domingo, 23 de outubro de 2022
Todo dia
domingo, 16 de outubro de 2022
Verdades.
Eu minto para a vida sobre ser
Minto saber o que sei
Minto sobre o que não sei
Minto o porquê sei
Eu minto para continuar vivo
Minto pra miséria
Minto pro amor
Minto pra morte
Eu minto quando faço arte
Minto quando escrevo
Minto quando crio
Minto em poesia
Mas a pior mentira não é para mim mesmo
O deus da mentira não é o diabo
A mentira não é a ausência da verdade
Eu minto de dia e de noite
Minto de corpo e alma
Minto pra filosofia
Minto para honrar a falsidade
Eu minto com o não dito
Minto o dito
Minto dissonante
Minto em silêncio
Eu minto quando busco a justiça
Minto quando tenho virtude
Minto na igualdade
Minto em legalidade
Eu minto pois a mentira é o último adágio da verdade
Paulo Victor de Albuquerque Silva
domingo, 9 de outubro de 2022
Expiação
Sou culpado.
Assim me considero.
Não espero clemência,
Mas pagar aquilo que devo.
Não a homens, não a crenças
A mim mesmo.
Nenhum tribunal jamais me incumbiu.
Nenhuma instituição para me eximir da pena.
Minha sentença é reconhecer e também suportar.
E quando me faltar energia, que me sobre força.
A mata branca confidencia minha dor.
No céu o imperador dos astros, inclemente, faz descer sobre minhas costas o seu chicote.
Resignado, ouço seu clamor.
O suor que como sangue serpenteia em minha testa.
Atesta a expiação.
Estunado, movo-me lentamente na superfície escaldante.
O instante é infinito.
Não há injustiça. Não há lamento.
Pago o que devo.
Sob o firmamento, sou ciente
De que meu silêncio jamais me eximiu.
Do erro contínuo ao qual pertenço.
Vício ou virtude? Me atenho ao fato.
Imperfeito
Errático
Estou.
Devo então expiar, para curar, criar casca e cicatriz
Pois tudo que nasce morre.
Para que renasça algo melhor, algo que condiz
Depois de toda a expiação,
Estamos, meu bem...
por um triz.
domingo, 25 de setembro de 2022
Havia
Tinha no ônibus um carinha que dizia
Eu podia tá matando
Eu podia tá roubando
Ele dizia o resto que rimava muito bem
E quem sabe conhece
Mas vou pegar só esse trecho
Eu podia tá matando
Eu podia tá roubando
E nesse ritmo penso
Eu podia está fazendo isso e aquilo
Eu podia tá resolvendo as coisas da minha carteira de
motorista
Eu podia tá adiantando um trabalho que não tem prazo, mas o
cliente só paga quando eu terminar
Eu podia tá dando um jeito da grana entrar mês que vem sei
que tem pouca ou quase nada
Eu podia tá estudando a fundo um assunto filosófico do meu
interesse
Eu podia tá vendo um novo ap para me mudar
Eu podia tá publicando um artigo acadêmico
Eu podia tá traduzindo um artigo para publicar
Eu podia tá dando uma volta na cidade
Eu podia tá andando de bicicleta
Eu podia tá planejando ter filhos
Mas, pasmem, tou justamente pensando em todas elas e
escrevendo sobre elas
Nada disso tem nada a ver com vivê-las
Nada disso tem nada a ver com fazê-las acontecer
Mas simplesmente não faço nada delas
E escrevo sufocado por pensar em fazê-las
Admirado com a capacidade da memória em saber de cor tudo o
que tem que ser feito e que justamente não faço
Ela parece até que é inimiga da preguiça que tanto sinto
agora
Tenho preguiça, falta de ânimo e nada me motiva para fazer o
que listei acima
Talvez porque realmente não faça sentido
Nunca planejo futuros, nunca os vejo, nunca os vi, o que
faço acontece e o que acontece nesse momento é o texto
Um texto que alivia uma memória cansada
De tanto lembrar essas coisas, esses ciclos
Quando se escreve, as conexões se tornam elásticas
Mas nunca vou me entender
E até cansei disso, cansaço e preguiça é o padrão e a norma
de toda a minha escrita
Um século da atividade, não obstante cercado de uma pandemia
A memória sanguessuga de mim
O texto sanguessuga da memória
As palavras sanguessugas do texto
E eu querendo sarar tudo isso
Aprendi a escrever para fazer sarar
Foi cedo, bem cedo na infância que queria escrever história
quando li meu primeiro livro
Os Pequenos Jangadeiros de um tal Padilha
Li não, foi meus pais que leram para mim
Eu tinha e sempre tive a tal da dislexia pedagógica
Pra eu me centrar numa frase qualquer dói até as pernas
Quem tem sabe como é
Tá vendo isso? A memória vai ativando outras coisas
O que gosto da escrita é isso, ela vai fazendo a memória
puxar os fios
Ela vai fazendo a memória ser outra coisa que não cobrança
É como se a memória tirasse férias da mente
Porque sou pensador, minha profissão nunca para, nem que num
