Bisturi… a pele demarcada é retalhada pelas mãos do especialista. A derme se expõe, respirando o novo mundo da superfície. Elo cirúrgico na imanência perfurante entre o limiar escalpelado de uma lâmina. O corte da carne é meticuloso, isso se torna mais fácil devido a qualidade das fibras expostas. Toda delicadeza se faz necessária para que os tecidos não sofram sequelas, estamos lidando com um produto de extrema qualidade. Martelo… Estalar de ossos em profusão, território da dor encharcada de sangue nas arestas da carcaça abatida. Broca… Acessando as profundezas do corpo abrem-se as portas do submundo. Lá o Hades se revela em todos os seus planos, das aflições com seus prantos e lamentações à ilha da bem-aventurança. A broca é a moeda de troca entregue ao barqueiro. Pinça… A precisão está na remoção do invasor, guerra microrgânica permeada pelas forças do espírito humano.
Cada um dos textos são micro incisões, cirurgias pontuais carregadas de instrumentos hospitalares. Nosso tempo exige velocidade. Tempo do inferno em que nada escapa, faz da superfície da vida fenomênica um submundo exposto às bactérias da realidade. O território do poder é a carne, diria Foucault. Daí vivissecção, cortar a carne com a faca que sai da língua navalha de Belchior. O texto navega, seja nas ondas do rádio, nas páginas do irreal, nas folhas da imprensa. O que nos resta após o ferimento? Cicatrizes. Elas tatuam os mapas geográficos na pele humana. Rotas de fugas desterritorializantes, órgãos surrupiados em abduções alienígenas, construções de novos corpos inumanos. Deficiências!? Não, potências.
Seringa… As luvas já estão postas. O recipiente contém o anestésico que em breve percorrerá a artéria genealógica. Agulha… O encaixe é preciso, como se fossem feitos um para o outro. Está montada a arma do torpor. O ataque não demora, primeiro suga-se um pouco do sangue, depois injeta-se o narcótico. Pressão, pulso… A dormência se alastra.
Em que fase do procedimento ocorreu a anestesia geral? Tudo foi esquecido e somente o corpo clama à consciência recordações de suas rotas marginalizadas. O mapa da carne é o verdadeiro guardião da memória. Quem vos escreve isso é o cirurgião, não a navalha.
Paulo Victor de Albuquerque Silva
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domingo, 4 de novembro de 2018
Vivissecção
domingo, 12 de agosto de 2018
Releituras (a)gosto: A guerra dos Fonsecas
Fonseca, general experiente de inúmeras guerras, que, como todo ser vivo, encontrou vitórias e derrotas ao longo de suas batalhas. No auge dos seus quarenta e poucos anos já passou por diversas pelejas orquestradas pelo destino: possuiu duas famílias, incontáveis amores, metros de cabelos cortados, bigode sempre afiado. De todas suas vivências nada se compara ao campo de batalha. Nele o corpo se presta a um estado limite entre sua constituição e a fissura, mutilação. Não há momento mais severo, mais engajador. A trepidação da metralhadora se propaga em suas células, repetição acelerada que lhe traz o prazer sexual. O choque do tiro, da luz, da bomba, do inimigo inesperado, tudo pulsa num campo de tensões.
Aí você lendo esse texto, criando as imagens do Fonseca em sua mente dentro do lugar de combate, relacionando sua imaginação com algum filme que já assistiu ou coisa semelhante. Você consegue envolver seu corpo com esse texto mais do que o Fonseca com o campo de batalha? Não. O empenho do corpo dentro do combate é completo, a tensão dos músculos, o estalo dos ossos, o ranger dos dentes, o estômago virado.
Acho que foi na primeira quinta-feira do ano passado: Fonseca estava em um novo conflito, tudo normal, corpos dilacerados, córregos de sangue, o velho cheiro de suor e morte, mas algo estava estranho, o nosso general assistia todo o espetáculo da técnica do mesmo modo como presenciava o jantar em casa, as reuniões no quartel, o coito com seus amores. Sabe o que é isso Fonseca? O tédio. Agora sim leitor, não há mais diferença entre sua imaginação e o campo de batalha do novo Fonseca, entre o seu dia, sua vida, e a de mais ninguém. Se o prazer de viver está na luta, e se tudo agora é mais do mesmo, por que continuar na guerra? É na ausência do prazer que a falta de sentido do existir nos aparece. E haverá um dia em sua vida que eu retornarei para narrar o seu desespero também.
