domingo, 6 de maio de 2018

Diatribe inconsciente

Zumbizava uma Diatribe inconsciente ou
Elã ou
qualquer coisa
Vociferava lá debaixo
Ou Encarnando
Ou Reverberando
Ou era Onírica em eco
Que ecoa como ecoa
Um vai e vem aceso
Ou Cujos ápice soturnos
Em transe entram
Ou Lúgubre poesia
do inconsciente não feito
Ou possível
Ou Dinâmica
Ou Esperança
Ou Qualquer coisa
Ou Qualquer outro
tudo, tudo, mudo como surdo, tudo, tudo
De cunho bicudo, felpudo, marrudo,
udo
udo
udo
Pah!
... estourava na bigorna uma voz.
Era uma voz de adeus,
que ninguém mais conseguia ouvir.
E Deus fez a carapaça surda cujo o homem chamou de eu.

Por Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 29 de abril de 2018

Resposta para Heidegger

Esse texto vai para um grupo seleto de pessoas que, assim como eu, se depararam com a metade da vida ou, de maneira mais positiva, encontram-se na metade do caminho de encontro com a donzela dos lutos, a morte. Sabem aqueles casamentos arranjados que os pais conseguiam para seus filhos? Talvez tenham se espelhado no inevitável projeto do nosso destino para com o óbito. Não existe união mais fiel. Fonte de inspiração para a ideia de eternidade conjugal.
A morte não carrega uma foice, ela arrasta consigo um véu e sua grinalda. Odeia quando alguns afirmam repetidamente “até que a morte os separe”, pois ela sempre fora a noiva prometida que aguarda pacientemente seu cônjuge. Chega apenas para levar aquilo que sempre foi seu de direito. Pansexual, não faz distinção entre seus pretendentes. Qualquer coisa viva é sua fonte de desejo. O inorgânico é sua constituição. É a isso que o leitor deve voltar sua atenção. A morte não é metafísica. Ela está entre nós, atravessando-nos com tudo aquilo que é inorgânico. Percebemos a morte não quando o falecimento se consuma, mas em tudo aquilo que não possui vida, no inorgânico. O morto nos rodeia. Olho ao redor e vejo a morte em todos os lugares, nos objetos em minha volta, nas minhas roupas, no ar que respiro.
O homem não é um “ser para a morte”. Antes, somos seres em meio à morte. Ela não está no futuro. Majestosa, ela nos cerca, envolvendo-nos no seu silêncio. Agora percebo que não me encontro na metade do caminho da minha vida, encontro-me na metade do meu caminhar com a senhora morte. E no final, simplesmente deitarei em seus braços.
Por Paulo Victor Albuquerque
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 22 de abril de 2018

Rota de fuga

Em mais um percurso diário, ele olhava pela janela do ônibus enquanto as imagens que passavam fora distorciam-se, na medida em que a velocidade aumentava. Pensava: " a simples maneira de olhar as coisas muda tudo sobre elas. Será que as olho da maneira correta? Será que há maneira "correta" de olhar?" Sempre propunha a si esse tipo de exercício. Com os fones no ouvido, transportava-se para os mais inóspitos lugares do mundo e povoava-os com milhares de possibilidades. Certa vez encarnara o James Bond que virou bandido e fugiu sem rumo frustando a MI6, na outra fora o coringa que tomou juízo, desistiu de Gotham e saiu a distribuir sopas para os necessitados passando a se sustentar de shows de humor. Não havia limites para o aberto que se erigia diante da trilha sonora da mente. A cada parada convencia-se mais e mais de que a vida não precisa ser uma via de mão única e de que todo "ismo" era redução. Já havia refletido sobre isso inúmeras vezes antes de ouvir o pensamento traduzido na simples verdade de que "tentar explicar tudo é coisa de ser humano."
Chegou ao ponto de decida, tirou os fones voltou a viver no seu autorama de gesso.
Tão abrupto quanto o começo  foi o fim.
Gradativamente, enquanto caminhava para casa, tornou a si.
Certo de que no dia seguinte voltaria a voar por entre os prédios como um pinguim com asas de condor.
Certo de que a vida é um truque de luz.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 15 de abril de 2018

