domingo, 16 de setembro de 2018

A morte de Acteon

Somente aquele que teve o infeliz acaso de encontrar-se com a evanescente sensação da perda de si, acometer um ente próximo, consegue ver os pormenores semelhantes ao momento histórico que vivemos. Sim, porque nada mais somos que uma grande catarse coletiva que destrói a si.
Vivo no país do Alzheimer e vos direi o porquê.

O enfermo que apresenta tal moléstia perde-se, por vezes, entre a infantilidade e a incapacidade. Os dias, alternos, por vezes, são de manutenção de uma falsa estabilidade, outrora, de total regressão.
A sombra de quem um dia foi traduz-se em um vulto cada vez mais distópico.

Aos poucos, volta-se ao momento do infante e tudo parece novo de novo. O simples abriga a graça da descoberta. A inocência se mistura com a incompreensão de cometer os mesmos erros, que de alguma forma gritam de um lugar ermo no inconsciente e que "já foram cometidos". O conflito de "quem é" com "quem era" provoca choques turbulentos, que submergem o acometido em um torpor cada vez mais intenso e os dias bons tornam-se cada vez mais escassos.
Progressivamente, esquece-se de quem é, das necessidades fisiológicas, de respirar e, por fim, de sobreviver.

Pois, se lhes parece triste a sina ao tratar-se de um ente querido acometido por esse mal, imaginem o quão desesperador seria descobrir que somos nós também a massa cinzenta que a cada dia se autodestrói!?
Pois, se para Hegel a história tem um espírito, vos digo: ele tem Alzheimer.

Somos nós brasileiros, ou mundiais, a prova viva da regressão e transgressão primeira para tudo o que é torpe. Ora, se não somos a inversão de valores, o discurso de ódio, a "fake" news, então o que somos? Se não é a "memetização" do "politicamente correto", a brincadeira "inocente" do Alzheimer com tudo o que demanda seriedade?

E assim somos e vamos, acometidos por uma corrupção metafísica, incorrendo nos mesmo erros, elegendo os mesmos inaptos e nos isolando cada vez mais em nossas ilhas digitais de indignação. Cercados pelas tsunamis do ultraconservadorismo, sofremos continuamente a plasmólise da vida social, buscamos pelo bote esclarecido da salvação que nunca vem. A autorreflexão torna-se ilusão de grandeza e opinião e razão viram sinônimos.

E os que pensavam ser Ágora, eram senão mais uma multidão doidivana a clamar por sangue no anfiteatro Flaviano. Torcendo para que Acteon seja devorado por seus próprios cães. Abrigamos o lobo e atiramos na chapeuzinho, enquanto as cadelas, das quais nos alertara Brecht, continuam a esgueirar-se impacientes, seduzindo os ébrios que cruzam seu caminho.

E o que se entende por reviravolta do absurdo,  tratam-se dos "glóbulos brancos" no cérebro enfermo, atacando repetidamente a si. Na esfera macro ou naquilo que se entende por estado, estas mesmas partículas denominadas "bolsominons" ou, ainda genialmente definidos por Albuquerque (2018) como frutos de uma "ontologia do progresso", atacam o próprio organismo pensando estar poupando-o de um stress maior, enquanto empurram-no incessantemente ao colapso.

Autoimunes, resta-nos agarrarmos à leve sensação de alegria das descobertas já feitas e não lembradas, enquanto voltamos a engatinhar sem entender bem por quê.

Que possamos então aproveitar nossos dias bons, até que não reste nada mais e voltemos a ser poeira cósmica.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 9 de setembro de 2018

domingo, 2 de setembro de 2018

Pontos de luz ancorados.

O sol morria lá fora engolido pela imensidão
Caminhei sobre os passos marcados do sempre igual
Encontrei em minha mesa amarguras e alegrias do destino
Mas você estava lá
Sob a abóbada celeste se despia o alpendre de nossas vidas
Na outra ponta do mundo você sorria para algo além de mim
Separados por vales e montanhas, copos e talheres
E você estava lá
No momento derradeiro ergueu o seu farol
Iluminou em mim sua despedida
A brevidade de cada suspiro repousava no leito do meu olhar
Enquanto você estava lá
A voz que é minha devora o amanhã, dirá
Sem amarras ao mastro meu som é, para ti, sereia
Proclamo ao mar o cântico ouvido por Odisseu, mergulha
Pois você estava lá
A partida não se fez em mim sentida
Continuo contigo na vastidão do oceano que habito
Rogo as musas para, outra vez, cantarolar ao teu ouvido todo amor que sinto
Já que você está cá, comigo
PS: Homenagem a minha esposa Ana Suely e nosso aniversário de casamento.

