domingo, 15 de maio de 2022

Ione

 

Deus nos presenteou com um universo enorme. Até onde se sabe ele possui 45,7 bilhões de anos luz, onde se encontram mais ou menos 2 trilhões de galáxias. Uma delas, em formato de espiral, é a Via Látea, nossa galáxia. Esse pequenino lar é composto por centenas de bilhões de estrelas com várias cores e tamanhos, mas somente uma nos é importante já que nos aquece, o sol. Esse jovem astro ilumina, com toda potência que possui, seus 8 planetas circundantes. Permite vida na terra, tudo meticulosamente calculado.

O planeta azul que habitamos, comporta cerca de 7,8 bilhões de humanos. Mas há entre eles uma mulher especial para todos nós, filha de Maria Colaço e Manuel Pereira, irmã de Mazé, Fransquinha, Aurimar, Raimundinha, Zeneida e Chiquinho. Mãe de quatro filhos, criados com muita garra, longe da família, sobrevivendo do seu esforço empregado na casa de vizinhos para pôr comida e amor à mesa, resistindo à fome e à solidão.

Ainda bem que essa foi somente uma parte de sua história. Retornando ao seu lar, com a ajuda da família, continuou a trabalhar para sustentar seus filhos, e logo conheceu o mundo da educação. Alfabetizou centenas de crianças por vários anos, lhes proporcionando o prazer de viver novos universos possíveis através da leitura. Lhes deu dignidade, esperança. A arte da educação transpira de seus poros inundando toda sua família, seus filhos, netos e bisnetos, sua igreja e seus estudantes.

A dádiva da vida não lhe foi concedida por acaso, a senhora nos gerou, nos formou, nos criou. Como um astro galáctico, há 80 anos a senhora nos sustenta, nos ilumina e nos atrai com sua gravidade natural. Sempre que preciso se faz presente, com serenidade e lucidez. Nos momentos difíceis, de acolhimento, de celebração familiar, litúrgicos, continuamente nos clareia com o brilho de sua sabedoria solar, nos acalentando e aquecendo. A senhora traz a nossa vida um sentido único, é criatura linda que inspira e ampara o nosso viver, marca nossa existência no firmamento tanto no corpo quanto na alma.

Em nossas vidas a senhora não é somente mais um ser humano, mais um número, mais um ser vivo qualquer, é, essencialmente, mãe, professora, irmã, tia, madrinha, filha, avó, bisavó, é minha Vó Ione.

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 24 de abril de 2022

Quasimodo


Às vezes eu preferiria ser mudo. 
Que tentar mudar as bases do discurso, nem com força e paciência de um urso eu seria capaz.

Preferia ser surdo que ouvir os estalos de quadros pendurados plenas quatro horas da manhã, enquanto inspiro agoniado pela visita da inspiração.

Ser cego, a seguir o sinal que ressoa no suor que cai da testa no chão, a atestar que o fato de ser ciente, não exime a ciência frente ao senso comum. O sonso e o santo se diferem pela retidão do rumo que dão às suas vidas.

Entre idas e vindas, origem que finda no início, para fundar-se novamente e seguir o mesmo destino, o discurso segue, afundando o fundamento, afirmando o firmamento mais altivo do pódio mais laureado daquilo que se chama de verdade. 

Fomentando o fermento da réplica dialética, cada vez mais mal elaborada que o "porque não" de costume.
Enquanto a "aleteia" clama clemência do juízo da reta razão, que se usa na régua do terraplanista.
Que inocenta o culpado sem pistas de que o mesmo não cometera o delito que apontara o delator.

Queria não ter tato para segurar a chama olímpica do "bem" que tremulou bamba nas mãos trêmulas de Mohamed. 

Queria não me sentir obrigado a brigar pelo brado retumbante que partiu de lábios da fidalguia, para legitimar igualdade num mundo de oportunidades desiguais.
Nem ter experiência que tornasse possível prever que o que sucede, depende daquilo que precedeu.

Tudo isso emerge encadeado em cadeados lógicos, que aparecem entrelaçados em qualquer conversa de bar, com roupagens mais moderninhas. Jogos de linguagem, no linguajar da filosofia analítica.

Preferia não ter olfato a sentir o cheiro de queimado dos meus neurônios em mais um parco raciocínio que, vez ou outra, me leva a esses escombros insolucionáveis que se repetem como um erro na matrix.

Diante de tamanha complicação do simples, por vezes desanimo do pensar.
Desatino ou fato? 
Feto feito de receio, ressaca e rancor.
Que agora é dado a luz para eu parar de sentir a dor da angústia de ter olhado atrás da cortina.