Filosofia do tudo

Antes da decadência, havia tudo. O tudo era mudança inclusive e necessariamente. Heráclito brincava no rio que sabia não ser o mesmo, sequer ele também não o seria. Tudo é transformação. E satisfeitos, tanto o rio como Heráclito saiam mais inteiros e
rindo da sua inexplicável relação. Ele chamava isso de brincadeira e o ser para ele era uma criança. Um jogo leve e alegre onde a própria decadência era triunfo. Um tropeço que nosso corpo sara logo. O que queriam os amantes da sabedoria? Saber sobre o tudo. As surpresas do estranho eram motivos de oferendas, banquetes e filosofavam sobre o tudo. Antes da
feiúra socrática chegar e apequenar o pensamento. Antes do moribundo não entender nada do trágico da vida. Antes da tragédia ser posta de lado como uma ilusão. Antes de Platão expulsar os artistas da república, pelo mais puro medo já conhecido. Antes, havia uma
constante mudança, havia o perigo como toda mudança e havia o medo também, com a qual uma população inteira brincava com os deuses. Depois, com esse filósofo, o pensamento virou
rédeas de cavalos indomáveis. Os decadentes chamariam a mudança agora de corrupção da matéria e começariam a proclamar: do nada, nada vem.Tamanha revolta, porque todo medo gera raiva. Eles então começariam a louvar a criação e o tudo era o corruptível, o múltiplo era negligenciado, a mudança era feia e falsa. Tomaram o rio e Heráclito e fizeram dialética, como a última palavra de que colocaríamos rodas na carruagem do tempo. Mas, em seguida, transformaram o tudo em nada. O nada começou a falsear o tudo. Esse mundo não era digno do ideal. Ele era decaído como adão e seus pecados, era decaído como o cristo e seu amor. E, em vez de nos libertarmos, esse mundo agora tinha uma dívida eterna: devia ser outro, devia ser o paraíso. Enalteceram até as últimas entranhas o dever-ser e utilizaram
figuras caricatas para tal. Pouco tempo depois, o cansaço criou o eu como o novo deus quando esse também decaiu. Hoje, batem no peito com suas certezas os nossos sábios contemporâneos! Hoje, somos qualquer coisa que valoriza o nada e a decadência que está travestida bem
na nossa frente, ali mesmo no espelho da ciência, da filosofia, da arte. Sequer percebemos os ganchos e as travas que nos acorretam para a negação do tudo e seguimos ideais, vazios e nadificadores.
Por Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 8 de abril de 2018

Cartografia da vida adaptada


Em que instância poderíamos nos considerar livres? Corriqueiramente nos deparamos com duas principais teorias que defendem a existência da liberdade. Para a primeira, ser livre significa interagir espacialmente com a coisa extensa obedecendo os limites fisiológicos da carne, na outra, liberdade seria a realização de um ato que parte da minha vontade, não dependendo de um terceiro que me obrigue.
Antes de mais nada devo admitir a possibilidade de que a liberdade não passa de uma mera ilusão humana. Acreditamos que somos livres. Creio que posso agir de acordo com minha vontade decidindo os rumos de minha existência. Contra isso, alguém poderia me questionar se o que eu decido realmente parte de minha vontade livre, se não existem forças externas, as quais não conheço, me obrigando a agir de modo determinado. Em relação a locomoção livre no espaço também cabe outro questionamento: o ambiente onde vivo não delimita de todas as formas minhas ações, seja na locomoção, o lugar onde nasci, a língua que falo, os limites do meu corpo?
Se quisermos levar a sério a questão da liberdade temos que pensá-la sob esses dois aspectos, tanto a volição de nossas escolhas como nossa inserção em meio às possibilidades do espaço. Se pensarmos bem, somente podemos existir dentro de um espaço preenchido com coisas, pois o vazio não está ocupado. Ele (o espaço) paradoxalmente exerce uma dupla função: ao mesmo tempo que delimita nossos atos é também o único que nos permite agir, já que somente existimos dentro dele.
Ainda poderiam nos questionar se o libertar-se não seria semelhante a uma fuga, um desprender-se. O ato de sair de um lugar ou deixá-lo é antes de mais nada a pressuposição da ocupação de um outro lugar, pois não existe um fora absoluto do espaço, um além-lugar. A cartografia de nós mesmos delineia não somente os espaços do nosso corpo mas também os da nossa mente. O que seria liberdade então? Talvez seja aquele momento em que abrimos o mapa da vida e desvendamos os tesouros que encontram-se em meio a ela, ou talvez eu simplesmente me esqueça de olhar o mapa.

Paulo Victor Albuquerque
Vivissecção.blogspot.com

domingo, 1 de abril de 2018

Poema da sexta série

Tanto falei, que calei
Tanto verti, que dobrei
O prumo torto tomei
E já não posso mudar

Tanto lembrei que esqueci
De um jeito preso, soltei
O choro, como quem ri
E do desfecho não sei

Tanto desfiz, que reergui,
Tanto escondi, que mostrei,
O que era solto tangi
E do motivo lembrei

Tantas histórias que ouvi,
De tantas voltas que dei,
Das tantas coisas que vi,
Tanto escrevi...