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 26 de agosto de 2018

Releituras (a)gosto: Oculi speculum animae sunt

Ah o olhar! O olhar reluz, conduz, condiz e apraz.

Seduz, simula, dissimula e ludibria.

Eis que é astuto e seu intuito é muitas vezes voraz!

O que satisfaz a fome do olhar?

Somente a concretização daquilo que está lá no fundo, escondido no coração e deixa nos espelhos da alma brilhar.

Olhar de verniz, prediz no que as palavras se enrolam.

Transmitem os passos que muitas vezes se engodam
e desatam os laços nos quais nos deixamos emaranhar.

Engendra-se para onde ninguém mais vai.

Faz-nos tropeçar onde ninguém mais cai.

O olhar pode ser terno
ou tenso,
resignado
ou propenso.

E tal como se olha para fora, se faz para dentro,
para o centro
da alma do poeta.
Feito seta
o olhar que afeta
também se deixa afetar.

O olhar de inúmeras faces, de inúmeros instantes,  inúmeras almas.
O olhar da calma, o olhar da chance, do alcance ou do simples olhar para o mar.

Sim, pois, para dentro ou para fora, o olhar não demora, não tem hora, nem lugar para se mirar.

Seja o olhar que chora ou o olhar que espera.
O que odeia ou o que venera.
Nada escapa ao seu universo de significar.

É fascinante a multiplicidade que nos invade ao contemplar e perceber
que o olhar que absolve
pode ser o que condena
e o que acolhe
o que envenena.

Dos tolos que não percebem, só resta a pena de
não notar
que a comunicação pelo olhar
é notória demais para se deixar passar,
pois quem olha sabe o significado e é sempre para um resultado que se lança
essa dança,
que não precisa proferir uma palavra ou som,
para significar
para alguém,
um alento,
um intento,
um lugar,

seja ele de paz, ou de guerra,
no inferno,
ou na terra,
ou em tantos lugares quantos se possa imaginar.

Quantos poemas nos dizem do olhar?

Em quantas músicas a nossa bossa,em verso, ou prosa tentou nos mostrar
que olhar é privilégio
e fechar os olhos um sacrilégio
digno de quem quer se matar?

Seja quem for, valorize seus olhos,
os espólios
que eles lhes proporcionam,
sempre emocionam
aqueles que com eles não podem enxergar.

E que sejam quantas forem as músicas,
quantos sejam os versos,
ainda que se escreva o inverso,
deles haverá o que dizer.

Pois já dizia aquele velho ditado,
daquele pobre que sofreu um bocado, porque não sabia do outro,
porque ria ao ver o sol nascer. 

Àqueles que agora perdem tempo lendo esse projeto de poesia,
que possam sentir a alegria
do entardecer e que estejam cientes
de que não há lente
que limite o que os olhos falam à vida.

Não importa o que essa gente metida
a interpretar o que sente diga
o que dos olhos se deve dizer,
nunca ninguém em parte alguma jamais traduzirá, por completo, a essência do olhar.

Júlio César Barbosa Dantas
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 19 de agosto de 2018

