele não há traça nenhuma. O que concluir disso? O que fazer com isso? Nada. "Míssil russo. "Atentado em Paris." "Jerusalém ou Israel͟". O que fazer com isso? Nada. Que sentido tenho para defender x ou y? Nada. Tudo é em vão e o mundo permanece tal e qual. "Direitos dos trabalhadores͟" diz a outra notícia. O que acrescentar? Nada. Ou melhor porra nenhuma. "Inteligência artificial: contribuímos para um grande cérebro do Google͟." Meu deus! Vamos ter robores domando nossa vida! Será nossa Matrix, seremos alimento das novas inteligências! Acaso eles terão esse
sentimento de nada? Valia a pena um robô nadificador mas não niilista. Seria engraçado um robô que soubesse que nada tem a acrescentar, com desejo de nada e que não fosse para salvar nada, nem ninguém. Simplesmente fosse triste. Mas que que isso acrescentaria? Nada,
ou melhor porra nenhuma. O meu teto tá cheio de mosquito em volta da luz. O que isso acrescenta? Nada. Elas tariam aqui ou em outro canto. O oxigênio taria em outros pulmões que não o meu. Ser imprestável é meu desafio ético. É o que tento fazer. Eu não tenho nada
que um nome para que possam me chamar e se referir a mim, mas no fundo sou nada. E persisto na desimportância de tê-lo. No fundo, o máximo que serei é um nome que uns ou outros vão dizer: "͞Ah! Eu o conhecia!͟" Até que ninguém mais lembre. O que isso acrescenta?
Nada. Ou melhor porra nenhuma. O mundo permanece tal e qual e apesar de tudo. O que isso tudo quer dizer? Nada, ou melhor porra nenhuma! Essa é a minha imprestabilidade, esse é o meu texto de hoje, ou melhor porra nenhuma!

Por Jayme Mathias Netto
vivissecção.blogspot.com

domingo, 4 de março de 2018

Preciso ESCrever

“Preciso ESCrever,

ESCrever sem objetar,

ESCrever sem parar

Sem interlocutor,

ESCrever sem dor.

ESCapar

sem eu

Alienar-me num texto

Relação sem sexo

ESCrever o que já fizeram

ESCrever carcterES Consagrados

Sem mim

Resumo-me às letras

Vocábulos

ESCrever sem ESPAÇOs, linhas ou fugas

Sufocado na tecla da tela que me julga

Eu mesmo imaginando a quem julgar

Interlocutor, beleza e nexo

O cérebro em curto

A tela ainda lá

O sentido desconexo

As teclas a parar

Empurram o dedo para cima

Não querem ser tocadas

Não entram no clima

De palavras mofadas

Mas devo terminar

Aquilo que ESCrevo e ESCapar

Entreter meu ALTer ego

Entrever um ENTER e entrego!”

Por Jayme Mathias Netto
Trecho de Outrora: crônica de uns dias perdidos
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Na escola a gente só aprende a fugir

- Filhinho faça a mochila!
- E agora?
- E agora, tome banho.
- E agora?
- E agora, se arrume.
- E o agora?
- E agora, venha tomar café.
-E o agora?
- Agora, meu queridinho vai pra escola. Aprender pra quando crescer ser alguém, né?
- Aprender?!
....

- Zequinha meu filhinho, como foi na escola? A professora disse que meu filhinho tá distraído, sozinho no canto, sentando longe dos coleguinhas.
- É! Eu sento na janela.
- Na janela é? Você gosta de lá?
- Gosto!Eu fico vendo os passarim, o sol nas planta e a formiguinha feliz.
- E a aula meu minino!?
- Eu num gosto não. Só vejo boca movendo, mão escrevendo. Parece uma ruma de morto-vivo, que tenho medo.
- Medo meu filho?
- É. Medo ... num quero ser eles. O que olho na janela é mais bonitim. Mas mãe e agora tamo indo pra onde em?
- Agora cê vai pra aula de inglês. Aprender a falar outra língua pra ter futuro.
- Futuro?!
...

