domingo, 23 de janeiro de 2022

Altares profanos

 


Da matéria profana ao sagrado posto em matéria

A arte sacra é o encontro paradoxal entre o corpo mundano e a imaterialidade divina

Quanto mais próximo dos espaços religiosamente ilustrados tanto melhor experimenta-se o sobrenatural

É possível existir uma matéria sacrossanta?

Toda arte é divina na medida em que, a cada obra, se eclodem outros mundos de sentidos e emoções

A arte é o limiar entre o sagrado e o profano

Ela é o barqueiro que nos leva ao Hades

Transforma mercadorias em ruínas

Ruínas em altares

A arte evoca os mortos numa marcha necromântica pela história

Dissolve mitos

Eterniza mártires

A arte representa o que há de inumano no humano

A imaterialidade na matéria

O sagrado no que é profano

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 9 de janeiro de 2022

Tem vez...

 

Tem vez que não dá
Não adianta
Nem almoço, nem janta
Enche o bucho da inspiração.

Tem vez que engancha
E nem estribucho de criança
Faz o capulho da ideia desabrochar.

Tem vez que embaça
Num meio mundo de fumaça
De realidade 
De desgraça
Que desgasta achar o tema que não tema um, ou outro olhar
Que não trema ao titubear dos dedos de quem ajuíza.

Tem vez que vem furacão, outras é só é brisa 
E tem vez que nem quem colhe o que planta
Segura na mão o mesmo grão
Nem quem corre, ou quem anda
Acha lugar na condução da escrita.

Tem vez que tampa
o Bandaid da ferida
Entope que nem cabelo no ralo
A "gana suicida" de fazer emenda
Que nem a rolha no gargalo
Menor que a encomenda,
Não cabe nem a pau.

Tem vez que, nem choro, nem reza
Pra canto nenhum leva
O peso é leve
E a leveza pesa uma tonelada.

Tem vez que, em vez de sair, entra
Em vez de dividir concentra
Em vez de concentrar reparte
Que nem se espatifando em arte, se acha um só pedaço
E nem juntando os cacos, dá um todo.

E tem vez que não, que vem palavra de rodo
Em vez de metade vem um inteiro
Verso mais numeroso que dinheiro, do roubo do banco central
Mais brusco que chute na pleura sem peridural
Mais quente que o calor de meio dia, pelas ruas de calçamento do sertão central.

Tem vez, independente da tez, da aura
da alma,
Da palma, ou da vaia
Se espraia, sangra, escorre, brota.
A torrente arromba a porta que segura a norma culta.

Tem vez... Vez que sim, vez que nem tanto.
Vez que sai rouquidão, vez que sai canto.

Tem vez que nem ia
E, como quem soluça 
Expulsa, sai,
Feito necessário nascer do dia
espasmo da alma,
Tem vez que nem era nada

E tem vez que é poesia.

Júlio César

domingo, 2 de janeiro de 2022

Mas o gato não morreu eu réu


Na hora do dia mais específica 

que se possa imaginar

No momento exato do 

que se possa assinar

Nosso amigo já dava voltas pelos muros da cidade

Hoje seu dia é! Mas é dia de que?

É dia de dia ou dia de morte?


Saía com um saco de amendoim na cabeça

O gato 

apressado

Até o fim da calçada

Foi ao meio da pista

Já estava cansado


Seu rosto camuflado era 

cheio

Por dentro do saco era 

desespero

No meio da pista era 

medo


Por fora um animal perdido e 

inocentado

Por dentro era não ter à racionalidade humana 

adequado

"Que vantagem" gritou o felino quase 

atropelado

"Que bobagem" o outro miau testemunhava


Frases últimas do gato solto 

a presa

O vai e volta do desviar cego de rodas

"O gato 

tá sem 

cabeça"


Eu já previa o seu segundo 

derradeiro

E logo, logo já restariam menos de sete mortes 

verdadeiras

O saco era um capus que lhe tomava 

a cegueira

Desviar de vida 

passageira


Sete rodas 

desviadas 

e sete xingamentos do trânsito 

revirado

O rabo 

desconfiado


Deitou-se no asfalto

Assassino solto 

Cego dos ouvidos

Olhos submissos


A roda roda rápido e para no sinal

freia

Cada roda 

em cadeia


Ninguém cobria a cena do felino 

medo

Só se humano servia 

a esteira do gato 

preto


Numa nota só assovios e 

caretas

Na pressa diária

Foram salvar o gato à 

espreita

Salvo pelo azar supersticioso do condutor 

"matar uma morte 

preta?"


Cada roda encadeia

Na consciência a ideia faceta

"Eu? Salvar o gato?"

"Mas é gato preto"

"Parar o tráfego?"

"Mas vai sem medo"


Era a pergunta em cada cabeça,

 motorizada

Em cada forma que 

tornava 

o felino tolo

abobalhado


Morrer repartido pela borracha separando o seu 

corpo

"Vou

não vou?"


