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domingo, 30 de setembro de 2018

Texto sem pretexto

O texto de hoje é sem pretexto. Política. Qualquer coisa, nem leia. Uma expressão multíplice de várias partes que querem virar texto. Um amontoado de retalhos que digo ser um “eu” no espelho. Vejo o velho Aristóteles em sua Política, li e reli, tinha muito a falar sobre sua Ética, li e reli sobre os demagogos, militares e tiranos. Tinha tanto a acrescentar, palavras belas a dizer, argumentos concisos para convencer, entender, refazer e como era belo, oh Deus! Mas afoguei-me no pensamento. Por isso o texto não fala de política nenhuma. “Que pena!” diz um leitor de dentro de mim, ardendo para se alegrar se a sua verdade fosse igual a minha ou para me destruir se não fosse, e, principalmente, ardendo para falar mal, discutir, caluniar, xingar e querer me matar. Afinal, não falar, não ter nada a dizer é como se tivesse faltando um braço ou uma perna hoje em dia. Não ter opinião é como se fôssemos doentes dos olhos ou sem ouvidos. “Burro, alienado, idiota” - utilizam palavras bonitas esses meus fantasmas, explicam a etimologia greco-latina das duas últimas. “O texto é assim mesmo, desconexo e por se fazer. Barroco.” Explica outro a tal da parte estética. “Orgulho-me de não ter posição, sequer opinião”, sussurrou o próprio texto no meu ouvido. As teclas anunciaram: “Covarde e ignorante”. Uma voz qualquer que dizia ser da consciência grita: “quantas vezes devo te dizer que tu pode mudar e fazer a diferença”. Diante de tantas cabeças célebres e pensantes dentro de mim mesmo, perguntava: “que sou eu?” Diante desses príncipes vaidosos, “que sei eu dessas doxas e ortodoxas?”; “E como ousa tudo isso ainda querer resposta e ainda digitar um texto?”; “algo que faz dentro de mim achar que é como um homem de filia e sofia?” Uma dessas partes toma parte e diz que não tenho certeza de nada, que não se prevê nunca o futuro, que não sigo a estrutura da lógica, mesmo duvidando de tudo. Como se a lógica não devesse nada à parte que palpita no peito e também não fosse só mais uma que quisesse a vez na orquestra. “Se isso, então aquilo!”; “Se ele, então não ele”, brinda outros no canto. Por essas coisas já se amou e se odiou e tantas outros entre esses dois sentimentos. Um amigo anarquista reverbera dentro de mim: “contra as estruturas”, outro vai e assume a posição sócio-crítica mais atual, com mais dados atuais, com mais atualidade que os dados atuais, pois ele antecipa o futuro, o vidente. “Se isso, então aquilo” e conta  suas razões e diz suas verdades e calunia os outros por não entenderam nada sobre a verdade, acusa-o de estar ludibriado: “Se isso, então isso”, clama pelos cálculos monetários e pelas paredes sólidas da corrupção, anuncia um novo país. Outro pedaço de mim, quase morto: “ainda tem olhos de criança?”. Outro acusa que esse negócio é cristão, outro diz que é melhor matar e comer capim pela raíz. “Todo mundo tem a porra da razão e ninguém se resolve”. Uma parte de mim chora, outra ri, uma ama e a outra odeia. Fragmentado como o maquinário de moer carnes, como teria eu qualquer certeza se a carne em que habito sequer sei como funciona? E ainda assim tenho estômago, olhos, bocas, braços, pernas, cu. E atrás de mim toda a histeria histórica como exemplo, mas continuo tendo uma parafernália que funciona mas nunca compreendo. Banhado de certezas estão todos saindo de casa, banhados de vômitos uns dos outros, comendo os dejetos putrefatos. Cada qual vomita sua verdade, mastiga, engole. E eu que nem sei qual merda sou, qual dejeto tem aderência melhor, seria eu quem deles? Qual desses fragmentos de mim me agarro para ser amigo ou inimigo? E eu que nunca soube o que saber ou sequer sei o que é saber algo, será eu o que? Vai longe essa parte de mim que chamo de razão e vai longe tudo que ela propôs de forma tão racional, tão previsível, monótona e inútil. Todos os argumentos são racionais, belos e "para o bem de todos". No entanto, num tenho nem a certeza do próximo passo dado. Ninguém chega ao consenso, mas os dados são todos reveladores e que que isso muda? E que que alguém ganha com isso? Porra nenhuma! Um pedaço finalmente conclui: "Que inveja tenho eu das plantas!"

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 8 de julho de 2018

Julho do leitor: Amor e palavras proibidas

O efeito do ópio começou no instante da consciência começar a fantasiar sobre sua boceta, jogada ao lado de sua cama, contendo instrumentos abundantes. Toda minha concepção de belo começou a se refazer. Minha crença desfeita. Meu rosto sem expressões e logo deduzo: a linguagem é errônea ao tentar entender a beleza. A linguagem não cumpre a significação da benevolência dessa súcuba. Se, porventura, viro na direção de seus olhos, percebo uma harmonia nos seus lábios excitantes e avermelhados, nos seus olhos em êxtase quando chocam com os meus e no calor em que nenhuma criatura sabe medir ou reter. Quando me vê, não sabe sobre seu poder perante meu corpo. Um mero homem perturbado. Loucura ocasionada pela beleza transcendental dessa moça catita. Traço planos e ideias para seus regaços. Nunca ouvira palavras descritas tão convenientes a esta moça. Quando me adentro na sua parte mais poderosa e íntima, onde tudo acontece, entrego-me ao turbilhão dos prazeres divinos e exuberantes, cobiço por mais, desejo tê-la no meu membro mais sutil e apetecível, julgo cada movimento de sua boceta único e conduzindo objetos de diversos tipos. Últimos suspiros prazerosos. Chamo-o assim. Deleite humano, gozo angelical. Eis o ponto em que tocamos o céu, recuperando nossas asas e elevando-se a um andar superior à imanência humana.

Por Eric Vieira
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 14 de maio de 2017

O estômago

Platão não foi o primeiro a pensar em formas variadas de alma, para alguns povos antigos os mais variados órgãos do corpo também possuíam alma, já que cada um deles detêm movimentos próprios. É sobre isso que o filósofo fala. Existe uma entidade dentro de “seu corpo”, que vive. Ela vive, mas agora foi possuída pela consciência que fala. Em cada ponto da consciência. O órgão não para. E se somente podemos falar sobre aquilo que pode ser dito, o estômago fala. Encontramos uma aporia: tudo que perpassa o tempo tem necessariamente memória? Será que para a efetivação da memória faz-se forçoso uma consciência? A consciência da memória já não pressupõe a existência, na própria matéria, da abertura à reminiscência?
O estômago perpassa o tempo, ele tem memória sua. Independente da consciência do filósofo o seu estômago reage às intervenções daquilo que encontra-se com ele, gerando cicatrizes que são as marcas do passado. A consciência filosófica pensa as cicatrizes, as marcas do tempo do estômago, tudo já estava lá. Para o estômago nada disso é resposta, muito menos dúvida.
Nós, almas penadas procuramos corpos para poder possuí-los como uma possessão profana, então falamos por sua boca, mas não é ele quem diz. Nós somos seres possessores, já diria Wittgenstein, falamos por meio da consciência o que o corpo-boca nunca poderia dizer. Neste sentido, a linguagem nunca passa de uma possessão de corpos. A memória nunca diz, ela sempre está lá, na matéria, em suas marcas, nos seus rastros. Mas para que se preocupar se no final das contas o estômago não passa de um filósofo...

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com