domingo, 14 de abril de 2019

Périplo destino


Despeço-me hoje
munindo o inverso do que sentia quando aqui chegara.
Das águas turbulentas que aqui me trouxeram,
espero hoje que me recebam suaves.
Que as aves que antes denunciavam a solidez da terra, hoje me desejem boa fortuna.
Que a oportuna viagem mostre na imensidão azul o quanto ainda hei de navegar.

Despeço-me hoje
E peço-lhes que velem pelos versos
pelas velas das belas palavras,
para que se estendam ríjas pelos ventos da inspiração.
Que me conduzam são e salvo além da rebentação, e das ondas do embrutecimento.
Que na lembrança permaneça a enseada antes de sumir no horizonte e os verdes montes da costa à beira-mar
que com todo jeito de lar, sempre me dirão: "bem vindo!"

Despeço- me hoje
Certo do regresso que cedo ou tarde se dará
Tal como a cobra que se volta à própria cauda.
Despeço-me por um instante
Certo de que o sextante da memória me guiará de volta, outra e outra vez.

Despeço-me
humildemente,
peço passagem,
a Poseidon e Iemanjá
para que me livrem das sereias,
para que eu não encalhe nas areias
que privam do livre pensar.
E que tenha sempre em mente
que mesmo Eu, marinheiro de tão pouca viagem
com tudo a revés,
não me deixe levar pela corrente.

Por Júlio César

domingo, 7 de abril de 2019

O riso...

Era exatamente um dia depois do Natal.
Na sala de jantar estavam todos a escutar.
Escutavam o rádio, no jornal
Fatos que vinham noticiar...
"Obrigado e feliz Páscoa!" o narrador dizia.
As crianças começaram a rir, porque páscoa não seria.
Riam aquela gargalhada que tremia.
O corpo todo em vermelhidão,
a garganta no ritmo do coração.
Riam e riam...
Alguns adultos diziam para elas pararem.
Alguns idosos reclamavam
da chatice daquelas gargalhadas.
Outros começaram a rir como as crianças.
Mas tinha uns bem diferentes, que não rindo nem reagindo àquilo tudo, tentavam conter as criancas e explicar que o
narrador não tinha falado "Obrigado e feliz Páscoa!", mas "Obrigado pelo espaço".
Foi desse tipo diferente que as crianças riam mais e mais e, confesso, mereciam.
Os mais velhos entendidos, embora não entediados, riam também.
Até um velhinho muito simpático e leve, cujo respeito guardo, se levantou da cadeira de balanço, mascando fumo e, ainda vermelho de gargalhada, anunciou:
"Riso que se sente, e não há de quem.
Riso não entendido, e não contra alguém.
Acaso sabem disso
quão raras vezes nos vem?"

Por Jayme Mathias Netto

domingo, 31 de março de 2019

Desafinado.

Eis em mim uma luta constante que travo com a corda do abismo.
Eu, trapezista dos agoras, aguardo o momento do derradeiro salto.
O instante preciso escapa entre os dedos e mergulho tão fundo quanto posso no oceano de lágrimas.
Agarro-me a solidão enquanto aperto as tarraxas do destino.
Quero dar o ritmo, achar o tom, sentir as vibrações do infinito, mas sei que o que me resta são murmúrios de um nada igual.
Desatino meu, já que nada sei nadar. Desatinado sou, o eu e minha consciência.
Ó vida, tu me deste a arte para querer voar, eu, logo eu, que nada sei nadar.
Não queria falar por mim, desafino, queria falar por ti.
Sei que nem tudo pode ser dito, por isso te desafino, arte.
Entre o ser da imensidão, encontrei o caminho do dito e o que dele não.
No fim tu vives, entre o ser e o não ser, instrumento que sou da tua arte.