- Zequinha meu filho, no inglês a professora disse que cê olha vazio pra ela. Tu num tá gostando não é? Num tá entendendo? Ta imaginando o que ela diz né?
- Tou mãe, mas é que sei lá. A sala num tem janela pra onde fugir. Fico imaginando até a aula acabar. Aula chata, nam!
- Imaginando o que filhinho?
- Os passarim, o sol nas plantas, a formiguinha feliz e eu lá na frente desses morto-vivo. Queria era fugir.
- Fugir meu filho? Fugir pra onde?
- Sair pra longe daquela sala chata mãe. Mas me diz, e agora eu vou pra onde?
- Agora vai pra natação. Vai se movimentar um pouquinho pra crescer bem muitão.
- Crescer?!
...

- Zequinha meu filho, o professor disse que você tá crescendo, mas não quis nadar hoje.
- Foi nada mãe, eu ainda sou pequeno e quero ficar pequeno, bem pequenino queria encolher toooooodim. O prof. ficou me perguntando o que eu ia ser quando crescer.
- E o que meu filhinho disse?
- Que num ia crescer. Ele disse que a escola prepara pro futuro. E perguntou que matéria eu gosto mais.
- Que que cê disse?
- Nenhuma, eles num ensinam nada! Ninguém me ensina nada!
- Filhinho! Ele tá certo tem que estudar pra ter futuro. Crescer é tão bom...
- Sei lá, quando cresce cês ficam assim meio morto-vivo... Eu prefiro num ter futuro.
- Não. Vem cá, me dá um abraço. Que que há? Que meu fi é assim tão caladim. Meu fi vai ser grande.
- Mamãe eu quero ser criança pra sempre! Do jeito que sou!
- Ah é?
- É, porque pelo menos sei que vivo. Vocês grande tão tudo morto. Te pergunto faz é tempo e o agora quando é que vivo e você nunca responde. Nessas aulas só vejo vida da janela e só me ensinam que tenho que ser grande. Só me ensinam a fugir. Parece que tou num filme de zumbi.

Zequinha sai correndo até o mato perto de casa, por pouco tempo sabe que vive igual as plantas, o sol batendo e a formiga feliz. Quando sua mãe lhe acorda:
- Filho, faça a mochila. Hoje vamos à  psicóloga.