                             que sequei.

Por Júlio César Barbosa
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 25 de março de 2018

Lachaise

As caveiras da tumba de Étienne-Gaspard Robert pareciam olhar para mim, com o deslize das profundezas do cemitério, anunciando o fato de que a fantasmagoria não tem provas, não tem dados, não é sequer rascunho científico, mas é comprovada por quem vivencia. Olhares cadavéricos marcam o fim de tarde no cemitério Père-Lachaise. Titubeio meio confuso dos últimos pintes que tomei com Elize, ao tentar encontrar as ruínas de Proust e Molière. Era tarde, corremos do crematório até a tumba do casal Abelardo e Eloisa. Mas a guarda já buzinava de longe. Outro a pé já apitava “vire a esquerda para a saída mais próxima” com certeza referindo-se a nós e a um grupo de americanas que estavam tentando visitar mais uma tumba para constar em sua check-list de turista.
-Talvez um dos primeiros aqui enterrados – dizia Elize, enquanto caminhávamos a passos largos, com sua aparência gótica que aos poucos estava tomando conta de um horizonte tenebroso. Alta, esguia, seus olhos maquiados e seus cabelos de chanel, pretíssimo e branca como um papel a4. Um rabisco de um personagem do Tim Burton. Ofegante, eu parei ali mesmo.
-Vamos mais devagar. Esse lance de fim de tarde chuvosa, no frio de janeiro, você toda gótica tá me dando calafrios. Não quero ter que fugir da polícia como da última vez em que fizemos nossas aventuras e tive que fingir que convulsionava.
-Sabe Marcel?! – Ela dizia cheia de ideias.- Poderíamos começar a pensar em ficar por aqui e pular o muro na saída. Muita gente lá da escola já fez isso e é muito foda quando tem poucos turistas como o dia de hoje. E eu sei o caminho, vem! Num vai ser nada demais!
O guarda conferia os últimos visitantes já com lanterna e um farejador que denunciaria nós dois certamente, quando agachamos nas moitas próximas da tumba cheia de pincéis e tintas em homenagem à Pissarro. Foi ali que a expertise do pintor nos tornou invisíveis em cores e, talvez, por conta do frio, as narinas rastreadoras do pastor alemão não nos percebeu. Desconfiados, nos levantamos e ouvimos os portões rangendo ao se fecharem.
-Ufa, agora somos só nós dois, livres de turistas e prontos para caminhar e conhecer. – Elize acendia a lanterna do celular que constava com exatos 17 por cento de bateria. A minha pelo contrário já acabara faz tempo.
-Vamos até o Jim Morisson. Precisamos homenagear essa falcatrua.
O cheiro era do frio de inverno. Um cheiro de gelo. Quando chegamos, a tumba dele e a ambientação mudava de tonalidade. Não éramos os únicos. Pouco depois de uns quarenta minutos chegavam viciados, prostitutas e pessoas que admiravam Jim. Eles tornavam o entardecer cinza-escuro em laranjas e cores vibrantes.
-Venham caras! Não se incomodem com essa gente, cada um com sua aventura né?- Dizia um que partilhava a seringa com os demais. E ria dizendo:-Só num recomendo experimentar isso, sabe como é né?! Vocês parecem ter idade dos meus netos.
-Com certeza não. Uma das garotas subia no colo dele e cavalgava como a serpente de “The end”. Se erguia toda para trás e dava para ver uma tatuagem por debaixo da jaqueta de couro preta, em homenagem a essa música. Uma serpente toda redobrável que vinha de algum lugar até outro naquele corpo reluzente.
-São os chakras meu querido. –Ela respondia ao meu olhar, enquanto virava sua dose como uma naja.
- Buda conseguiu a proeza de se alterar sozinho e gostava disso. Toda essa coisa divina é uma alteração da nossa cachola aqui dentro. – Ela sorria e apontava para sua testa onde os cabelos tingidos de um loiro-esbranquiçado caíam amarrados embaraçosamente, enquanto parecia convalescer com o fato de que o que ela dizia fazia muito sentido.
Elize já estava conversando com alguns caras na fogueirinha de papel que faziam ao redor da tumba. Eu me direcionei para eles.
-Fantasmagoria é uma coisa impressionante gata. Muitos de nós já vimos o espírito dele zanzando por aqui.
