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domingo, 1 de julho de 2018

Julho do leitor: Podemos dizer que o amor existe ou ele é só uma palavra?

Podemos dizer que o amor existe ou ele é só uma palavra?

Uma vez, ao começar uma aula de Filosofia, perguntei aos alunos: “O que é o amor? ”. Um aluno de uns dez anos respondeu: “O amor é um substantivo abstrato. ” Esta fala daquele aluno me faz pensar até hoje. Será que podemos dizer que o amor existe ou ele seria apenas um nome? No segundo filme da trilogia Matrix, um personagem fala a Neo que o amor é uma palavra que possibilita uma conexão.  “E o verbo se fez carne e habitou entre nós”. A questão que se coloca para mim é que a nossa linguagem determina o nosso modo de enxergar o mundo, criando, também, um mundo artificial no qual vivemos como se fosse natural. A cultura - criação humana – nos faz dizer o que é certo e o que é errado, nos faz adquirir formas de ser e estar no mundo. Nesse contexto, como podemos dizer que encontramos um amor? Não seria o amor mais uma idealização criada na cultura para permitir relações sociais diferenciadas? Não seria o amor a nostalgia da alma que busca a plenitude na vida? Seria o sonho que preenche as carências emocionais que cada um possui? Podemos dizer que o amor existe ou ele é só uma palavra? O que significa um “Eu te amo”? Talvez o amor seja apenas uma palavra bonita no romance da existência. Talvez o amor seja uma palavra que permite um alívio para a condição humana de desamparo.

link do trecho de Matrix citado: https://www.youtube.com/watch?v=NQawiwYuLK0

Por Renan Soares Esteves
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 7 de janeiro de 2018

Bossa de aviso

A quem interessar possa, escrevo essa bossa, na esperança de sangrar.
Para ser levado a sério, o amargo deletério, do mistério que é amar.

Para que  a cabeça tonta, que das tantas voltas, não se esqueça que errou.
Por não saber que a dor do peito dizia respeito a quem sofre de amor.

A quem acaso queira, é dessa maneira que canto pra precaver.
Aos pobres desavisados dos diversos maus bocados da ciência do sofrer.

E se mesmo com esta cantiga ainda quiseres aventurar-se neste mar.
Saibas que é por conta e risco,
que atissas este bandido perigoso que é amar.

A quem agora chora, digo sem demora que ainda avisei.
Que tome estes versos como um amargo remédio do desobediente a lei.

A quem outrora possa duvidar dessa bossa, de quem só quis ajudar.
Que porventura possa, essa melodia torta, vir a se concretizar.

Caro amigo eu só espero, que nunca lhe seja severo o que acabo de escrever.
De que esteja errada a máxima, de  quem um dia disse que amar era sofrer.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 17 de dezembro de 2017

Poesia Express

De repente a rima do repente não é mais assim, tão boa.
A estrofe, uma catástrofe de versos que provocam o inverso do que propôs o poeta.
A melodia se torna repetitiva.
As cores daquele quadro parecem as mesmas dos outros três anteriores.
Não há mais fantástico. Tudo é plástico, estático, mecânico.
Fruto de um ou dois minutos de reflexão. Da "necessidade".
De repente tudo é monocromático, idiossincrático, dependente de uma série de acontecimentos do dia a dia.
A rotina que passa pela retina enfeitada por um ou dois frufrus.
Tal como um macarrão instantâneo, surge mais um feto, sem muito afeto, fruto de um aborto poético.
Aquele poema ok.
Quantos likes ele merece?
Dentro de quantos "amei" cabe a alma de um poeta?
A poesia só é bela quando não necessita. Ela mesma se basta.
Comove por ser perfeita, fechada em seu universo ao mesmo tempo em que se abre aos encaixes de quem a aprecia. Se transforma a cada olhar.
Desdobra a cada declamar, lágrimas, raiva, amor.
Quanto likes valem o aborto de uma idéia? Que se florescesse amanhã seria eterna, mas que hoje torna-se uma frase efêmera de Instagram.
Não aborte sua poesia!
Proteja-a como a cria de uma leoa feroz.
Alimente-a com as mais belas expressões do seu eu. Faça dela foz.
Para que na hora certa ela desemboque para o mundo e seja para ele, mais que uma frase de para-choques.

Por Júlio César Barbosa Dantas
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 10 de dezembro de 2017

Muníficos homens que ainda há

Já amanheço ...
o dia farto de alvura, ínclito

Antes inundado em negrume do dia
que anoiteço, insólito

À espera de um otimismo
interino

Do ponto de vista de quem tem
medo...

Mas no meu horizonte
é escolha

é em minha vitalidade que
essas ideias aferrolham...

No meu âmago
eu sou régio

A minha esperança
eu balizei como meu projeto...

E os a mim iguais, penso
“que mal há?”

Tem gente que quer é amor
e a rara alacridade do dadivar...

Por Jayme Mathias Netto

domingo, 5 de novembro de 2017

No love

Ser poeta sem falar de amor.
É retirar a carne da dieta do predador.
É ser constante aluno, nunca preceptor.
Não sei falar de amor.
Seja pelo clichê, ou pelos porquês que sempre circundam as paixões.