Paulo Victor Albuquerque
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domingo, 25 de fevereiro de 2018
Remoto controle
...ligar
Pode-se ver o borbulhar ácido dentro do copo gelado
Bolhas de ácido que flutuam para fora do copo escorregam pela superfície de vidro
Do copo ao corpo, escorregam pelas costas. Arrupio da alma
Dilatam-se os corpos e seus poros. A bolha engole o corpo e flutua
Os poros pairam na imensidão. Com seu pólen germina vida
A vida pulsa nos micro-pólens e suas alamedas da perdição
As encruzilhadas da existência recebem as oferendas da alucinação
Com o olho se enxerga o som que a poeira cósmica faz
A harpa do desejo transpira uma dissonante no ar
Aérea é minha solidão, flutuo sobre os montes, agarro-me à escuridão
Mas eis que a força fez comigo o que ela sempre faz
Arrastou-me da corda bamba que me suspendia acima do abismo de mim
E caí
Desligo…
Paulo Victor Albuquerque
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domingo, 1 de outubro de 2017
Uma sombra que não é minha
As crianças são seres extraordinários, sempre nos despertam para o novo. Recentemente me deparei com um vídeo em que uma garotinha se espantava com sua própria sombra. O espanto socrático nunca foi levado tão a sério como por essas criaturas. Tal fato nos revela como o espanto não se limita àquilo que nos é externo, ele também se produz com tudo o que é projetado por nosso corpo. Parece que as coisas que emanam de nosso corpo não são produto de nossa consciência, daí o espanto. Na verdade não podemos nos surpreender com aquilo que nos pertence, que temos o controle de criação. Nos espantamos sim (!), com o desconhecido, com o fabuloso ou o estranho.
A criança se espanta com o novo. O que ela admira não é a última novidade em modelo de celular, antes é a existência do aparelho de comunicação a distância, é a invenção do “celular” e não o seu tipo ou marca. O que ela produz brincando não lhe espanta, mas ela traz para dentro de seu jogo todos os objetos de sua admiração.
Para surgir o espanto faz-se necessário a distância. Enquanto escrevo esse texto ele é coisa minha, outras vezes não. Com a distância temporal nos espantamos com aquilo que produzimos, ela se torna algo alheio, pertencente ao mundo, detentor de vida própria. O espanto é o reconhecimento do Ser que não está em nós, é o vislumbramento da superioridade da vida que não nos pertence, é o despertar de todas as coisas em sua magnitude. A criança se espanta com a vida do Ser.
Paulo Victor Albuquerque
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domingo, 10 de setembro de 2017
A guerra dos Fonsecas
Fonseca, general experiente de inúmeras guerras, que como todo ser vivo, encontrou vitórias e derrotas ao longo de suas batalhas. No auge dos seus quarenta e poucos anos já passou por diversas pelejas orquestradas pelo destino: possuiu duas famílias, incontáveis amores, metros de cabelos cortados, bigode sempre afiado. De todas suas vivências nada se compara ao campo de batalha. Nele o corpo se presta a um estado limite entre sua constituição e a fissura, mutilação. Não há momento mais severo, mais engajador. A trepidação da metralhadora se propaga em suas células, repetição acelerada que lhe traz o prazer sexual. O choque do tiro, da luz, da bomba, do inimigo inesperado, tudo pulsa num campo de tensões.
Aí você lendo esse texto, criando as imagens do Fonseca em sua mente dentro do lugar de combate, relacionando sua imaginação com algum filme que já assistiu ou coisa semelhante. Você consegue envolver seu corpo com esse texto mais do que o Fonseca com o campo de batalha? Não. O empenho do corpo dentro do combate é completo, a tensão dos músculos, o estalo dos ossos, o ranger dos dentes, o estômago virado.
Acho que foi na primeira quinta-feira do ano passado: Fonseca estava em um novo conflito, tudo normal, corpos dilacerados, córregos de sangue, o velho cheiro de suor e morte, mas algo estava estranho, o nosso general assistia todo o espetáculo da técnica do mesmo modo como presenciava o jantar em casa, as reuniões no quartel, o coito com seus amores. Sabe o que é isso Fonseca? O tédio. Agora sim leitor, não há mais diferença entre sua imaginação e o campo de batalha do novo Fonseca, entre o seu dia, sua vida, e a de mais ninguém. Se o prazer de viver está na luta, e se tudo agora é mais do mesmo, por que continuar na guerra? É na ausência do prazer que a falta de sentido do existir nos aparece. E haverá um dia em sua vida que eu retornarei para narrar o seu desespero também.
Paulo Victor Albuquerque
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sábado, 19 de agosto de 2017
O despertar
O despertador toca. Quem sente primeiro o seu chamado? O olho abre, o braço abre, a perna abre, a pele... O tecido da cama se dilata junto com a pupila. Uma dança distorcida da mais pura leveza seguida de contorções se martela horizontalmente. O leito se torna um quadro adornado pelo movimento do animal que desperta. A canção são os estalos de ossos e gemidos que ecoam nas paredes, o maestro é o alarme.