tenha nada a ver com pensar filosofias
Se não encontro no mundo ou nas pessoas os problemas,
encontro em mim mesmo
Mas na verdade invento, porque nada disso existe
Nem a filosofia existiria se não fosse essa coisa de sarar
por meio de textos e memórias
Quando conheci os filósofos de perto percebi, cada um deles
tinha essa agonia que sinto
Essa dislexia com o próprio tempo, uma falta de ritmo, uma
falta de rima com o que vive
A memória de todo filósofo encheu o saco daquele cérebro até
ele ir lá e fazer o texto, de novo a memória tirava férias
Ou mesmo a fala
É só ver Sócrates e seu Daimon
Cristo e seus apóstolos, a memória deles cansou e tirou férias
Se Sócrates não falasse ia ficar doendo a perna dele o dia
todo
Jesus também, por isso nem um dos dois escreveu
Igual dói a minha pra me concentrar numa tarefa como aquelas
que listei acima
Tarefas que dão preguiça
É muito interessante essa tarefa de desopilar a mente com
outras memórias
A mente de férias
Acho que comecei a filosofar porque minha mente queria essas
férias forçadas
As férias da mente é quando ela ganha força para pensar por
conta própria
Tanto é que a metafísica é a produção mental mais criativa
da filosofia
Ou o filósofo cria uma metafísica ou aceita a do seu próprio
tempo
A do nosso tempo é mercado, política e capital
Nunca mudou muito
Mas há várias outras
Porque é só a mente não se satisfazer com isso que ela vai
atrás de outras e, se não acha, cria rápido
E pega aquele corpo, se apossa, faz filosofia nele e bota
para escrever
Se tenho uma filosofia é porque acabei de descobrir e é essa
A mente que se apossa de tudo como um Daimon
É ligeiro a forma como se expressa, mas devagar sua
insistência
As ideias insistem como escorpiões sorrateiros, vão
acumulando e aprimorando veneno
Até que chega um dia que a mente cansa deles e arrasta para
o texto tudo o que tem que dizer igual a um carneiro de chifres galopando para
atacar o oponente
Ele tem que encher de ar os pulmões e fazer na máxima
velocidade nas pernas, com os chifres e o restante do corpo pronto para aquele
instante depois de anos de vida
Esse texto foi desse jeito e todo texto é
De uma forma ou de outra, essas férias da mente acontecem porque
ela fica brava com os pensamentos
Todo Daimon é assim
E vejo que com quase tudo na vida sou assim
Então tudo isso é só coisa minha
Que talvez sirva para outra pessoa também
Vai que as almas batem igual dois carneiros de chifre
Se não bater, podem tomar emprestado ao menos a necessidade
E sou assim com tudo na vida, acumulo um pouco depois vou lá
e bum, resolvo duma vez com perfeição e maestria ou de pouco em pouco para dar
certo
Quando é difícil vou de pouco em pouco pelo mais fácil
Quando é fácil é bum atrás de bum
E agora o que cansou foi o texto em si
Que já tem ar de despedida
Ele já vai e só volta quando tudo isso de volta ocorrer
Mas talvez volte logo, porque, apesar de tudo, sinto que não
sarei
Ainda penso no que tenho que fazer e nisso e naquilo que me
falta
Por isso que dizem por aí que filosofia mesmo não morre
nunca e num serve pra nada
domingo, 18 de setembro de 2022
Ponto na curva.
Arnaldo Antunes nos diz que o “real resiste”, mas ele não resiste ao século XXI. A geometria clássica já nos dera o diagnóstico. O espaço é formado pelo alinhamento dos planos. O plano, por sua vez, se constitui por retas alinhadas. A reta é o conjunto de pontos que não fazem curva. E os pontos, bem, os pontos não possuem forma nem dimensão, são objetos adimensionais. O ponto não está no espaço, mas o constitui. Nosso mundo pós-moderno com seus terabytes é uma superestrutura maciça construída em cima do abismo. A edificada selva de concreto e aço que esconde o que sobrou do céu, suspira atomizada, é ponto disforme e sem dimensão. Então você vem me dizer que a verdade é o real? O real é o vácuo esquecido pelo mundo. Mas, na verdade, o mundo real é isso, um ponto que não está no espaço mas que o constitui. Coisa que o fascismo capitalista compreendeu muito bem.
Paulo Victor de Albuquerque Silva
domingo, 11 de setembro de 2022
Nada escrito
Eu não tenho nada escrito.
Tenho o que cito e tão logo esqueço.
Tenho o cálculo mas também o devaneio.
Receio ser esse o preço da geração fast food.
Fast think, fast poetry. Tudo tão a miúde.
Robin Hood, tiro da gramática, pra dar ao motivo.
E sai tira da Mafalda com piada sem sentido.
Acho que entender é melhor que soar bem na norma culta.