Paulo Victor de Albuquerque Silva.

domingo, 24 de março de 2019

Diga-me o que vê

Fecho os olhos.
Cansado de ver sem enxergar, simplesmente os fecho.
Do alto da baixeza apenas ouço.
Mastigo o nada.
Engulo seco.
O frio que corta a madrugada na sarjeta assusta pelo silêncio com o qual atinge os ossos.
O fio da meada agora escurece junto ao o cerrar das pálpebras e da negra noite. Eles não importam mais, tal como a escuridão, evanecem.
Ouço tudo e nada vejo, não obstante, enxergo.
Fora do Ouroboros, para além do bem e do mal.
Ouço ao longe a resignação da vida, diante das vestes da moral do sacerdócio.
A fraqueza disfarçada de nobreza,
enquanto aguarda silenciosamente pela eterna Vendetta.
Ouço apertos de mãos com o demônio, para então passar por eles.
Ouço rajadas de balas em livestream, em nome do nada.
Nobres detentos presidem agora apenas as grades que os encarceram.
Ouço o alastrar do câncer na fábrica de ideais.
O debater-se em vão na areia movediça.
Como o debater-se da mosca na teia da aranha.
Ouço o clamor por um vingador que não sabe sequer empunhar a espada.
Queremos a salvação, repetem.
Entregam as chaves aos cegos do Castelo.
Ouço tilintar das fichas de apostas na mesa.
E o all-in de quem não sabe jogar.
Em pouco mais de um par de horas, abro os olhos.
Esqueço os ouvidos enquanto observo o esplendor de um novo dia.
Ainda que igual, me iludo que possa ser diferente.
Me insiro novamente no ciclo sem fim.

Que saudade das minhas asas...

Júlio César

domingo, 17 de março de 2019

Ouroboros


A: - Sem qualquer sombra de dúvida, hoje eu estou limitado. Hermeticamente fechado. Paralisado no tempo. Estático. Sem criatividade e sem vida. Não sei criar e preguiça tenho de me expressar. Qualquer palavra pesa como uma multidão de significados em minha cabeça. Não há nada que eu possa fazer.
B: - Ha Ha Ha... Oh semideus, tomaste para ti a responsabilidade de muito calar! Antes disso, seria melhor vomitar nos ouvidos como fazem todos! A enxaqueca é realmente uma obra prima!

Jayme Mathias Netto

domingo, 10 de março de 2019

Ela não me disse adeus.

Tomei conta de mim. Isso se deu em meio ao serviço, engrenagem que sou. Não sei porque me atentei pra isso agora, mas me falta alguma coisa. Já me olhei no espelho, toquei no meu corpo, ouvi o meu chefe, observei seu olho sobre mim. Não me olho assim, somente ele. Ele me vigia, eu não, ou será que sou eu o vigia de mim?
Já sei, minha língua, sumiu. Puta que pariu! Onde eu deixei? Abri gavetas, armários, portas, janelas, veredas, eu perdi.
Investiguei todos os rastros de saliva que encontrei. Primeiro hospitais com seus corredores organizados por linhas sobrepostas ao chão, cores que indicam a direção - entre elas pastas, pacientes, higiene, mas a língua não estava. Depois prisão - sei lá o que ela pode ter cometido - visão panorâmica dos encarcerados, bocas famintas por gosto de liberdade, arquitetura do poder, várias línguas enjauladas. Faltava procurar nas escolas, cadeiras postas em fila, bocas sincronizadas com a leitura, harmonia da tagarelice, linguagem adestrada. Restava o IML, sala fria, açougue humano, corpos grampeados com seu número de série. A morte não liberta, ela é o último itinerário da linguagem de cabresto.
Minha língua fugiu para algum lugar bem distante daqui, onde jamais poderei encontrar. Hoje ela diz outra coisa. Agora lhes escrevo sem língua, minha triste história de abandono, falo somente o sempre igual, sei o quanto tu me compreendes. Por isso acho melhor você manter sua boca sempre fechada.

Paulo Victor de Albuquerque Silva.

domingo, 3 de março de 2019

Serpentes e serpentinas

Metais ao longe,
fantasia de monge,
O sol mal se esconde,
e a cidade já ferveu.

Êxodo automotivo,
entope as veias da cidade cinza,
Serpentes e serpentinas,
se confundem no chão de pés sem fim.

Problemas de lado,
o Pierrot mal amado,
tem que aceitar que "não é não"
e pagar a fantasia comprada à prestação.

Bocas bebidas,
Beijos, cuspidas,
Mortes e vidas,
Começam e terminam ao som do trio.

Marchinhas, outrora inocentes, sobre carecas contentes,
agora são críticas perversas,
a um país fantasiado de mendigo.

Achados e perdidos,
Heróis e bandidos,
Dançam juntos "segurando na corda do caranguejo"

Enquanto o esquecimento banca a diversão, em um lampejo,
Silencio, atento na escuridão de mim,
me abrigo.
Pois "todo carnaval tem seu fim."

E o meu talvez nunca comece.

Júlio César