domingo, 15 de agosto de 2021

Releituras (a)gosto: Desutilize-se

 PROcurei temas, dilemas, dúvidas,aporias


CRASso vácuo criativo deixado pela microscopia do terror


STIgmas que tão cedo serão esquecidos


NEIxente, cria, como provavelmente Krenak diria:


"Você não tem que achar utilidade em tudo."


Júlio César

domingo, 1 de agosto de 2021

Releituras (a)gosto: num borrar do tempo, meu amigo

  

por vias dúbias

num segundo me clarifico

num errar do tempo que é meu amigo

que faço ser mais alto que o tempo que medito


quando medito sobre o tempo 

que o tempo pára quando medito


que não há mais tempo 

que suficiente seja


que o tempo encurta quando me dilacero 

que o tempo desacelera quando acelero


que por vias curtas

num segundo me intensifico

num borrar do tempo, meu amigo

que posso ser mais alto que o tempo que medito


que o tempo passa e memória acaba

que o tempo voa e o futuro me povoa


que o tempo volta e meia me consome

que não há tempo para a preguiça


que o tempo se sente e não se tem

que a idade parece que é desse jeito também


que por vias turvas

num segundo me repito

num rio do tempo, meu ofício

que devo ser mais alto que o tempo que medito


Jayme Mathias Netto






Releituras (a)gosto: Onírica

  Estamira está a caminho de casa carregando o seu carrinho de supermercado. Eram 23 horas e o dia tinha lhe proporcionado grandes resgates de objetos valiosos à humanidade. Andava na contramão da história sobre a ciclofaixa, sem desviar sequer uma única vez do choque ciclístico que seguia o caminho indicado nas placas. Já perto da esquina de sua casa, lugar constantemente frequentado por baratas e ratos, enfiou a mão no saco azul anil encostado na calçada que, como cápsula do tempo, lhe trouxe o sonhado celular A 40 da Siemens de 2005, “16 anos de desejo e finalmente o encontro”, fala consigo Estamira após contar nos dedos quantos anos haviam se passado até o derradeiro encontro. Empolgada, adentra em seu lar, cumprimenta seu companheiro Jorge e caminha à estante dos celulares abrindo espaço para o seu mais novo aparelho, proveniente do mundo onírico de sua juventude. Com ele, soma-se o quadragésimo quinto telefone de sua coleção, número há muito esquecido por Estamira que já superou a fase de calcular a quantidade de seus objetos.

Na manhã seguinte ela é acordada por um fiscal da prefeitura que recebera uma denúncia de poluição urbana. “Poluição? Poluição num é coisa de lixo? Quem trabalha com lixo é meu marido e leva pra reciclage, eu pego tesôro, coisas valiosa, importante”. Atrás do entulho de máquinas de escrever sai Jorge aborrecido, “eu disse que ia dá merda, eu disse que só a porra. Senhô se preocupe não, hoje mermo já jogo tudo isso fora. Levo lá pá reciclage, fica a uns três quarterão daqui”. “Não, num leva não. Nem a pau. Aqui num tem lixo não. Isso aqui senhô é um A 40, cum ele você fala cum qualquer outro de longe, a distância mesmo, é uma invenção moderna, um luxo. Essas máquina aqui, escreve sem precisá de caneta, direto no papel, tem até umas pilha de papel alí pra escrevê. Tudo invenção da  modernidade senhô, tudinha. Pra quê jogar fora? Tô rodeada de progresso senhô, do futuro, de lembrança da ciência e da gente. Qual é a diferença da minha casa pro shoppim?”. Jorge, ainda raivoso, se vira para o fiscal e retruca Estamira, “Ela é laudada senhô, toda vida fala isso, ela acha que é moderna, num sei o quê”. “Ai é Jorge!? A modernidade é lixo agora? A tecnologia é lixo? Os sentimento, as memória são lixo? As mercadoria são lixo? Tu que é um lixo”! Enquanto isso, máquinas pesadas estacionam sobre a rua de mão única e se preparam para a limpeza urbana. Estamira, com os olhos esbugalhados e assustados, observa suas mercadorias, toda tecnologia empregada, toda ideia criada, os sonhos materializados, todo o progresso humano acumulado quando, de súbito, desaba sobre os escombros somente desejando que seus restos sejam depositados na caçamba de lixo.

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 25 de julho de 2021

Julho do Leitor: Das vozes que me compõem

Como iniciar uma escrita que seja permeada por potências de vida? Isso soa tão difícil ao estarmos imersos em afetos tristes...  fico à espreita de encontros com corpos que potencializem a vida... 