Os homens pagavam aquela morte barata pela pressa

na vergonha da compaixão 

felina

O gato entregue à cegueira da morte que cedo ou tarde 

era sua sina

Um saco na cabeça e tudo pronto para a 

guilhotina


De tanta fome deve ter se colocado lá sem 

conseguir

Sair

Ou de tanta sorte eram os homens tolos que fizeram aquilo para

não parar de 

rir


A roda do 

lado 

pensava em armadilha de 

assalto

Controle remoto de um

gato


Desviou acelerou com pavor na cara

Gato assustado e carros 

cambaleavam

Para não matar o único inocente na pista

Desviavam a atenção

disfarçavam


"Quero chegar logo em 

casa!"

As crianças riam e 

com medo do fim 

torciam


Gato vivo, gato morto

Mas ninguém queria a transição 

testemunhar

O segundo derradeiro de uma vida 

parar

Os humanos também tinham olhos vendados

E não enxergavam a vida a que se aproximava

para 

salvar


"Calma, a salvação já vem"

gritavam

Eu fui!

"É só retirar o saco!"

Os olhares

desviavam

E 

eu 

apanhei 

os

meus pensamentos 


Meus pensamentos

são como os carros 

que vem e voltam 

no caminho que 

estou


Carros no asfalto 

quente 

que muito se 

pisou


Os pés descalços 

as solas apressadas 

que por aqui 

passou


Até o sangue derramado aqui 

presente

Neste asfalto 

quente 

que aqui 

estou


É o sangue do meu corpo 

Que veio do 

sol-nascente 

que, agora, procura a sombra, 

amanhã 

seu calor


Do corpo gelado que sobrevive 

calado 

e o pensamento 

parou


Parou o carro ao meu 

lado

E o céu 

estrelado

Que brilha como 

caco

do para-brisa

Iluminado

à minha vista fadado

estou 


Segue à risca como o risco de quem 

arrisca 

salvar o gato


Meus pensamentos 

são como 

carros 

que param no caminho que 

ficou


Ao observar o corpo 

gelado

e calado 

que não

 mais sente 

dor


Jayme Mathias Netto




segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Anunciação.

 


Tu não viestes de longe estrela cadente

Pronuncias o vindouro do dia

Alumia o amanhã num caleidoscópio póstumo

Tens na chegada fria e cálida minha sina


Itinerários ramificam-nos às lonjuras

Ocupam fendas nos pés rachados

que

Assentam morada no barro barroco da modernidade


A noite descultiva, tal qual girassol a espera do dia

Ninho sacro profano, guarda-me nú

Roubaste-me a esperança na espera

Finca-me no agora sujo e arraigado da margem


És tu, ó finito, quem anuncias a senhora morte

Dama vestida à foice em sepulcro mórbido

Doas o sabor à vida, pois em queda vislumbramos o abismo

Abocanha-nos a profundeza com suas notas de desespero


Daí amar-te,

amo-te porque sei que findas

Amo-te pois não me pertences indistintamente

Amo-te pois nunca mais serás minha, já que não há amanhã

Amo-te pois sei que findo-me em teus abraços


Paulo Victor de Albuquerque Silva


domingo, 19 de dezembro de 2021

Tempo em disfarce



A medida das coisas é algo humano, salvo engano, só conhecemos o que, nomeamos, definimos e mensuramos.
Uma sociedade de controle foi erguida como solução racional para o caos da incerteza, do volátil, das garantias do amanhã, do existir para além agora. Porém, até entre as coisas por nós rotuladas, há uma entidade a qual sentimos, nomeamos e quantificamos e, mesmo assim, a ela somos todos subservientes.
Quanto vale um minuto?
60 segundos, responderá o pragmático.
Uma eternidade, responderá aquele que segura na mão um ferro em brasa.
Um piscar de olhos, interpelará quem se despede de um ente querido.
É relativo, diria o cientista.
Fato é que "os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem."
O tempo pois anda em disfarce! É o mestre de todos eles. Perfeito, implacável, inevitável.
No passado, é memória, trauma, saudade.
No futuro, incerteza, promessa, esperança.
Mas é no presente que ele melhor se traveste.
Ele é aquele abraço que você não dá por estar apressado pra ir trabalhar. Sim, ele também é própria pressa.
Ele é a preguiça no dia de chuva, os 10 minutos de soneca no celular.
Ele é o tropeço na calçada, o esbarrão na madrugada com alguém que há muito não se via.
Permeia todo o espaço não humano com aquilo que nos move de maneira involuntária. As cordas da marionete. Ele é a respiração celular, a gênese e a plasmólise.
Atração cega, reação em cadeia.
Germinação e senescência.
É o respirar e a falta de ar.
O primeiro dente e o último.
O primeiro cabelo. O primeiro cabelo branco.
Orgulho e lamento.
Ele é isso e muito mais. O escape da própria definição, o próprio digitar dessas palavras parcas.
De uns dias pra cá eu tenho visto o seu disfarce... e lentamente ele tem me tirado toda e qualquer certeza.
Ao mesmo tempo em que me concede todas as respostas.
Ver o disfarce do tempo é ter noção de que não há invenção humana que dê jeito de pará-lo, acelerá-lo ou revertê-lo. Ele é o que é, mesmo sem tic tac, passa despercebido por nós a todo instante. Evento absoluto. 
Inviolável.
Impossível de enganar, não há atalhos,
"não se pode produzir uma criança em um mês, por engravidar nove mulheres."
Nas inúmeras coisas em que somos supérfluos, conseguir perceber onde reside a mimética do tempo talvez seja onde repousa a verdadeira profundidade, peripécia de poucos. Ainda assim, reconhecer que "tudo que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado" é talvez a consciência de continuar movendo os braços para não afundar em um oceano de segundos ganhos e perdidos.
Portanto hoje, antes de dormir, saude vigorosamente o tempo que passou por você ao longo do dia, e também aquele que está diante de você.