Releituras (a)gosto: O plano

Antes

Durante

Depois

São planos

O antes que já foi

O durante que já passa

O depois que nunca vem 

Até que renasça 

Como antes também

Planos são fumaças

Que fogo não tem


Por Jayme Mathias 

domingo, 12 de agosto de 2018

Releituras (a)gosto: A guerra dos Fonsecas

Fonseca, general experiente de inúmeras guerras, que, como todo ser vivo, encontrou vitórias e derrotas ao longo de suas batalhas. No auge dos seus quarenta e poucos anos já passou por diversas pelejas orquestradas pelo destino: possuiu duas famílias, incontáveis amores, metros de cabelos cortados, bigode sempre afiado. De todas suas vivências nada se compara ao campo de batalha. Nele o corpo se presta a um estado limite entre sua constituição e a fissura, mutilação. Não há momento mais severo, mais engajador. A trepidação da metralhadora se propaga em suas células, repetição acelerada que lhe traz o prazer sexual. O choque do tiro, da luz, da bomba, do inimigo inesperado, tudo pulsa num campo de tensões.
Aí você lendo esse texto, criando as imagens do Fonseca em sua mente dentro do lugar de combate, relacionando sua imaginação com algum filme que já assistiu ou coisa semelhante. Você consegue envolver seu corpo com esse texto mais do que o Fonseca com o campo de batalha? Não. O empenho do corpo dentro do combate é completo, a tensão dos músculos, o estalo dos ossos, o ranger dos dentes, o estômago virado.
Acho que foi na primeira quinta-feira do ano passado: Fonseca estava em um novo conflito, tudo normal, corpos dilacerados, córregos de sangue, o velho cheiro de suor e morte, mas algo estava estranho, o nosso general assistia todo o espetáculo da técnica do mesmo modo como presenciava o jantar em casa, as reuniões no quartel, o coito com seus amores. Sabe o que é isso Fonseca? O tédio. Agora sim leitor, não há mais diferença entre sua imaginação e o campo de batalha do novo Fonseca, entre o seu dia, sua vida, e a de mais ninguém. Se o prazer de viver está na luta, e se tudo agora é mais do mesmo, por que continuar na guerra? É na ausência do prazer que a falta de sentido do existir nos aparece. E haverá um dia em sua vida que eu retornarei para narrar o seu desespero também.

Paulo Victor Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 5 de agosto de 2018

Julho do Leitor: O indigno (PARTE 2) - 2/2

... continuação...

