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domingo, 12 de novembro de 2017

Universos paralelos

O universo permite a autocriação de microcosmos, cada qual com suas próprias leis. Estas leis não estão necessariamente interligadas, possuem independência e estrutura singulares. O único vínculo entre esses microcosmos possíveis é com a abertura do todo universal. Aqui nos deparamos com a relatividade do tempo, do espaço, com os universos possíveis.

A abertura da autocriação de microcosmos distintos permitiu as grandes metrópoles capitalistas produzirem os espaços fantasmagóricos. No interior desses ambientes vislumbramos a efetivação da relatividade einsteiniana. Resta-nos indagar: até que ponto os espaços fantasmagóricos influenciaram a relatividade física, ou a relatividade teórica contribuiu na constituição fantasmagórica?

Outro atributo proveniente da abertura cósmica se manifesta na produção da linguagem pragmática e seu jogo linguístico. As estruturas lógicas linguísticas somente tornam-se possíveis dentro da abertura microcósmica do universo.

Todas essas estruturas somente são possíveis devido a abertura material do cosmos. O que leva a matéria a se estruturar em suas singularidades cósmicas? O Ser é aquilo que permite tal associação.

Por Paulo Victor Albuquerque

domingo, 4 de junho de 2017

No limiar

Encontrava-me absorto em meio a fragmentos de frases que me saltam ao corpo,
e que, como Nietzsche, me disponho a anotá-las em qualquer um dos meus blocos de
notas, digitais ou não, e eis que me deparo com esta frase. Quando a leio primeiro me
vem o quanto é uma boa ideia, não reconhecendo-a como pertencente a mim mesmo
nem a outro alguém. “Ninguém nasce pragmático.” Tal obviedade me faz reconhecer
que ela não me pertence, ela é um fato e eu somente a percebi, assim como quando você
repara em coisas que sempre estiveram lá, mas que nós tínhamos outras mais
interessantes para nos envolver. Não quero defender com isso o semântico ou mesmo o
pragmático, eu por mim ainda não disse nada, a não ser a máxima acima exposta.

Enquanto humanos podemos afirmar algo: somos seres que, ao nascer, ou seja,
antes de adentrarmos no jogo linguístico pragmático, possuímos uma vida literalmente
consumida pela sensação imediata, somente com o tempo organizamos linguisticamente
o estranho mundo sensível ao nosso redor. Aqui nos deparamos imediatamente com
uma aporia. O limite da linguagem é o limite da materialidade? A linguagem humana é
o produto do seu corpo com tudo aquilo que lhe rodeia, seu substrato é a própria
matéria. A linguagem é material. E até mesmo aquele que afirma um fora deve dizê-lo
de dentro, ainda se sujeita à imanência. Mas eis que algo vem à boca, perigosa como a
língua da serpente, bifurcada. Existe um limite para a matéria? Pergunta mau caráter de
um daimon malicioso. Não daremos ouvidos pois o limite não pode ser dito.

A filosofia jamais poderá tratar o limite, ele não nos pertence. O limite é
teológico. Esperança infrutífera de pôr um limite à própria vida. Todo nosso
pensamento insere-se mergulhado no meio, melhor dizendo, no limiar. O limiar é
transição, portal entre mundos abertos que se agrupam e dissolvem numa dança dos
átomos. A filosofia semântica está à procura do limite, castração da matéria
fragmentada em essência. No pragmatismo, o jogo é a busca do limite da linguagem.
Aqui o paradigma da linguagem se impõe como limite. Se linguagem é matéria não
podemos afirmar o seu limite, teologia.

Irmãos, o grande papel da nova metà-physiká é reconhecer os limiares, cisões
invisíveis que pairam sobre a matéria mas que não a limitam. O entendimento é o portal
entre mundos possíveis que se entrecruzam. Não podemos afirmar os limites da matéria,
mas somente seus limiares.

Por Paulo Victor de Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 14 de maio de 2017

O estômago

Platão não foi o primeiro a pensar em formas variadas de alma, para alguns povos antigos os mais variados órgãos do corpo também possuíam alma, já que cada um deles detêm movimentos próprios. É sobre isso que o filósofo fala. Existe uma entidade dentro de “seu corpo”, que vive. Ela vive, mas agora foi possuída pela consciência que fala. Em cada ponto da consciência. O órgão não para. E se somente podemos falar sobre aquilo que pode ser dito, o estômago fala. Encontramos uma aporia: tudo que perpassa o tempo tem necessariamente memória? Será que para a efetivação da memória faz-se forçoso uma consciência? A consciência da memória já não pressupõe a existência, na própria matéria, da abertura à reminiscência?
O estômago perpassa o tempo, ele tem memória sua. Independente da consciência do filósofo o seu estômago reage às intervenções daquilo que encontra-se com ele, gerando cicatrizes que são as marcas do passado. A consciência filosófica pensa as cicatrizes, as marcas do tempo do estômago, tudo já estava lá. Para o estômago nada disso é resposta, muito menos dúvida.
Nós, almas penadas procuramos corpos para poder possuí-los como uma possessão profana, então falamos por sua boca, mas não é ele quem diz. Nós somos seres possessores, já diria Wittgenstein, falamos por meio da consciência o que o corpo-boca nunca poderia dizer. Neste sentido, a linguagem nunca passa de uma possessão de corpos. A memória nunca diz, ela sempre está lá, na matéria, em suas marcas, nos seus rastros. Mas para que se preocupar se no final das contas o estômago não passa de um filósofo...

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com