A vida adulta transcorre por mim como brisa que não marca. Não conta.
Como passar batido no fotosensor.
Aguardo pela multa do excesso de velocidade.
Salvo pelos cabelos brancos que se reproduzem em minha barba, denunciando a idade,
Vivo a eterna ressaca de dias fúteis.
Carrego em minha Arca de Noé, porquês raros e vazios.
Eu não tenho nada escrito.
Nenhuma frase em negrito, nada que denote brio, que a algures possa ser citado em algum rodapé.
Tudo que falo, já foi dito.
Ando por aí feito um céu repleto de nuvens carregadas sem que, no entanto, caia delas um reles pingo d'água.
Não decoro nada do que falo.
Não recordo nada do que escrevo.
Não declamo.
Me derramo sobre o silêncio constrangedor.
Nas horas vagas, reclamo.
Bodejos fluem como enxurrada, arrastando barrancos de sensatez e prática.
Me misturo em solução eutrofizada onde algumas poucas partes por milhão são jóias, que nem acredito que tenham vindo da minha foz.
Tão raro quanto as avisto é ouvir sua voz.
É preciso tempo.
É preciso deixar acalmar, para perceber que a vontade precisa de falta para se revelar.
Deixar a torrente virar calmaria, rio cheio de volta.
Rebelião e revolta, darão lugar a um fino fio de sensatez.
Depois de toda a baboseira que se solta e vai embora de vez no resmungo sobrenadante, brilha no fundo do espelho d'alma o instante pensante do não dito.
Perturba como zumbido de mosquito.
Ressoa como as 7 trombetas...
E eis me aqui a escrever algo que amanhã já não lembrarei.
Mesmo assim...
Ainda que nunca tenha realmente estado aqui...
é bom estar de volta.
Júlio César
domingo, 4 de setembro de 2022
Feito ou Perfeito?
É arrumar a casa sabendo que por mais impecável que fique ainda terá muita bagunça
É dar um jeito, sabendo que a grande parte não tem jeito
É pagar as contas sabendo que muitas contas nem precisava ter
É saber que a gente morre e muita coisa não deu tempo
É saber que fomos acostumados a deixar a felicidade para depois e os problemas primeiro
É se indignar porque ainda não resolveu muita coisa
É viver resolvendo coisa
É fazer declarações mesmo sem saber por que
É fazer afirmações que amanhã não serão nada
É estar pronto, sabendo que pronto mesmo nunca estamos
É dormir cheio de coisa na cabeça, mesmo sabendo que o dia não foi tranquilo
É acordar para trabalhar, mesmo sabendo que o dinheiro pode não dá
É se desfazer de roupas velhas mesmo sabendo que muita roupa velha ainda tá lá guardada
É ter esperança, mesmo sabendo que o medo é que bate na porta
É se sentir bem com as pessoas, mesmo sabendo que muita gente fala mal
É ter certeza, mesmo sabendo que a cabeça tá cheia de dúvidas
É ter vida, mesmo sabendo que boa parte em mim tá morta
É estar alegre, mesmo sabendo que dura bem pouco
É fazer faxina sabendo que muito ainda ficou e vai ficar por fazer
É ter a morte, mesmo sabendo que boa parte em mim tem vida
É se embriagar, mesmo sabendo que tem ressaca
É ser isso e não ser nada daquilo
É fazer arte, mesmo sabendo que a sociedade que criamos é enfadonha em suas entranhas
É ver a beleza, mesmo sabendo que é um jeito de ver
É sentir firmeza, mesmo sabendo que o humano nunca construiu nada de firme
É sentir clareza, mesmo sabendo que todos os nossos projetos são dúbios
É apontar para um objetivo, mesmo sabendo que nada pode dar certo
É dar sua vida, mesmo sabendo que tudo pode se perder
É limpar o vidro da janela sabendo que por trás dos móveis tá sujo
É sair de casa, mesmo sabendo que se pode morrer
É saber, mesmo sabendo que não dá para saber com certeza
É cuidar de uma coisa, mesmo sabendo que muita coisa não é cuidada
É ser atravessado por tudo isso, mesmo sabendo que podíamos fazer tudo sem saber
É tentar fazer, mesmo sabendo que muito não vai ser feito
É ficar velho, mesmo sabendo que cada dia você enxerga mais e melhor
É saber que vai morrer e a vida pode ter passado e você pensando que sabe
É saber que há um conforto em pequenos momentos passageiros que poderiam ser eternos
É saber que nem todo conforto vem do que é resolvido
É resolver, sabendo que nada tá resolvido
Tentar estar contente com isso, mesmo sabendo que contente mesmo não vai estar com aquilo
É saber decifrar a angústia, mesmo sem ela nos poupar
É saber-se finito, mesmo sabendo que temos sensações infinitas
É saber-se imperfeito, mesmo que possamos fazer perfeito
E nada mais angustiante, do que ficar entre achar que dá ou não dá
Jayme Mathias