No fim da tarde, quando a meia lua branca estava no céu limpo, o velho pedro contou as moedas que tinha conseguido naquele dia, somou com outras tantas que tinha no bolso e percebeu que eram bastantes. Levantou a cabeça, mas somente o suficiente para que pudesse ver o caminho que tinha que andar – “A vergonha”, pensou o velho, “é como as sacas de feijão que um dia já carreguei no lombo: pesa tanto sobre a cabeça que não consigo dobrar o pescoço no rumo de cima”. Caminhou rápido, com pressa, a ponto de conseguir chegar ao armazém da cidade quando ainda estava aberto. “Senhor, quanto de madeira consigo com esse dinheiro?”, disse pedro ao dono da venda. Ele lhe mostrou, pesando na balança, o tantinho de caibros sujos que correspondia àquelas moedas. “Servem. Muito obrigado”, disse ele, preenchendo o vazio que se fazia presente naquele saco de pano. Dali, o velho pedro tomou a direção do lugar onde a sua derradeira tarefa havia de se cumprir. Andou, e andou mais, até que saiu da cidade. Tomou estrada de terra, contornou as curvas que entortavam o caminho, até que caminhou pela vereda que lhe levaria, finalmente, ao lugar. 
Chegou ao cemitério. No cemitério há ruas, há esquinas, há endereços. Mas, ali não andam carros, só há o vale de lágrimas dos transeuntes desconsolados, sem pressa em prestar suas homenagens desaceleradas naquele espaço despregado do tempo: em cemitérios só há eternidades. O velho pedro tomou seu rumo, que era certo, e dobrou as esquinas que precisava, até que chegou ao seu endereço. Olhou para o chão e viu a cruz de madeira, tão conhecida sua, enfiada na terra. A cruz era feita de duas varetas simples, imperfeitamente sinuosas, envolvidas em folhas de carnaúba no lugar onde se cruzavam. Pedro pegou a cruz com a mão e a arremessou o mais longe que podia – a força que havia feito no movimento foi tanta que, logo após fazê-lo, ofegou por alguns segundos. O homem olhou para o saco de pano, pegou-o pelos fundos e virou-o de cabeça para baixo, derramando sobre o chão os pedaços de madeira que ali havia. Percebeu, então, que precisava de pedras, algo para amarrar, algo para martelar, algo para cobrir. Recolheu tudo o que precisava na mata que havia ao redor e começou a trabalhar. Cortou, amarrou, fincou na terra, ajustou, testou a resistência – corria a noite e o homem trabalhava. Na meia noite, quando era certo o dois de novembro, uma pequena procissão entrou pelo cemitério, sendo possível escutar o canto lúgubre das cinco ou seis senhoras que procuravam o seu endereço na floresta de lápides e jazigos. As senhoras passaram pelo homem e viram-no trabalhar. Uma delas segurou o passo, quando finalmente parou e deixou que seu cortejo seguisse. “O que o senhor faz, a essa hora? Veio homenagear parente?”, perguntou ela curiosa. “Vim, sim senhora”, disse ele sem parar o trabalho. A senhora olhou mais um pouco, viu o disparate e não se aguentou, “Mas, não deveria rezar, ao invés de cortar madeira?”, disse, incrédula, ao que o homem respondeu, “Senhora, eu errei com ela e faço o que tenho que fazer”, disse ele, olhando para a velha mulher com os olhos cheios d’água. “Todos erramos, senhor, somos pó e pecado. Todos que estão aqui, os vivos e os mortos, erraram, e erraram muito. Jesus Cristo tenha piedade da tua alma e que Nossa Senhora te acuda. Conta o teu erro, e alivia a tua alma”.
Pedro vivera naquela cidade por muito tempo. Ali, tivera uma família, era esposo de Maria Cleonice e pai de Helena. O homem batia na sua filha, maltratava muito ela. Sem motivos para tanto, sacava o cinto do cós da calça e marcava as pernas da menina sem abrir mão da força de homem que lhe era disponível. Ele bebia e farreava bastante. Não batia na mulher, mas lhe machucava de outras maneiras, pois todos sabiam o quão mulherengo era pedro. Certa noite, o homem fora para o forró, conhecera uma mulher e por ela se apaixonara. Um mês depois, Pedro fora embora com a nova companheira para o sul, tentar vida nova. A mulher e a menina ficaram sozinhas. Quando a seca chegara, passaram fome e sede. Um dia, a filha reclamara tanto da garganta seca que a mãe a levara para o açude, pegara a lama barrenta de uma poça com a mão e espremera, deixando derramar o líquido preto na boca da criança. Na nova terra, pedro não fora feliz. Não arranjara emprego e a mulher o deixara para ficar com outro homem. Regressara. Fora para a sua antiga casa e encontrara apenas estranhos. Os vizinhos lhe disseram que a menina, Helena, morrera na seca, e Maria fora embora, não se sabendo mais notícias dela. O homem chorara e se desesperara, sentira culpa, sentira vontade de morrer. Desconsolado, fora ao cemitério procurar pelo sepulcro da filha, sem sucesso. O homem que cuidava do cemitério guiara pedro até o lugar onde uma menina que morrera na seca havia sido sepultada. Ele vira apenas a cruz de madeira, nada mais. Não havia identificação, não havia lápide, não havia sequer um papel, que uma boa alma poderia ter pregado naquelas varetas, com o nome da menina. “Uma criança não merece esse abandono”, pensara ele, no auge da culpa. Ali, fizera promessa e dissera que não iria descansar enquanto não construísse sepulcro decente para Helena. Procurara emprego, e não conseguira. Colocara-se, então, a mendigar. Passaram-se anos, décadas, e das moedas de todos os dias, separava uma parte para a sua promessa e gastava o resto com comida.
 Pedro contou esta mesma história para a senhora e terminou dizendo, “Aqui estou, tentando cumprir minha promessa. Sou indigno, porque abandonei minha família e vim me redimir, se possível for”. Pedro percebeu, quando terminou, que a senhora vestia um manto azul sobre a cabeça, que escorria pelos ombros até chegar à cintura. Na parte imediatamente circunscrita à cabeça, havia um círculo bordado em dourado. “Homem és, feito de pó e pecado. Acalma a tua alma, porque foste feito para errar. Que os anjos te guardem e que o Senhor abençoe tua obra. Quando terminar teu trabalho, ajoelha-te e reza um Pai Nosso e um Ave Maria. Assim sendo, ficarás em paz”. A senhora virou as costas e voltou a caminhar, indo em direção à procissão. Pedro, como lhe fora mandado, voltou a trabalhar, e, quando terminou, ajoelhou-se e pôs-se a dizer as palavras santas. Ao fim da reza, uma luz alva desceu dos céus, iluminando todo o cemitério. A luz repousou sobre aquele pobre amontoado de madeira, posto em forma de sepulcro por Pedro e tudo o que era madeira virou pedra; um lindo jazigo, adornado em mármore branco, ali se formou, como numa mágica. A obra estava pronta e o Velho Pedro teve paz.


Por Willem Carneiro
vivisseccao.blogspot.com