Falar de amor exige a dor de perder, de não ser correspondido, de sentir a rejeição ou do constante perigo de cair aquém de alguém que não te quer.
Falar de amor é falar de sofrer, não por si,  mas por alguém que é tão imperfeito quanto você.
"É ferida que dói" e se vê!
É desejo sempre latente, mas também atitude de inconsequente.
Eu prefiro a dor daquilo que consigo ver.
Prefiro a razão. Não dar vazão para aquilo que até a alma é capaz de corroer.
Amor foi feito para ser sentido não escrito.
Permaneço então um poeta vegano
seguindo a dieta de restrição evitando  uma alimentação estabanada.
Agora percebo que é tão verdade o que disse antes que do amor falei, falei e não disse nada.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 27 de agosto de 2017

Sucata

-Merda. Merda.
Ela dava dois tapas na própria cara. O primeiro bem tímido, o segundo assustador de tão forte para ela mesma.
-Agora estamos sem celular e sem casa. Sem celular. Sem casa, repetia enquanto me cutucava inquieta. – não é verdade seu viado? Pedia por uma reação.
Eu recebia as cutucadas e dizia ao seu lado, na mesma pose:
-Exato, mas é normal. É normal, a vida é assim.
Queria confortá-la , mas com tom profundo e duvidoso de quem quer ameaçar-lhe a culpa. Na real cara, eu pensava que a vida era uma grande merda e que nada ia substituir onde já tinha chegado, entendeu? Essa situação que já nos acostumamos. Rosa comenta algo acrescentando como a Europa estava decadente. Eu apenas cocei o saco e repeti em eco “a Europa”.
-Porra Jorge tu tá chapado filho da puta? Você acha mesmo que a União Europeia vai pagar onde vamos dormir hoje? Não é tão fácil quanto arranjar essa teu crackzinho de merda não.
-Talvez Rosa, talvez. Vai dormir, porra..
Ela saiu pela ruas sem ter onde ir, voltou o mais rápido possível para nossa gerigonça empilhada no topo da sucata em St. Denis.
No fundo sei que por fora eu não disfarçava. A situação era miserável, pobre e faminta.
-Sabe, Jorge? não consegui puxar aquela merdinha do bolso do cara cheio de grana.
-Mas é sempre impossível no bolso deles. Tu tem essa mania de tentar o mais difícil, vaca, é melhor uma bolsa magra ou um casaco pra garantir não passar essa buceta de frio.
Ela andava em círculos ameaçadores da sua ira, queria evitar a fissura e pensar numa saída.
-Arranjasse pelo menos a parada, mas que merda;  era só a chave e com o celular pedia um sequestro, tou ligada. Mas isso tinha que dá certo!
Acendo o último cigarro. Ofereço a ela. E a gente tentava dormir como um animal preso e acostumado em ser lixo, com droga enfiada no cu, escondida um do outro, fingindo que nos importávamos com a fissura porque de fato queríamos mudar a situação. Puro fingimento.
Ela traga e comenta:
-Aí seu merda, bela chuva em?!
-Eu tou mal sua vadia...
Eu na verdade estava tão bem que ela se acalmou e me olhava sem me ameaçar com seus olhos dramáticos. Era uma merda de uma mentira aprisionada. Não havia nada de belo naquela lama de metal e na nossa vida amorosa.
Enquanto isso eu lembrava de nós dois na cama de seu quarto há 17 anos atrás, em que nada estava vencido, pelo contrário era um amor acabado de sair do estoque do armazém de sua tia que sustentou nós dois até os últimos meses. Linda, linda sonhava em reencontrar aquela princesa de trepada à primeira vista no leque de penumbras que os raios descrevem cada fase a vida que levávamos juntos até hoje. Eu dormia sonhando quando o amor e o sexo nos levava ao delírio de sermos o que quiséssemos. Entregávamos às fantasias das máscaras e camadas de nossos desejos. Sem isso não seria possível o contentamento do que hoje tentamos entender que seja esse amor. A desgraçada fez questão de roncar tão rápido, enquanto via ela de calcinha com seus vinte poucos anos e fodíamos como dois bichos se devorando na garagem, no banheiro ou em qualquer buraco que sua tia não nos visse. Essa merda de memória sempre funciona “se isso depois aquilo”, só queria meter daquele jeito de novo. Mas quem me fode sou eu mesmo. Casamos apressadamente, loucos e verdadeiros. O tempo rápido traz junto a desgraça. Na penumbra não vejo hoje senão uma velha suja, drogada e chata pra caralho. Apunhalo contra seu peito rápida e repetidas vezes uma faca cega, confiro se jorra sangue suficiente e se ela ainda respira, arranco do seu cu todas as pedras que tinha. Nunca mais deixo que ela interfira na memória boa que fomos. Deixo-a apodrecer na sucata e corro noite adentro. Adeus Rosa sua vadia. Adeus!

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com