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domingo, 25 de novembro de 2018

O Parto

"É próprio da literatura filosófica o ter de confrontar-se a cada passo com a questão da representação"
(Walter Benjamin, Origem do drama barroco alemão)

"No início era o Caos..." (Hesíodo, Cosmogonia)

Primeiro a explosão... depois, potência...
Ou seria uma implosão, pois não podemos afirmar um fora? A vida engendra implosões dentro dos fragmentos do existir. A implosão dos fragmentos da matéria geram ideias que são paridas pelo estouro. O parto da ideia nunca é um aborto, um vômito, um alastrar-se. Antes disso ele é uma absorção, uma inalação, uma assimilação. Agora ela (a ideia) está lá. Um organismo vivo, agindo, intervindo, interferindo. O agir da ideia não é explosão, é representação, é potência do pensar. O útero da ideia é o ser humano, que nunca é uma morada já que este útero sofre de histeria, gerando o aborto da ideia. A representação é uma histeria.

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 4 de novembro de 2018

Vivissecção

Bisturi… a pele demarcada é retalhada pelas mãos do especialista. A derme se expõe, respirando o novo mundo da superfície. Elo cirúrgico na imanência perfurante entre o limiar escalpelado de uma lâmina. O corte da carne é meticuloso, isso se torna mais fácil devido a qualidade das fibras expostas. Toda delicadeza se faz necessária para que os tecidos não sofram sequelas, estamos lidando com um produto de extrema qualidade. Martelo… Estalar de ossos em profusão, território da dor encharcada de sangue nas arestas da carcaça abatida. Broca… Acessando as profundezas do corpo abrem-se as portas do submundo. Lá o Hades se revela em todos os seus planos, das aflições com seus prantos e lamentações à ilha da bem-aventurança. A broca é a moeda de troca entregue ao barqueiro. Pinça… A precisão está na remoção do invasor, guerra microrgânica permeada pelas forças do espírito humano.
Cada um dos textos são micro incisões, cirurgias pontuais carregadas de instrumentos hospitalares. Nosso tempo exige velocidade. Tempo do inferno em que nada escapa, faz da superfície da vida fenomênica um submundo exposto às bactérias da realidade. O território do poder é a carne, diria Foucault. Daí vivissecção, cortar a carne com a faca que sai da língua navalha de Belchior. O texto navega, seja nas ondas do rádio, nas páginas do irreal, nas folhas da imprensa. O que nos resta após o ferimento? Cicatrizes. Elas tatuam os mapas geográficos na pele humana. Rotas de fugas desterritorializantes, órgãos surrupiados em abduções alienígenas, construções de novos corpos inumanos. Deficiências!? Não, potências.
Seringa… As luvas já estão postas. O recipiente contém o anestésico que em breve percorrerá a artéria genealógica. Agulha… O encaixe é preciso, como se fossem feitos um para o outro. Está montada a arma do torpor. O ataque não demora, primeiro suga-se um pouco do sangue, depois injeta-se o narcótico. Pressão, pulso… A dormência se alastra.
Em que fase do procedimento ocorreu a anestesia geral? Tudo foi esquecido e somente o corpo clama à consciência recordações de suas rotas marginalizadas. O mapa da carne é o verdadeiro guardião da memória. Quem vos escreve isso é o cirurgião, não a navalha.
Paulo Victor de Albuquerque Silva
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 14 de outubro de 2018

A beira do abismo

Manicael estava sentado junto ao tronco da árvore. Olhava para a densa floresta e suas copas cheias de frutos. Ofegante, não aguentava mais tentar subir o bloco vertical de madeira maciça onipotente a sua frente. Quem aprendia a escalar comia os melhores frutos, frescos, suculentos. Esses últimos viam a vida de cima, flutuavam sobre o abismo. Diziam que o fruto das árvores lhes dera o conhecimento do bem e do mal.
Aos pés de Manicael cai mais uma fruta mordida, ele come. Ouviu dizer que as frutas que caem de maduras ou que são lançadas ao chão não possuem o mesmo sabor. Seus dias eram assim, procurava no solo as frutas remanescentes do céu. Carregava consigo um paninho para retirar a terra que restava nos seus alimentos. O fruto dos deuses - pensava o decadente enquanto olhava agradecido para o outro abismo acima das árvores.
Quando eu entrei na floresta me deparei com Manicael com seus incessantes esforços tentando subir as árvores. Ele era belo como um belo dia. Veio a mim, tentou se explicar para não parecer um louco, afinal tudo aquilo deveria possuir sentido. Estou atrás dos frutos, falou. E porquê não recolhe os frutos da terra?, indaguei. Faço isso pois esses alimentos estão sujos de terra, não pertencem mais ao céu, não nos oferecem o bem e o mal… Olhei para Manicael com espanto, vi seu corpo, sua potência. Em minha mente a dúvida se implantava como as sementes das árvores. Por que ele acreditava que as frutas vinham do céu se elas estavam na árvore? Por que a terra faria com que elas perdessem seu sabor? Por que o bem e o mal estariam no fruto? Toda essa curiosidade tomou conta de mim. Parado eu refletia observando aquele quadro que se pintava a minha frente, então decidi questionar. Manicael, se você é um anjo por que não usa suas asas?

Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 23 de setembro de 2018

Uma nova ideia velha

    Decidi escrever um texto partindo de uma ideia que tive. Antes eu carregava uns blocos de anotações - isso por influência do Nietzsche que tinha nos bolsos de seu paletó vários destes companheiros da memória. Hoje anoto minhas elucubrações em folhas virtuais do meu e-mail, tal qual este relato.
    Anoto pois não recordo. Anoto pois os espaços que habito se tornaram opacos aos lembretes que apregoo neles. Nada se fixa no mundo de pelúcia que criamos. Sempre nos forçando a uma adequação do eterno retorno do mesmo.
    Anoto pois o fluxo entre os mundos que criamos não possui parada ou limites, quando durmo ele continua nos meus sonhos. Nele tudo é presente, onde aquilo que posso ser é o agora. Sempre tenho a sensação que já vivi, que já escrevi. Não há tempo que me faça ter, não há espaço que me faça ficar. As ideias transbordam na mesma velocidade que nos escapam, por isso sempre tenho pensamentos que já vivi.
Não podia deixar essa ideia escapar, tinha que capturá-la. Agora a exponho nas vitrines do igual. Como Morfeu, a transfiguro entre os mundos possíveis do subconsciente, passageira do expresso que sempre esteve lá.
O que falta é somente o seu nome, o título do texto, da ideia. Claro que ainda não sei como escreverei sobre a anotação de um pensamento igual que tive. Acho que deveria se chamar “Uma nova ideia velha”, mas depois eu escrevo.
Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 10 de junho de 2018

Poeira cósmica.

“Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente”, afirmaram Adorno e Horkheimer no texto “Contra os que têm respostas para tudo”. Com isso queriam sugerir o quanto alguns intelectuais, com sua extrema inteligência, não foram capazes de perceber a iminente ascensão do governo hitlerista ao poder. O ocidente e sua soberba intelectual, com a crença na exatidão de suas ciências humanas, evocava os grandes estudiosos da época para garantir a impossibilidade do fascismo na europa. As certezas intelectuais de nosso tempo são cegas, pondo à margem tudo aquilo que escapa aos seus planos como sendo inumano, afinal as rotas estão claras como a luz do dia, Aufklarung!

Há latente nos “espíritos superiores” a crença numa objetivação de suas abstrações racionais e lógicas que arrastam a materialidade de sua concretude à projeções-fantasmas. O espírito altera a natureza, deixa sua marca, rastros humanos de nossa perdição. O que eles esquecem é que, como um filho, a matéria tem seus caprichos, suas nuances e singularidades. A crença na evolução do espírito se entrelaça a ideia de que o universo também encontra-se em um processo de evolução. A crença no progresso da natureza manifesta a fé num Espírito superior que guia a história universal.

Para que ninguém fique triste preferimos assegurar que todas as explosões cósmicas, energias radioativas, choques planetários, o vácuo espacial, conspiraram de forma engajada para a formação planejada de sujeitos de espírito superior que iriam trazer ao mundo a magnífica civilização européia, mais um exemplo de evolução espacial. “Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há um espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada.” Afirmam os autores judeus que sofreram as atrocidades cósmicas evolutivas do nazismo alemão. No Brasil, o progresso ontológico de milhares de anos produziu seres que deixam a via-láctea e o grande Espírito extasiados: os bolsominions. Eles são o novo suspiro do itinerário fascista europeu. 

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva.

domingo, 14 de maio de 2017

O estômago

Platão não foi o primeiro a pensar em formas variadas de alma, para alguns povos antigos os mais variados órgãos do corpo também possuíam alma, já que cada um deles detêm movimentos próprios. É sobre isso que o filósofo fala. Existe uma entidade dentro de “seu corpo”, que vive. Ela vive, mas agora foi possuída pela consciência que fala. Em cada ponto da consciência. O órgão não para. E se somente podemos falar sobre aquilo que pode ser dito, o estômago fala. Encontramos uma aporia: tudo que perpassa o tempo tem necessariamente memória? Será que para a efetivação da memória faz-se forçoso uma consciência? A consciência da memória já não pressupõe a existência, na própria matéria, da abertura à reminiscência?
O estômago perpassa o tempo, ele tem memória sua. Independente da consciência do filósofo o seu estômago reage às intervenções daquilo que encontra-se com ele, gerando cicatrizes que são as marcas do passado. A consciência filosófica pensa as cicatrizes, as marcas do tempo do estômago, tudo já estava lá. Para o estômago nada disso é resposta, muito menos dúvida.
Nós, almas penadas procuramos corpos para poder possuí-los como uma possessão profana, então falamos por sua boca, mas não é ele quem diz. Nós somos seres possessores, já diria Wittgenstein, falamos por meio da consciência o que o corpo-boca nunca poderia dizer. Neste sentido, a linguagem nunca passa de uma possessão de corpos. A memória nunca diz, ela sempre está lá, na matéria, em suas marcas, nos seus rastros. Mas para que se preocupar se no final das contas o estômago não passa de um filósofo...

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 23 de abril de 2017

O Parto

"É próprio da literatura filosófica o ter de confrontar-se a cada passo com a questão da representação"
(Walter Benjamin, Origem do drama barroco alemão)

"No início era o Caos..." (Hesíodo, Cosmogonia)

Primeiro a explosão... depois, potência...
Ou seria uma implosão, pois não podemos afirmar um fora? A vida engendra implosões dentro dos fragmentos do existir. A implosão dos fragmentos da matéria geram ideias que são paridas pelo estouro. O parto da ideia nunca é um aborto, um vômito, um alastrar-se. Antes disso ele é uma absorção, uma inalação, uma assimilação. Agora ela (a ideia) está lá. Um organismo vivo, agindo, intervindo, interferindo. O agir da ideia não é explosão, é representação, é potência do pensar. O útero da ideia é o ser humano, que nunca é uma morada já que este útero sofre de histeria, gerando o aborto da ideia. A representação é uma histeria.

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com