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domingo, 27 de setembro de 2020

Cangaço

- Minha literatura é de resistência. - Da terra rachada. - Do conflito de pistola contra a polícia sustentada pelo Estado que assegura o capital. - A bala é minoritária, sai das mãos de Maria Bonita, Lampião e Lunga. - Como no cangaço, a literatura de resistência não tem que produzir espectadores, mas sim novos combatentes. - Armado até os dente, me embrenho nos mato na procura do grande rosto opressor que nos vigia. - Eu não escrevo, eu me armo. - Em minha memória reluzem gritos oprimidos. - Seu Mathias tem razão, a maior munição é a letra, então escreva. - Convocamos combatentes na contramão da rua de mão única, os que foram apagados do grande mapa territorial dominante e que vivem no Bacurau. - Ou como fala seu César, quantos padeiros espirituais silenciados à espera do estrondo do canhão. - Nosso estouro irá ressoar em todos os ouvidos extraviados. - Nossa mira tem como alvo o grande rosto masculino branco, heteronormativo, colonizador, fascista, egocentricamente fálico e dono dos meios de produção. - Queremos diferença, não repetição. - A revolução se faz com a peixeira torta afiada na nossa carne, ou como quando o poeta Zé da Luz fura o bucho do céu. - É da caatinga, do cacto que resiste na seca, da foice que corta cana, do pé que se racha como a terra, é de lá que vem o vigor de quem cria. - Que sejamos os produtores inacabados de nós mesmos. -

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 3 de dezembro de 2017

O bote

O inverno chegou no sertão. A água que cai derrete o solo numa lama pastosa que atola o pé dos dois meninos felizes que correm embrenhados nos mato. Eles correm pois a chuva anuncia a chegada da grande serpente que engole tudo pela frente. O anseio dos dois é de fazerem parte do bucho da gigante, desejam serem engolidos em uma abocanhada só.

lá está ela, seu movimento é ligeiro. A cascavel feroz agita a cauda ao avistar suas duas presas. O ataque é certeiro. Não há saída. A digestão da fera consome os meninos por inteiro.

Após o descanso do bicho os dois são expelidos e voltam para sua casa alegres como se eles é que tivessem feito a refeição. “Que animal magnífico!” Pensava Emanuel consigo. “Pena que só fica aqui enquanto chove”. Mal sabia Emanuel que aquela foi a última vez que ele fôra engolido pela serpente.

No dia seguinte receberam a visita de um homem muito ilustre que até mesmo seu nome era subjugado pela alcunha de Doutor. Bicho da cidade, homem da ciência, inteligência incontestável. Ora, logo os meninos se aperriaram para mostrar o bicho que eles encontraram no meio dos mato, ver se o Tio Doutor gostaria de conhecer.

Enquanto caminhavam, Alberto imaginava o espanto que seu Tio iria receber com o bote da serpente, sorria sozinho enquanto andava construindo sua imaginação. Lá está ela. Os dois fecham os olhos. A respiração pára esperando o bote. Nada. O Doutor imóvel fala. “Mas isso é só um rio”. Morte. A morte da serpente estava anunciada. O homem da ciência proclama o seu sepulcro.

Os invernos se passaram e Emanuel nunca mais voltou para o ventre da serpente, a terra rachada ou a lama sebenta refletiam na melancolia do seu olhar. Alberto, por sua vez, tomou outra escolha, decidiu fugir da terra dos homens e ir morar no bucho da cascavel, pois somente lá ele era feliz.

Certa vez me embrenhei no meio dos mato e perguntei para a chuva: “O que vale mais para uma única vida, a realidade do barro ou a felicidade da serpente?”.       

Paulo Victor Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com