-É e sem chapação nenhuma, eu garanto. O fogo fátuo do Jim aparece até hoje. Desde os meus pais e a galera que vinha com ele na década de 70. Isso é o que nos leva a crer que seu espírito ainda canta e que não era o fim. Ele tá morto, sabe? Mas como seu espírito se esforçara para eternizar-se em poesia e música, ele flutua por aqui pra inspirar a gente. É aqui que criamos nossa arte. Repare. Ele mostrava suas poesias e pinturas. E dizia:
-Sabe as pitonisas e toda aquela coisa grega de ser inspirada pelos deuses?! Homero começa pedindo inspiração das musas. As musas são isso gata, são modos de alterar a percepção. As portas da percepção. Veja essas artes aqui são do nosso grupo artístico, estamos experimentando esse tipo de pintura...
-Psicodélica? – eu interrompia a conversa.
-Não cara, fantasmagórica. São extrações dessas coisas que vivenciamos apenas nós mesmos. Só entende quem vive. Vocês já experimentaram pelo menos meditar? Vem...
Todos chapados menos eu e, creio, Elize, meditavam na tumba de Jim Morrison como em um ritual praticado há muito, passado de geração em geração. Eu abria os olhos e via aquela roda de loucos. Queria sair dali. Comecei a pensar em Jim Morrison e suas músicas para o tempo passar. Comecei a vibrar o corpo e escutava uma voz dizer “Marcel, relaxe a cada expiração, deixe ir, deixe ir...”. Tremia numa mistura de frio e relaxamento. As músicas estavam evidentes em minha cabeça e eu ouvia sussurros em inglês: “não é mais você, liberte-se do ego. Não deixe sua mente inventar coisas, vá, vá e vá”. Eu via uma luz toda verde dentro da minha visão. Jim Morrison entoava um ritmo frenético. Era sua voz e seu corpo. Não sei porque isso estava fazendo sentido. O fluxo da vida, as batidas do coração de todos estavam seguindo um único compasso. Morrison vinha em forma de dança e sua imagem uivava. “Liberte-se Jim” eles diziam em coro. E como uma imagem que eu não podia controlar, via Jim como se estivesse se apresentando para nós, ditando cada palavra poética e tudo era ritmo: “A luz do desespero deve ser ultrapassada e o amor vence. Vivam os seus vestígios e as suas marcas!”. O sentimento de unidade com aquele cemitério e as razões, pesares e famílias, sofrimentos para alguns e alívio para outros. Tudo se fundira como explicação para além da racionalidade direta dos fatos. As seivas das árvores que transportavam nutrientes dos corpos que se compunha, testemunhas vivas de tudo que ali ocorrera. Cada planta e cada pedra era um olhar permissivo que se dizia e se justificava. Eu entendia e sentia tudo de forma única sem a qual seria incapaz de apreender o fenômeno da morte. Por trás da camada viva, haviam inúmeras possibilidades, isso era tão certo quanto qualquer outra coisa.
Finalizado o ritual, eu já tinha planejado em minha cabeça que pularíamos o muro para garantir que desse tempo de pegar o último metrô para nossas casas. Quando acordei e revirei-me, não havia ninguém no cemitério, exceto eu e Elize. Sabia, apesar da névoa, que ela estava ali comigo.
-O que houve Elize?Cadê todo mundo?Você não imagina tudo que se passou em minha cabeça. Quero sair logo daqui.
Eu tentava me levantar aos poucos. Sentia-me tonto e pesado. Tentava enxergar as coisas novamente como elas eram. Elize não respondia. Fui aos poucos vendo a tumba do Jim, a árvore cheia de homenagens. Grito por Elize ainda confuso. Vejo sombras. Eu estou em cima de um corpo. Grito em desespero e levanto abruptamente. Ainda por abrir os olhos do estado alterado em que eu vivenciara, vi um rosto pálido. Era um corpo morto. A terra amarronzada se mistura com um vestido esbranquiçado. Consigo seguir o rastro de onde parecia ter passado o corpo.
Vou em silêncio, explorando cada um das portas, semi-abertas, abertas ou as portas escancaradas da percepção. Penso o quanto o ponto de vista individual é fragmentado. Quando chego ao fim do rastro está escrito, numa tumba já corroída pelas marcas do tempo, os nomes “Elize M. Roquet– 21/03/1655 – 02/11/1702”. Silencioso, choro de desespero. Havia algum mundo possível em que tudo acontecera. Algum mundo possível onde as coisas se misturaram. Abracei-a. Sua pele gélida, seus olhos tomados quase inteiramente de um branco azulado. A mesma Elize já velha e pertencente a outro tempo e outro local. Ao lado “Homenagens também ao seu marido Marcel. R. Roquet –  24/08/1654 – 02/11/1702”.

Por Jayme Mathias Netto