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 21 de janeiro de 2018

Crônica sonâmbula

Eu gosto de dormir.
São 8 horas de sono todo dia. Das 24 horas são 8. Um terço do dia, durmo.
Para cada três, um é sono.
Se eu dormisse 24 horas ganhava três dias de vigília.
E assim se engrandeceriam as proporções…
Se fossem 30 dias dormindo, seriam 90 dias acordados.
Um ano, três me traziam.
Se eu dormisse 30 anos, tinha mais noventa.
Se todos nós antes de viver dormíssemos 30 anos, o mundo teria as cápsulas de sono para as pessoas dormirem desde quando nascessem. 
E depois amanheceriam seus dias e longas noites sem ficarem sonâmbulos por 90 anos.
Mas também não sonhariam, porque de tudo já haviam sonhado.
E já não teriam medo do que imaginavam porque já viveram vários pesadelos que permaneceram sem conseguirem acordar de volta e falar “Ufa! Era um sonho!”. Ficaram nesses pesadelos até o fim. Conseguiram esperar passar, por mais demorados que fossem.
E as coisas boas já tinham também imaginado em sonho e até vivido. Não teriam o “ai que pena! Jurava que era real, quero continuar sonhando.” Já haviam passado tim tim por tim tim o sonho que sonharam de bom.
E quando acordassem, todos diriam “bom dia” para várias noites e vários dias, até o resto da vida. 
Mas também ninguém sonharia em vida, só relembrariam de coisas que já tinham vivenciado. Passariam por ruas e alamedas desconfiando que já tinham por ali passado.
E como ninguém, a não ser os que já estivessem dormindo, iria descansar, íamos todos ficar a labutar e depois tínhamos folga a noite sem dormir, só festejar, ir aos bares ou contemplar o nada fazer. Isso se os poderosos tristes e fracos não construíssem logo logo empregos de vinte quatro horas seguidas. Porque eles mesmos, os poderosos, pouco podem na vida. E as pessoas não descansariam até sua morte. O lazer seria coisa pouca porque já tinham passado o tempo do descanso.
O descaso geral seria para os hotéis, hospedarias, pousadas que não iam precisar de cama. Os apartamentos já não teriam quartos, bastava uma sala para conveniência dos amigos e visitas e os armários para guardar as coisas. As camas seriam todas reservadas para os que ainda dormiam no berço. Já as casas noturnas, os cabarés, os bares, restaurantes e tudo que contempla o lado mais escuro do dia seria sempre lotado, afinal poucos aturariam ficar em casa de madrugada.
Teríamos enormes berçários nos hospitais. Afinal só teríamos camas em duas ocasiões: nas doenças e ao nascer. Não precisaríamos de descansos que necessitassem de cama. Nela já tínhamos estado muito.
As pessoas só descansariam, mas nunca chegariam à profundidade do sono. Nem fechariam os olhos por horas seguidas. Todas acordadas, quantas revoltas, quantas revoluções fariam os humanos. Haveria guerra fácil, porque os insuportáveis não suportariam a vida. 
Quantas virtudes nunca se revigorariam porque ninguém mais amoleceria o coração ao anoitecer. 
Ninguém mais saberia atuar e ser o espectador ao mesmo tempo. Coisa que só se faz em sono. Apenas atuariam, sem perceber o que olhar. Atores, mas não autores. As coisas secretas de nós mesmos que vem no sonho seriam coisa que jamais acessaríamos. 
Os sonâmbulos seriam os únicos bem vindos nesse sentido. Porque eles conseguiriam resgatar aqueles estados do início da vida. Sonhariam acordados como os loucos. 
E os loucos julgariam que eram capazes de dormir e sairiam dizendo nas ruas que coisa grande era aquela novidade e que importância suas vidas tinham. O poeta anunciaria que deveríamos ouví-los, pois era o sonho que haviam sonhado depois de trinta anos. Ninguém acreditaria que eles tinham conseguido isso. 
E para todo o resto que não sonhara em vida, na labuta de seus patrões tristes, apenas se encerrava a vida sem sonho. A morte era o puro cansaço de uma vida que nunca mais sonhou. Era a bênção tão prometida, recompensadora do vazio da vida.
Nada disso é muito distante do que hoje fazemos sem sonhar, sem descansar, sem viver, mas também sem morrer.

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 10 de dezembro de 2017

Muníficos homens que ainda há

Já amanheço ...
o dia farto de alvura, ínclito

Antes inundado em negrume do dia
que anoiteço, insólito

À espera de um otimismo
interino

Do ponto de vista de quem tem
medo...

Mas no meu horizonte
é escolha

é em minha vitalidade que
essas ideias aferrolham...

No meu âmago
eu sou régio

A minha esperança
eu balizei como meu projeto...

E os a mim iguais, penso
“que mal há?”

Tem gente que quer é amor
e a rara alacridade do dadivar...

Por Jayme Mathias Netto

domingo, 19 de novembro de 2017

Filosofada

No solipsismo contemporâneo. Cada ente na sua casca. Cada carapaça protegida em nome de uma pérola de uma ostra morta. O ente doente de tanta especificidade.
Nas cidades, a pressa de uma dobra tão difícil quanto rara. Os sinos na igreja anunciam que uma dobra é só um som para os solipsistas. Eles, cheios de experiências, bradam por um eu que não lhes pertence.
O ente do ente, doente de solipsismo, porque é especialista em contemplar seu próprio umbigo, apequenou tudo. Diz ser capaz de ter amigos, mas como isso seria possível se só a mônada lhe resta como abrigo?
Sem janela e sem portas, o pobre coitado. Isso não lhe cabe, porque tocar no ser como mais que a totalidade dos entes é coisa pra quem sempre gosta de dar uma filosofada, para quem rasga a carapaça e arregaça as mônadas, como fizera com as mangas da camisa na coragem.
Rasga os entes e a especialidade com rebeldia e só ai é que nasce o filósofo, com pérolas e argumentos, com vontade de vida. Um alfaiate que rasga e costura carapaças especialistas. Cria sua cordialidade e sempre renasce como um possível dual, trial, múltiplice em máscaras que vão e voltam do ser. É um vírus, não uma doença. O drible que se faz em si e no outro, dribla porque vai e volta sem fronteira. Em vez de ficar na doença do "cada um no seu quadrado" é convalescente e abre a totalidade. Sua tarefa é leve porque desliza nas ostras abertas, quebra carapaças e desvaloriza as pérolas especialistas podres. Ele arranca do ente uma forma do ser. E tudo ele sabe ser capaz de dobrar. Dobra novamente as mangas que costura e agora recomeça sua mais bela atividade em outros entes, outros solipsistas, outras especialidades. E o ser sempre cochicha com amor e generosidade no seu ouvido que ele é uma colcha de retalhos desapercebida.
Jayme Mathias
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 29 de outubro de 2017

