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domingo, 14 de outubro de 2018

A beira do abismo

Manicael estava sentado junto ao tronco da árvore. Olhava para a densa floresta e suas copas cheias de frutos. Ofegante, não aguentava mais tentar subir o bloco vertical de madeira maciça onipotente a sua frente. Quem aprendia a escalar comia os melhores frutos, frescos, suculentos. Esses últimos viam a vida de cima, flutuavam sobre o abismo. Diziam que o fruto das árvores lhes dera o conhecimento do bem e do mal.
Aos pés de Manicael cai mais uma fruta mordida, ele come. Ouviu dizer que as frutas que caem de maduras ou que são lançadas ao chão não possuem o mesmo sabor. Seus dias eram assim, procurava no solo as frutas remanescentes do céu. Carregava consigo um paninho para retirar a terra que restava nos seus alimentos. O fruto dos deuses - pensava o decadente enquanto olhava agradecido para o outro abismo acima das árvores.
Quando eu entrei na floresta me deparei com Manicael com seus incessantes esforços tentando subir as árvores. Ele era belo como um belo dia. Veio a mim, tentou se explicar para não parecer um louco, afinal tudo aquilo deveria possuir sentido. Estou atrás dos frutos, falou. E porquê não recolhe os frutos da terra?, indaguei. Faço isso pois esses alimentos estão sujos de terra, não pertencem mais ao céu, não nos oferecem o bem e o mal… Olhei para Manicael com espanto, vi seu corpo, sua potência. Em minha mente a dúvida se implantava como as sementes das árvores. Por que ele acreditava que as frutas vinham do céu se elas estavam na árvore? Por que a terra faria com que elas perdessem seu sabor? Por que o bem e o mal estariam no fruto? Toda essa curiosidade tomou conta de mim. Parado eu refletia observando aquele quadro que se pintava a minha frente, então decidi questionar. Manicael, se você é um anjo por que não usa suas asas?

Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Remoto controle

...ligar
Pode-se ver o borbulhar ácido dentro do copo gelado
Bolhas de ácido que flutuam para fora do copo escorregam pela superfície de vidro
Do copo ao corpo, escorregam pelas costas. Arrupio da alma
Dilatam-se os corpos e seus poros. A bolha engole o corpo e flutua
Os poros pairam na imensidão. Com seu pólen germina vida
A vida pulsa nos micro-pólens e suas alamedas da perdição
As encruzilhadas da existência recebem as oferendas da alucinação
Com o olho se enxerga o som que a poeira cósmica faz
A harpa do desejo transpira uma dissonante no ar
Aérea é minha solidão, flutuo sobre os montes, agarro-me à escuridão
Mas eis que a força fez comigo o que ela sempre faz
Arrastou-me da corda bamba que me suspendia acima do abismo de mim
E caí
Desligo…

Paulo Victor Albuquerque
Vivisseccao.blogspot.com