E então, eis mais um Quasimodo, quase um modo de escrever como pintava Picasso. Em pedaços picados, fragmentos de dúvida duras como aço, que divido para, só agora, juntar.
Feito raspa do tacho.

Embora eu muito queira queixar-me por sentir, se não falasse, ouvisse, tocasse, visse ou cheirasse, eu nada quereria.
Nada escolheria, quando muito, daria a luz a esse discurso feio e caótico do qual agora me aproveito como um marginal da retórica.
Aproximar-me-ia pois de uma planta pronta pra repetir para sempre a mesma fotossíntese.

Que seja então feliz esse escrito, enquanto escondido permaneça, badalando os sinos da catedral da minha mente.

Júlio César

domingo, 3 de abril de 2022

Revolta

 


Dedico esse poema àqueles que ousam desavergonhar-se de suas imperfeições antes de mais nada!

Pois que eu quero escavacar tudo

Devorar minha juventude em odiosidade

Botar um disfarce e insurgir nos caminhos

Como uma irresponsável

E regozijar-me do dia em que me arredei dos meus progenitores

O estouvamento onusto

Desculpe as palavras difíceis

É pra fingir intelectualidade

O “deixar meus cabelos longos”,

Aquele corte Punk

O viver de embriaguez de gerações pregressas

E estar eivada como uma desconhecida!

O “jogar fora títulos e faculdades” contado em biografias

O “jogar para cima e bem alto os embargados conceitos” das vanguardas artísticas

E pisar na revolta alheia para que elas firam, me firam e vos firam!

Não quero ser poeta, pensadora pateta

Quero ser um larva rastejante que gira a cabeça “como as pedras rolando”

Anseio me dar conta de que sou rock and roll dentro de mim e rebentar em distorções

Desse jeito me envaidecerei em ser nada

Minha arte é produto da minha imperfeição e, portanto, assim me é a vida!

Não posso enfraquecer músculos nesses conceitos filosóficos que não contorno magneticamente

Tenho que soltar a força de um caminho merecedor e não devo sublimar

Já chega de fazer isso, meu corpo não suporta! 

Eu não suporto! 

Cansei de ser covarde como quem pensa.

Vou entortar a coluna desse edfifíco e virar a mesa desse escritório!

Chega de fingir, porque eu não sou a paz! 

E, no entanto, venho do medo da solidão.

Portanto, “sejais junto comigo” - digo ao espelho 

“Vamos porra!” – eu repito assobiando bem alto "fi-fiiiuu tá na hora"

Mas ninguém responde, e nos olhos de lamentações prefiro continuar escondida, agradando-me aos olhos dos outros.

Sentada e morfada como um cogumelo

Preso às entranhas dos seus sofrimentos

Sem coragem de enfrentá-los e

Entregá-los de bandeja a cabeça fria que não é sua

Prefiro esquentá-la com questões outras, notícias dos dias passageiros

A fraqueza requer frieza, apaziguadora, sutil e lenta

A coragem é quente, tudo ou nada, vida e risco!

Depois vem aquele verme sutil e triste, o lamento: "é, o sistema é foda né?! Fazer o que? Trabalha aí, se esforça aí, estuda praquilo lá, paga aí, paga lá, vive como se tivesse tudo bem, como se..."

Mas sempre digo "Se liga aae em mané!? Fi-fiiiiuu!" 

E bato no peito mostrando os mamilos pro combate!

A revolta tem o nome de Cássia Eller!


Jayme Mathias

segunda-feira, 28 de março de 2022

Ouroboros uma última vez

 


    Pompeu, antes de tomar qualquer decisão, sempre levanta-se de seu trono e, com o cetro na mão, anuncia sua decisão. Comandante dos destinos, senhor do reino da história. Foi abandonado por Deus para julgar seus súditos. Isso não evita que ainda rogue aos céus clamando por socorro ao decretar suas sentenças. Por vezes, revolta-se, chinga o divino, cospe no símbolo sagrado, mas rapidamente se arrepende e retoma as súplicas quando se vê perdido tendo que tomar uma decisão, pobre ser finito que reina. Está fadado ao acaso, seja para criá-lo ou mesmo para cumpri-lo.

    No que diz respeito a sua vida, acredita que a coisa é completamente diferente. Toma suas próprias decisões. Comanda seu destino e é senhor de sua história. Mesmo quando abandonado por Deus, acolhe as rédeas do porvir e guia seu caminho. Quando se percebe só, implora por intervenções celestiais à procura de alento, chora como todo sujeito moderno detentor de consciência de sua sina. Foi lançado ao mundo completamente nu e sozinho, uma criatura pequena coberta com roupas monárquicas que está fadada ao destino, seja para destruí-lo ou mesmo rejeitá-lo.