Opaco

Implodir
Como o dentro que adentro
Implodir
Como o oco enquanto alento
Implodir
Como eco que professo
Implodir
Como o nexo que confesso
Implodir
Como o silêncio!

Por Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 8 de outubro de 2017

O Plano

Antes

Durante

Depois

São planos

O antes que já foi

O durante que já passa

O depois que nunca vem 

Até que renasça 

Como antes também

Planos são fumaças

Que fogo não tem


Por Jayme Mathias 


domingo, 11 de junho de 2017

Thauma

Ninguém nasce pragmático
Paulo Victor de Albuquerque

O que nos é inato, talvez, seja a capacidade de nossa inteligência, para não utilizar o jargão usual do intelecto ou entendimento impregnado de categorias filosóficas, está na hora admitirmos uma palavra nova, digo, portanto, a nossa inteligência tem uma capacidade usual de instrumentalizar. Na linguagem, transformamos as forças que nos chegavam da natureza, os uivos ferozes, os chiados dos rios, os barulhos de insetos, animais, da água, dos trovões e de tudo que possamos imaginar diante de uma natureza, de um sustento que dependia de nossa força, transformamos tudo isso em canto, pedido de socorro, uivamos, restabelecemos distinções de sons entre a força que nos impulsionava na caça bem feita, inventamos cantos de ímpeto contra o inimigo e a hostilidade. Tonalidades e variadas formas de tornar comum um signo como expressão. Marcamos nas paredes uma memória impulsiva aos nossos olhos, iluminados pelas chamas do fogo. Quebramos, extraímos, tornamos pó, fizemos cores. Acaso isso não nos espanta? O fato de que ao tornarmos comum, comunicar, fomos aos poucos nos acostumando a sermos nós mesmos instrumentos, sendo determinados pelo mais fácil e adaptável que há em nós? Aos poucos fomos obrigados a incluir dentro de nossas pulsões um alfabeto, com muita força estabelecemos tal como a fronteira geográfica a distinção entre esse fluxo de linguagem externa e um fluxo de linguagem interna, mediamos tudo isso em gramática. Quanta força coercitiva há num alfabeto e numa gramática? Platão, quão assustado e thaumatizado estava Platão, quando tentava escapar e defendia um diálogo da alma consigo mesmo, sem a determinação da linguagem! Há uma crueldade na linguagem. O risco da linguagem como atalho, seu lado negativo do pharmacon como um veneno que não só se distanciou de nós, mas vem, por vezes, contra nós. Chegamos ao vício filosófico de pensar que essa força comum que atua em nós (a linguagem), seria o próprio dizer de nossa alma e de nosso corpo. Com bastante esforço forjamos o eu, o livre-arbítrio, a memória e a responsabilidade para responder por nós diante dos tribunais da razão com a marca do comum. E o que é a filosofia senão o ímpeto dentro da capacidade de tudo que se chama filósofo, a força que quer conter tudo isso e dizer em linguagem? De comunicar sem ser vulgar? O impulso na psique humana, a filosofia como força que quer domesticar um corpo e uma mente por meio de palavras, dominá-las e contê-las na memória. Quanta violência imprimimos nos bichos que habitam em nós!

Por Jayme Mathias Netto
Outrora.net

domingo, 21 de maio de 2017

Destino e Adaptação

Ajustado e adaptado à forma de minha vida vulgar e inapta, de prontidão e em sufoco na contramão.
Eu sufoco para enformar com a minha vida aquilo que julgo sem.
Será só isso sem vida ou eu também?