Levanta-se, o coração tenta acompanhar o despertar das células e o sangue corre mais rápido pelo corpo. Jamais em estado de alerta, anda no modo automático, movimento fisiológico natural que carrega o bicho até o sofá mais próximo. Ele não pensa. Catatônica, a pele pulsa para mais um instante de vida. O despertar do corpo começa no sonho preliminar à vigília, ele prepara o renascer. São nesses instantes que o não sentir sustenta a falta de pensamento, aqui o animal prevalece sobre o humano. Bem vindos ao não-humano.
Momento único, tempo fundamental e singularmente sem igual. Hora precisa para nada, que nunca volta pois não tem, que não faz falta pois não é. Buraco negro dos sentimentos, furacão de insensibilidade. Mas afinal, quem desperta primeiro? O bicho e ele nunca mais volta.
O despertador toca. Quem sente primeiro o seu chamado? O olho abre, o braço abre, a perna abre, a pele...
Paulo Victor Albuquerque
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domingo, 4 de junho de 2017
No limiar
Por Paulo Victor de Albuquerque
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domingo, 14 de maio de 2017
O estômago
Platão não foi o primeiro a pensar em formas variadas de alma, para alguns povos antigos os mais variados órgãos do corpo também possuíam alma, já que cada um deles detêm movimentos próprios. É sobre isso que o filósofo fala. Existe uma entidade dentro de “seu corpo”, que vive. Ela vive, mas agora foi possuída pela consciência que fala. Em cada ponto da consciência. O órgão não para. E se somente podemos falar sobre aquilo que pode ser dito, o estômago fala. Encontramos uma aporia: tudo que perpassa o tempo tem necessariamente memória? Será que para a efetivação da memória faz-se forçoso uma consciência? A consciência da memória já não pressupõe a existência, na própria matéria, da abertura à reminiscência?
O estômago perpassa o tempo, ele tem memória sua. Independente da consciência do filósofo o seu estômago reage às intervenções daquilo que encontra-se com ele, gerando cicatrizes que são as marcas do passado. A consciência filosófica pensa as cicatrizes, as marcas do tempo do estômago, tudo já estava lá. Para o estômago nada disso é resposta, muito menos dúvida.
Nós, almas penadas procuramos corpos para poder possuí-los como uma possessão profana, então falamos por sua boca, mas não é ele quem diz. Nós somos seres possessores, já diria Wittgenstein, falamos por meio da consciência o que o corpo-boca nunca poderia dizer. Neste sentido, a linguagem nunca passa de uma possessão de corpos. A memória nunca diz, ela sempre está lá, na matéria, em suas marcas, nos seus rastros. Mas para que se preocupar se no final das contas o estômago não passa de um filósofo...
Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
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domingo, 30 de abril de 2017
Daimon
Pensando nos textos anteriores, ia publicar uma poesia, mas desisti. Fui tocado por algumas ideias, fui tocado pelo próprio corpo que se expressou em textos de Paulo e Júlio. Se somos mônadas, nossas janelas estão escancaradas. Saltou-me um júbilo expressivo. De repente eu estava fértil, parindo, brotando. Coisas escapuliam, palavras, imagens, ideias, memórias... Um sentimento. De repente soou meu daimon: “na imanência não há um fora”. Se pensarmos, a ideia, de fato, brota de dentro. Para onde? Para dentro, para adentrarmos no vivo. E o vivo quase nunca aparece em vida, quando aparece somos finalmente tocados, instigados ao “mais”. A vida ímpar pulsa e sai do banal. Mas não sai como uma ilusão da linguagem que picota, transcende, encaixota o espírito num fora qualquer que comprime nosso corpo e pára nossa ideia dia após dia, pensando em mundos possíveis, negando o único que vive. Ilusão. Baixo. Trivial. O Não. O que me ocorreu foi o contrário. O Sim. O próprio corpo pare porque acompanha a mente em uma ideia e transfere para um corpo que é texto nesse momento. Através de outros partos também em texto. O texto vivo é uma ideia que do próprio texto escapa, mas ao próprio texto volta. Faz ideia e é ideia enquanto corpo num movimento único. Saída e entrada sem rumo, em si, juntos, leve. A imanência é chapada e altamente fértil. É a conexão de tudo, cheia de buracos, forças que desconhecemos. Puxa a filosofia para dentro. Desencaixa o dentro para fora na medida em que é expressão. Um texto escrito ou dito é a palavra que força e é forçada por ideias. Só há fora porque sai de um externo vazio triste e adentra nas forças que se comprimem para dizer e criar potencialmente. Exprimir e ter uma ideia é expandir possibilidades de novas ideias. Jamais excludente, o que brota é multíplice, para parirmos de novo. Algo que se abre cada vez que diz sim à vida. E foi esse próprio texto que fez-se como um gozo de um momento vivo!
Por Jayme Mathias Netto
Outrora.net
jaymemathiasnetto.blogspot.com