    A corte representa seu mundo em miniaturas, onde as criaturas jogam acreditando brincar. Na verdade, Pompeu tem o cetro preso às suas mãos quando acredita o segurar. No fim do espetáculo as luzes se apagam, a cortina se fecha, os personagens são recolhidos do palco e Pompeu, arrastado pelas cordas amarradas em suas extremidades, é guardado na caixa de bonecos.

Não tenho tanta certeza se já não escrevi esse texto antes.


Paulo Victor de Albuquerque Silva


domingo, 20 de março de 2022

Réu primário do marasmo

 


Tenho lutado contra a retórica em meu favor.
No processo sou eu o juíz,
advogado, réu e promotor.

A acusação entra.
Os crimes: procrastinação, fracasso. Ter se fechado ao espaço que se abre para o pensar.
Introjeção e ocultação de reflexão. 
Falsidade ideológica.
Receptação de tudo. Emissão de nada.
Homicídio qualificado da leitura.

Ao testemunho, no banco dos reus, relato:
Que aos céus tenho rogado, apesar de não crer na total benevolência do divino
Que alguma força me devolva o fascínio, traga de volta o tino para arte.
Que apague do peito a letra escarlate que salga a semeadura da estrofe.
Além disso não tenho muito que dizer em meu favor.
Pois note, que por tanto tempo fui aluno e agora me recuso a ser professor.
Professar sobre a certeza que nem eu mesmo tenho.
Seria inútil empenho em vender o que não se compra, nem mesmo para si.
Desesperançoso, resta deixar que a defesa entre em cena.
E aponte algo que valha a pena salvar
No meio do lixão em que não mais tenho sido capaz de me encontrar.

A defesa inicia:
Ora se até o nada, tem sobre si uma vasta filosofia 
Onde as conclusões sobre o "não ser" se bicam como galos numa rinha,
Que linha reta essa defesa poderia seguir senão uma curva?
Quando até a própria mente se turva de tal modo a não poder se enxergar no horizonte distante.
A defesa poderia chamar a depor várias testemunhas, para invalidar as acusações nesse instante.
Vivissecções já feitas.
Elocubrações constantes nos autos do processo da vida.
Seriam provas concretas e lavradas.
Porém a inocência ficaria clara apenas aos outros. 
E nada disso inválida o presente julgamento, que nesse momento é de si.
Como, no entanto, demonstrar ao juiz a inocência de alguém que quer ser incriminado?
Ou pelo menos desistiu de se declarar inocente?
A defesa apela portanto que se atente a verdadeira culpada dos crimes apontados. Depressão.
Ora, pois que nada mais ela é, que se colocar além de qualquer salvação.
Empurrar para si o irremediável rótulo de invalidez.
Sem clamor, sem amor, sem perdão.
Pois ainda que todas as autodefesas, "autoestimativas" tenham sido dribladas, a defesa foca a narrativa no argumento de que permanece acima de tudo, o julgo da razão. Ao que dizia Sêneca: " a adversidade é exercício. Não importa o que você suporta, mas como você suporta."
E este indivíduo caro juiz, segue suportando. Fez disso um vício ano após ano, depois de todas as quedas que levou.
Como um indivíduo que berra aos 4 cantos, que desistiu de si e ainda assim, segue escrevendo esse texto, a defesa encerra pedindo absolução deste, por cegueira do ser causada pela "desvontade" da vida

A sentença:
Todos de pé!
Com a palavra vossa excelência, inteligência máxima residente neste amâgo:
Das acusações feitas e argumentações apresentadas, este que autolegisla entende, que este julgamento é a maior prova de que ainda se processa no réu tentativa de ir contra tudo aquilo de que fora acusado. Tendo em vista que intenção não exime culpa, a justiça determina que o réu peça desculpa a si mesmo pela sua autosupressão constante, caso assim não consiga, que busque ajuda profissional externa.
Para concluir um conselho da jurisprudência para o comitê de essência do réu, que baniu de si a alegria.
Um excerto, de uma mensagem certa vez capturada, despropositada, a esmo, mas nunca realmente em vão, nos arquivos do inconsciente:
"Você tem que acreditar na poesia. Porque tudo na sua vida vai deixar você na mão. Inclusive você mesmo."

Júlio César


domingo, 13 de março de 2022

Cuspe

 Sim, título bizarro!

É que só a poesia liberta!

Entre emoções que esfriaram

Entre panoramas que se igualaram

A vida quando parece 

Não dizer nada de importante

É só a poesia que salva!

E o cuspe, claro!