Deixei-me habitar pelas inúmeras forças e intensidades que me atravessam durante uma aula, uma conversa, um brincar, uma leitura. Precisei reinventar-me perante a este cenário, onde as paredes de casa presenciam muito mais coisas do que antes, paredes que se tornam também local de labor, paredes que não somente acolhem e aconchegam durante o descanso de um dia longo vivido “lá fora”. Paredes que hoje nos separam de nós mesmos, em um caso singular de saúde pública, questão de vida ou morte, e tudo que perpassa essa ideia de viver e morrer.

Uma busca incessante de agarrar provisoriamente alguns dos movimentos que me capturaram em meio a escritas, informações, imagens, e que me escapam com sua força mobilizadora e arrebatadora. Onde marcas são deixadas umas por cima de outras, marcas pequenas, grandes, rachaduras, infiltrações, sulcos e porosidades que me habitam e coexistem. Justapostas, sem uma ordem a priori. Coexistência de tempos e atualizações de memórias. Estando à espreita do que pode acontecer na produção deste tear artesanal descontínuo chamado vida.



Relações de forças e intensidades que pedem passagem e atravessam o corpo criando potências. Pode ser um afeto, que nos toca, perturba, abala... São processos onde participam diversos componentes que se contagiam, que se compõem. Como uma maçã, que foi arremessada por um galho em sua maturidade, e ao cair no chão, intensidades a atravessam, a arrebatam. Diversos componentes, forças e corpos a atravessam em um estado sinérgico... mudando seu corpo, tornando-a outra, quem sabe, semente...

Me tornei paseandera, recolhi fragmentos, me tornei estrangeira de mim, criei espaços ainda desconhecidos. E nessa viagem subjetiva fui me compondo com diferentes paisagens de mim mesma, sem volta, sem permanência...

Marcela Bautista Nuñez


domingo, 18 de julho de 2021

Julho do Leitor: Nostalgia

 


O doce orvalho das birras de minha meninice

Rapidamente se transformou em gotas gélidas na maturidade

Fazendo-me ter saudade dos tempos de pueril tolice

Desejando retroceder o relógio voltando noutra idade

Do dejejum da manhã e preocupação simples em o que assistir

Agora o turbilhão constante de pensamentos inenarráveis

Transfiguram-me em um ser duvidoso e confuso quanto ao por vir

E é initeligível o farfalhar violento desses dizeres inefáveis

Jean Sousa Pinto


domingo, 11 de julho de 2021

Julho do Leitor: Há momentos que o peso da vida é ciclópico

Há momentos que o peso da vida é ciclópico.
Atmosfera fatigante, encoberta de blocos de fumaça sem vida.
Corpo dilacerado, delongado  entre inércias sombreadas.
Uma parte de mim almeja o pulsar visceral, embora o despenhadeiro acolhe-me aconchegadamente.
Quero inebriar-me na sua volúpia.
Contrações lunares ao desprenhar um novo ser.

Elaine A.

domingo, 4 de julho de 2021

Julho do Leitor: Buraco Negro

 

Sua existência provada como uma faca crava em nossos corações. Ora, como se já não nos bastasse a baixeza da nossa mediocridade intelectual para com o sussurro das folhas e dos pássaros.

Mas o sofrimento aqui é vento, sopra forte e isento. Que até parece acalento, mas enchem reservatórios de lágrimas e de suor, em plena noite de frio entregue ao relento.

Ecologia dos doentes, frente a terra plana dos dementes e o meu corpo que sente a singela conexão com o pó. Uma dor de dente me acomete, adiante de mais um ente querido que adoece, o que é isso?! Pensa o jovem enquanto adormece.

Mas que complacente, o meu corpo, que teima em lembrar-me que és pó, puro pó.

Falo aqui do meu ócio, que desintegrou os meus ossos e me pôs em meu lugar...

Noite fria do sertão estrelado, nebulosas no céu e eu penso firme enciumado: que a via láctea tem uma escada, ao qual nos leva da água, ferro, prata, ouro à glória do espaço-tempo.

E nem mesmo à vontade, maldade, amor e bondade, escapam a atração da verdade, que nos leva ao encontro de uma nave, que do alvorecer ao crepúsculo de nossos tempos, nos oferece viagem num murmúrio quase que sem vontade: é tempo de voar.

Repetirei na vantagem, que escapa à mim e à idade - estão certos, há tanto tempo que nem mesmo a relatividade esteve tão à vontade pra dizer: da luz ao pó.


Luiz Tiago Soares