Fortaleza revisitada
Em tão pouco tempo, mudança
Ruas, como eu hoje, na contramão.
Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com
Fortaleza revisitada
Em tão pouco tempo, mudança
Ruas, como eu hoje, na contramão.
Por Jayme Mathias Netto
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O homem era velho. Era difícil saber sua idade com exatidão, mas sua barba grande e suja, que passava por tons de cores do cinza escuro ao branco e as rugas bastante demarcadas, acusavam que aquele senhor já passava dos sessenta, de certo. Mas, como iríamos saber quantos anos tinha, se ninguém perguntava sequer o seu nome? O nome, este já o sabemos. As outras pessoas da rua o chamavam de velho pedro e diziam que ele não falava muito, que era tímido, era infeliz, mas era andador e sabia trabalhar. O velho vestia um trapo de calça preta, bem manchada e suja, uma camisa de botão que, um dia, já foi branca, mas que, hoje, mais caminhava para aquele tom encardido que só as roupas muito usadas, imundiçadas e nunca lavadas alcançam. Era a muda de roupa que tinha e nada mais. Como sabia trabalhar com madeira, juntou pedaços de caibro que um dono qualquer de mercearia por onde passou lhe deu, cortou, amarrou, armou e conseguiu preparar a estrutura do que viria a receber a cobertura daquele plástico preto em que se põe lixo. Estava feita a sua casa. Era feia, mas os outros da rua tinham inveja, pois, além de não precisar correr quando chovesse, pedro poderia até levar visitas íntimas para o seu particular. Não era necessário inveja: há muito não chovia e há muito, mas muito, pedro não levava ninguém para qualquer particular.
Era primeiro de novembro. O dia não tinha surgido e o sol só iria dar as caras dali a uma hora. O velho pedro se levantou, subiu o fecho-éclair da calça e a abotoou, vestiu a camisa, pôs o chapéu preto e saiu com um saco de pano vazio nas costas. Foi à esquina, dobrou à esquerda, andou três quarteirões, dobrou de novo, mais três quarteirões. Chegou. Quando parou, pensou, “É aqui. Aqui passam muitas pessoas”. Sentou ao chão e pôs-se a esperar. O dia chegou e os carros começaram a passar, as pessoas a andar e o sol a aquecer. Quando a primeira pessoa apontou na esquina, o velho pedro a observou, respirou fundo e estendeu a mão. A pessoa passou e não desenhou reação com relação a pedro. Era a primeira a fazer isso, mas não seria a última. Quando o sol apontou no cimo do céu, não havia mais sombra e o dia estava quente. O concreto da calçada fervia e pedro resolveu levantar. Aquele que estava ao chão, de mão estendida com a palma para cima e com os dedos arcados a fazer uma curva côncava, agora estava de pé e fazia-se mais visível. Visível só se for para o sol, que não o perdoava, porque, para aquelas pessoas que passavam, pedro e o poste, pedro e a placa, pedro e a calçada, eram a mesma coisa, eram cenário urbano. Juntava, por aquela altura do dia, um par de moedas. “Tenho que conseguir”, pensou ele, “mas é melhor que eu ande, pra que prestem atenção em mim”. O couro grosso daqueles pés descalços sentia apenas uma parte do calor escaldante do chão de concreto e pedra. Quando um homem vinha, pedro apontou em sua direção, meio sem jeito, como quem não quer ir, e disse, “...”, desculpem, mas, mesmo eu, que sou narrador onisciente e onipresente, que tudo sei, que estou em todo lugar, não pude ouvir coisa da boca daquele senhor. O homem que vinha percebeu aquela figura, olhou e, à medida que passava, virando o pescoço, disse, “Desculpe, o que disse?”, e continuou o seu caminho. Pedro sentiu vergonha de estar naquela condição – pedir era difícil. Percebeu, quando escorou-se na parede a pensar, que não conseguia falar na altura para que o ouvissem. Não por timidez, era dignidade que faltava. “Como vou conseguir falar a outra pessoa se minha barriga dói de fome, se não há borracha entre meus pés e o concreto quente do chão duro?”, pensou ele, chegando às conclusões. O velho pedia, mas não queria pedir. Duas coisas o seguravam naquela posição: a primeira, o fato material, sensível e simples de que, se não pedisse, morreria. Pedia, também porque precisava de algum dinheiro necessário para cumprir um dever auto imposto. O homem pediu e pediu outras vezes naquele dia, pediu até conseguir o que precisava. Era invisível o velho e era igual a outros objetos da rua, mas, como todo objeto, que tem sua função definida, a daquele senhor era a de ser mendigo. Mendigos recebem moedas de pessoas. Afinal, não são mendigos as coisas para as quais damos moedas, com a intenção de descarregarmos a consciência de suas culpas? Mendigos são como cofres, e à medida que neles depositamos moedas, acumulamos qualidade para um sono cínico e passos dados para o alcance de um paraíso desejado...
continua... (próxima postagem: domingo 05/08)
Por Willem Carneiro