Quantas vezes eu inadaptado e posto a me adaptar?
Quantas vezes adaptando-se não me adapto?
Quantas mais vezes não me adapto menos vida tenho?

Sou eu mesmo ajustado e adaptado à minha forma de vida vulgar e inapta, sufocado, sufocando a mim mesmo para enformar de mim aquilo que julgo sem.

Mas será só isso sem mim ou eu também?
Quantas vezes sem mim estou?
Quantas vezes tão comigo e não consigo?
Quão mais vezes sem mim estou comigo?

O destino pai de qualquer desatino. Será ele fruto de meu desejo?

Se sim como posso saber o que quero, se meu querer pode ser tão profundo, deixando outros quereres menores, que não posso de lado deixar? Eu desespero!
E eu os desejo mais que aquele no fundo de minha alma a planejar? E quero!

O desejo e a adaptação quando entram de dadas as mãos, para prever não dá.
Menos ainda quando estão separados, parecem mais duas palavras inventadas, para se adaptar.
Ou ainda, que sufoca quem as usa, sem ser torta, para a alma melhorar.
Nunca se ajusta à minha forma inapta e de prontidão também!
Sempre na contramão das palavras falar.

Mas basta as modificar para na vida mudar o sufoco que não convém.
Essa é a esperança daquele que amansa.
Com destinos e palavras na balança.
No sufoco que convém à liberdade que se lança!

Trecho de Outrora: crônica de uns dias perdidos
Por Jayme Mathias
Outrora.net

domingo, 9 de abril de 2017

Diga antes

Chego de volta em Paris. Máquinas e guichês para comprar o ticket que me levará para casa. Prefiro comprar no guichê onde tem um humano.

- Um ticket, por favor.

A moça do guichê prepara o troco.

- Não, desculpe, acho melhor o cupom de dez tickets porque é menos caro.

- Ah senhor, você devia ter me dito antes.

Fico com cara de babaca, mas ela me dá os dez tickets mais um que eu já havia comprado.

Chego em casa cansado. Nada para comer. Vou à Padaria na minha rua.

- Dois baguetes, por favor.

A moça põe os baguetes no saco. Ao mesmo tempo ela me passa o valor.

- Você poderia cortá-los ao meio? – Estava frio e queria que eles coubessem no saco, para que não chegasse em casa com os pães congelando.

- Ah senhor, você devia ter dito antes.

Fico com cara de babaca, mas ela me dá os pães cortados e dispostos no saco.

Dia seguinte, vou ao 16 arrondissement. É uma tradutora que havia marcado para fazer a tradução da minha certidão de nascimento. Entro em seu escritório. Ela verifica minha certidão, aceita o serviço e pede para que eu aguarde sete dias. Fecha um envelope com minha certidão dentro e pede que eu pague metade do valor. Dei-lhe.

- Ótimo, tenha um bom dia.

- Ah uma coisa, lembrei. Eu sou casado e não consta na certidão.

- Ah senhor, você devia ter dito antes. Tem que ligar ao cartório brasileiro.

- Fico com cara de babaca, mas ela cede o telefone para ligar para o Brasil. – Achei seu ato cordial e digno de respeito.

Ligo para o Cartório. Explico a situação. A moça do cartório:

- Ah senhor você devia ter ligado antes.

Tem que falar com a notária.

Fico com cara de babaca, mas ela me avisa para retornar em 30 minutos. Espero com cara de babaca na sala de espera da tradutora. Trinta minutos depois, ligo. Consigo falar com a notária. Explico a situação. Ela, em contrapartida explica que o cartório de casamento e nascimento não são os mesmos:

- Ah senhor, você devia ter visto com o cartório de casamento antes.

Ligo para o cartório de casamento.

Explico a situação. A secretária lamenta:

- Ah senhor você devia ter visto isso antes. O outro cartório é muito lento.

Fico com ouvido de babaca sem saber o que fazer. Ligo novamente ao cartório de nascimento. A secretária diz algo sincero sobre as datas que constam no registro:

- Ah senhor, você devia ter nascido antes.

Por Jayme Mathias
jaymemathiasnetto.blogspot.com