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domingo, 3 de junho de 2018

Pablo Fracasso

Hoje, o texto não tem contexto.
Pautado no que foi dito: " o mundo permanece tal e qual" sempre foi, com ele ou sem.
A poesia não tem rima, o clima não é de sol.
Me agarro ao texto e só a ele.
Porque escrevo não "para os afortunados planadores dos confins...", mas para mim mesmo.
Como "munífico homem" que não sou, anoiteço na sombra do medíocre.
E não vejo nele incômodo algum.
Há nele algo de familiar, que não me deixa sair...para baixo ou para cima.
O anonimato me permite apenas respirar e com ele vou...
Me agarrando à escrita como reflexão e justificativa para o meu sentido.
Sou, no momento, um peixe ladrão, que, da boca dos tubarões junta o que cai e dos restos vai sobrevivendo.
Nado no "bucho da serpente", ao mesmo tempo que "nas entranhas do meu Ser".
Transformo esse texto, não em interseção, mas em reflexo. Vivissecção de mim.
Junto os pequenos pedaços de incoerência e transformo aqui em algo que faça sentido para o plural que sou.
"Escrever sem objetar." Para bastar a si.
Pedaço a pedaço monto meu Franknstein tirando dos braços da "donzela dos lutos", vislumbres ainda úteis de redefinição.
Pois que sem graça seria a poesia estática, onde o preto é sempre preto e não ausência, onde o branco é sempre branco e não essência de qualquer atribuição moral.
Que seria de mim se não atribuísse?
Quem sabe algo melhor.
Remendo a remendo, apronto minha colcha de retalhos, nela os metralhos do general Fonseca ditam o ritmo da minha máquina de costura.
Ponto a ponto, apronto meu mosaico poético, como um Picasso um tanto patético, sem ânsia de criar.
Junto para mim um estandarte sem pé, nem cabeça, esperando que mais uma vez anoiteça e o amanhã me traga uma nova imagem dessa reciclagem, sem propósito outro que não me despir de mim para me vestir em outro eu com novos farrapos adicionados.

Por Júlio César Barbosa
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 4 de junho de 2017

No limiar

Encontrava-me absorto em meio a fragmentos de frases que me saltam ao corpo,
e que, como Nietzsche, me disponho a anotá-las em qualquer um dos meus blocos de
notas, digitais ou não, e eis que me deparo com esta frase. Quando a leio primeiro me
vem o quanto é uma boa ideia, não reconhecendo-a como pertencente a mim mesmo
nem a outro alguém. “Ninguém nasce pragmático.” Tal obviedade me faz reconhecer
que ela não me pertence, ela é um fato e eu somente a percebi, assim como quando você
repara em coisas que sempre estiveram lá, mas que nós tínhamos outras mais
interessantes para nos envolver. Não quero defender com isso o semântico ou mesmo o
pragmático, eu por mim ainda não disse nada, a não ser a máxima acima exposta.

Enquanto humanos podemos afirmar algo: somos seres que, ao nascer, ou seja,
antes de adentrarmos no jogo linguístico pragmático, possuímos uma vida literalmente
consumida pela sensação imediata, somente com o tempo organizamos linguisticamente
o estranho mundo sensível ao nosso redor. Aqui nos deparamos imediatamente com
uma aporia. O limite da linguagem é o limite da materialidade? A linguagem humana é
o produto do seu corpo com tudo aquilo que lhe rodeia, seu substrato é a própria
matéria. A linguagem é material. E até mesmo aquele que afirma um fora deve dizê-lo
de dentro, ainda se sujeita à imanência. Mas eis que algo vem à boca, perigosa como a
língua da serpente, bifurcada. Existe um limite para a matéria? Pergunta mau caráter de
um daimon malicioso. Não daremos ouvidos pois o limite não pode ser dito.

A filosofia jamais poderá tratar o limite, ele não nos pertence. O limite é
teológico. Esperança infrutífera de pôr um limite à própria vida. Todo nosso
pensamento insere-se mergulhado no meio, melhor dizendo, no limiar. O limiar é
transição, portal entre mundos abertos que se agrupam e dissolvem numa dança dos
átomos. A filosofia semântica está à procura do limite, castração da matéria
fragmentada em essência. No pragmatismo, o jogo é a busca do limite da linguagem.
Aqui o paradigma da linguagem se impõe como limite. Se linguagem é matéria não
podemos afirmar o seu limite, teologia.

Irmãos, o grande papel da nova metà-physiká é reconhecer os limiares, cisões
invisíveis que pairam sobre a matéria mas que não a limitam. O entendimento é o portal
entre mundos possíveis que se entrecruzam. Não podemos afirmar os limites da matéria,
mas somente seus limiares.

Por Paulo Victor de Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com