O cuspe punk que trouxe 

Pra ter um tom de rebeldia

E meu poema não existe

Se não como alguém

Que cochicha

Falo também de poeta

Não só de poesia

Da música

Como quem samba

E se veste 

De felicidade

Com ritmo da terra mãe

Que se não tivesse

Ainda Beethoven se ouvia

Não que Beethoven não seja excelente

Mas é do ritmo que falo

Dança e tambor

Não que todo o resto não seja lindo

Mas falo de música com a beleza do batuque

Não que as fenders não sejam surpreendentes

Mas falo de solo de guitarra com violão, pandeiro

e cuica

“E alguma coisa acontece no meu coração..." 

Pra substituir qualquer ra-ta-ta e exercício nuclear

Pois logo cedo já escolho morrer bêbado de poesia, música e não de medo

Aquele abraço!


Jayme Mathias 

domingo, 6 de março de 2022

Sacro Santo



    Laica é uma jovem moça de família temida e poderosa, os Fonsecas. Linhagem respeitada de militares que utilizam de todas as estratégias para manterem seu status quo, ações que vão desde sonegação de impostos à criação de empresas para lavagem de dinheiro, fruto do eficiente trabalho miliciano. Ao centro do núcleo parental, Laica representa todo o esforço familiar concentrado em sua figura como a neta mais querida que carrega consigo a marca da eficiência educativa dos Fonseca. Quanto maior a docilidade e a passividade da garota mais larga seria a capilaridade do poder patriarcal da família falicamente egóica.

    Laica Fonseca sabia costurar, cuidar da casa e dos possíveis filhos. Era virgem, mas já fantasiava sua vida sexual, principalmente quando ouvia escondida a narrativa das aventuras de seus primos com as jovens do bairro. Imaginava sua cama revirada de orgarmos múltiplos na companhia de meninos e meninas. Masturbava-se sempre que se percebia sozinha em casa. Adorava ir ao confessionário da igreja ver a silhueta do padre atrás dos basculantes de madeira e idealizar seu corpo nu em pecado. Vingativa, perdia-se em pensamentos nefastos planejando qual a melhor maneira de matar seu vizinho que colocou veneno para sua gata de estimação. Na biblioteca pública, procurava livros com temáticas eróticas e romances investigativos. Resistia à moralidade falocêntrica de seu pai criando um mundo majoritariamente profano com libertinagens carnais e cadavéricas.

    Na quarta-feira de cinzas, após vasculhar as ruas da cidade à procura de coitos públicos prestativos no aprimoramento de suas fantasias, decide retirar suas sandálias e entrar com os pés descalços em casa, para não ser percebida. Do lado de fora, na calçada, uma mulher embriagada dorme ao chão, ela possui somente um dos calçados. Laica aproveita a ocasião e lhe oferece seu par novo de chinelas. De súbito, ao abrir os olhos, a mulher indigente vê uma luz vinda do céu a iluminar Laica num sinal divino como que enviado pelo próprio Deus dos cristãos. Ela chora copiosamente enquanto beija as mãos de Laica reconhecendo a figura santa que lhe ajudara. Os primeiros raios do dia traziam os moradores à rua indagando o que havia ocorrido. “Ela é uma santa enviada dos céus” afirmava a mulher, Laica negava enquanto rapidamente se encaminhava à sua casa com medo de ser descoberta por sua mãe.

    No mesmo dia, a história corria por todos os becos e calçadas. "A melhor neta dos Fonseca é uma santa”, a “Santa Laica”. Depois disso, Laica passou a receber pães de graça na padaria, visitas particulares na sacristia, rosas surgiam na porta de sua casa. Não conseguia ficar sozinha para suas leituras na biblioteca, as visitas constantes lhe retiraram sua masturbação matinal. Ela odiava tudo isso e só pensava em socar todas aquelas pessoas até banhá-las em sangue, ao invés disso sorria e agradecia, como fora educada. Logo compreendeu que toda essa blasfêmia sobre sua vida iria lhe roubar os possíveis pretendentes para suas orgias imaginárias, afinal ninguém mais a perceberia como vulgar. Os dias passaram, depois meses. Relatos de milagres surgiram, alguns envolviam até mesmo as sandálias que estavam com a indigente. O ser de Laica, que tanto lutara para ser seu, tinha agora como inimigo um grande falo, um moralmente coletivo. 

No fim, vieram roupas longas, procissões, admiradores, missas diárias e castidade. Ao compreender a fatalidade da vida miraculosa conclui ao avistar seu rebanho de cima do altar, “sou uma Santa”, e acreditou nisso.

Paulo Victor de Albuquerque Silva