A favor ou contra 
Ele é tudo que você tem.
Você só não enxergou o disfarce.

Júlio César

domingo, 12 de dezembro de 2021

Fragmentos do cansaço e esgotamento


Pois é, mah, eu tava até pensando no que o Deleuze escreveu sobre o cansaço da nossa vida contemporânea.
Porque o cansado, enquanto conceito do Deleuze, quer dizer algo do tipo: "estou cansado de possibilidades, de escolhas, de ter que escolher".
Mas toda possibilidade permanece e se multiplica em cada escolha e o possível nunca se realiza, é largo demais para se concretizar.
Então isso retoma a ideia da sanguessuga de Nietzsche. A sanguessuga é o cientista, lá no Zaratustra do Nietzsche é, digamos assim, um especialista em cérebros.
Esse especialista, no entanto, é certo de seu ofício, ele não quer saber de todo o resto, quer apenas saber o que sabe bem.
Daí que tem-se que ter uma fisiologia desse tipo
para aguentar um tempo desse tipo e vice-versa.
Esgotam-se as possbilidades do nosso tempo e o cansado é levado ao extremo de sua esgotabilidade.

O cansado está sempre aquém das suas possibilidades. Está com 10 sanguessugas no braço, como no Zaratustra lá do Nietzsche, ele está aguentando firme, porque precisa estudar o cerébro delas e só consegue fazer isso.

O fato é que cada indivíduo se sente sempre aquém do que ele deveria ser, ele nunca está à altura do que deveria ser, estar, vender, fazer, cumprir, acabar, produzir. Daí o Deleuze falar em algum canto que eu esqueci:

"O cansado apenas esgotou a realização, enquanto o esgotado esgota todo o possível. O cansado não pode mais realizar, mas o esgotado não pode mais possibilitar." (Algum trecho de algum livro aí, p.2)
O possível está para o cansado como questão de objetivo e preferência: sair ou não de casa, por
exemplo. Essas possibilidades, essas exclusões e variações que demandam toda escolha é o que faz cansar. Mas o egotado está sempre em atividade, e é sempre para nada.
Isso nunca se conclui. Em algum momento a gente tá cansado de algo, mas esgotado é algo mais profundo, porque a gente se esgota de nada, por nada, a gente se esgota em função de nada, pelo nada e para o nada. 
Esse é nosso tempo e nós. Nós e o nosso tempo.

Jayme Mathias

domingo, 5 de dezembro de 2021

No princípio era o logos, e o logos estava com...

 Eu não ganho nada para escrever a porra desse texto.

É exatamente por isso que ele não precisa vir inteiro, acabado.

Vem em frangalhos mesmo.

“Só o resto”. Como a gente diz aqui no Ceará.

Escrevo pra nada, do nada que clama em mim. Escrevo porque morro, e o fim exige um caminho.

Poderia fazer qualquer outra coisa, procurar outro emprego, cuidar da vida dos outros, fazer um curso de informática, querer um celular novo, mas ao invés disso só quero escrever um texto novo, mesmo que ele não diga nada. Só para escrever, mesmo que seja num teclado, sem lápis ou caneta, um texto.

Não há nada que dê menos prazer em existir do que criar algo sem propósito algum, simplesmente com a nudez de estar aqui.

Eu ainda tenho esperança que um dia todos os sentidos decaiam para que nos reste apenas o nada à escrever.

A escrita tem o mesmo peso da fala?

Claro que não. A fala ocupa o espaço. A escrita ocupa o tempo. Ambos são história.

Nietzsche estava errado, Deus não está morto. Ele está caminhando para a morte, e é por isso que ele cria.


Paulo Victor de Albuquerque Silva.