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domingo, 30 de dezembro de 2018

C'est fini

Já faz um tempo agora...mas é mal de ser humano (incluindo eu) entender que tem hora pra começo e hora para o fim.
É mal de ser humano se apegar à finitude do supérfluo. E, ao mesmo tempo, negar aquilo em que reside a amplitude da nossa medida, aquilo que a priori causou inveja aos moradores do Olimpo e agora tem tornado a vida egoísta, diminuta, um garimpo cada vez mais destituído de beleza singular. A liquidez do tempo escorre desapercebida pelas mãos do devir, enquanto se derrama no balde imaginário que sustenta as recompensas da transcendência. Fé e virtude conduzem a humanidade às promessas de uma suposta eternidade .
E cada vez mais nos esquecemos de sentir o hoje, de viver a brevidade do instante humano, escorados em uma criação mental, um "porvir", um "amanhã" unicamente metafísico. Nessa espécie de Matrix não há um Neo, senão nós mesmos. Nessa "realidade" enxuta, versão beta, aquilo que é de importância complexa passa para uma espécie de plano diferente deste, "onde teremos entendimento sobre todas as coisas", restando-nos voltar a atenção no plano corrente, a atualização do Android, aos pixels da câmera frontal e se o "carango" tem injeção eletrônica, airbags laterais e câmera de ré. E, assim, o cimento passa a valer mais que o ar, tal como o rotor lateral assume maior valia que a vida de Charles "escafedida" em pedaços enquanto mexia na bomba helicoidal.
Se é clichê clamar pelo Carpe Diem com o qual se riem os leitores que neste ponto se deparam e pensam: "de novo essa baboseira!", que de fato se encontra a torto e a direita nos status de "WhatsApp" e nas tatuagens dos "influencers", então é válido que entendamos o que a sentença simboliza. Também não é como se devêssemos  seguir à risca o código de Epicuro, mas se hoje nos é possível orar e pedir por algo, interessante seria se, ao invés de uma vida eterna, ou de 500 virgens para nos aguardar no além, pedíssemos por discernimento, para seguir o conselho do mago cinzento que certa vez, sabiamente proferiu a um pequeno grande, que aquilo que nos cabe  é "decidir o que fazer com o tempo que nos é dado", para que então compreendamos que o fim não se lamenta, simplesmente chega e se acaba. Para que possamos lamentar menos pela finitude da vida e principalmente das coisas materiais, tal como fazemos com o fim de um capítulo, de um semestre letivo, ou do ano que agora se encerra...
Que lamentemos menos nossa finitude e a vivamos mais, porque cedo ou tarde o fim chegará e quando ele se for...
C'est Fini.

Por Júlio César
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 18 de novembro de 2018

Temporalidade do inferno

Temporalidade do inferno.
Tal definição, ouvi certa vez de um amigo, que a mente aflige ao corpo o maior castigo, quando da recusa de parar de pensar.
Da definição, não sabia, mas
a agonia de cansado, teimar em desligar, constantemente me deparo.
Inclusive, neste momento, transformo o desalento  em demasia, de contar carneiros, busco amparo em primeiras aparas, desatinos desse texto sem sono.
A mente é máquina que mente ao próprio corpo, quando diz para si mesmo que o músculo é que tem força.
O suborno do movimento faz parecer que por algum motivo estar ativo é se mexer.
Haha, delírio, de quem não sabe do martírio de ir ao Japão e voltar sem sair do lugar.
Paro, repito: "agora eu durmo!"
Pobre ignorante, animal noturno, o cérebro é senhor de si.
Sentenças taciturnas de textos misturam-se às confabulações que configuram-se quase reais, não fosse estarem presas apenas em uma mente quase lisérgica.
Disse que ia parar cinco minutos atrás. E aqui estou, dedilhando enquanto assimilo o recorrente sibilo de sequências de palavras que, senão de forma voluntária, fluem aleatórias como quem diz: "eu durmo é porra!"
Na umbra, tateio à toa até encontrar o celular. Quatro e cinquenta! Puta merda, agora é sério! Ou eu paro agora ou não durmo mais! Ameaço a mim mesmo, como se mandasse em alguma coisa na porra desse sistema nervoso central, queria que ele tivesse um rotor lateral, assim pelo menos o filha da puta do Djalma podia dar um jeito de desligar.
O relógio desperta. O som como um zunido infernal corta a linha de raciocínio. E  o sono, o qual eu tanto procurei?
Escafedeu-se!

Por Júlio César
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 28 de outubro de 2018

Às portas da contemplação - A beira do abismo parte II

Manicael me olhou de volta, seus olhos denunciavam, sem foco, a busca a uma resposta que fizesse sentido. Meio acabrunhado e ainda sentindo um pouco de vergonha, com o dedo indicador direito em riste, apontou para cima e disse: "somente quem tem asas brancas como as nuvens tem esse privilégio. Minhas asas são negras e, por isso, denunciam meu lugar de direito aqui em baixo. Só me resta escalar."
Olhei novamente para o corpo divinamente esculpido de Manicael, procurei por defeitos, quaisquer imperfeições que fossem, não achei nenhum. Nenhuma simples cicatriz ou deformidade. Examinei suas asas minusciosamente, pedi humildemente que as abrisse. Deveriam ter uns cinco metros de envergadura. Eram formidáveis. As plumas internas, macias, conferiam leveza e flutuabilidade e as penas das extremidades, longas e afiadas como uma espada samurai, ostentavam aerodinâmica de uma rapina, brilhavam de um azul profundo e lustroso ao refletir os raios do sol, que reinava absoluto acima do dossel das frondosas árvores.
Tentei entender em que residia tamanha diferença do belo Manicael, além da coloração de suas penas. Ainda confuso, perguntei ensimesmado: " quem atribuiu a ti, criatura celestial, a sina de reprimir tua divindade, entregando-te o fardo da imperfeição de realizar uma tarefa tão humana?" Surpreso com minha admiração, Manicael respondeu:
"Os outros. Eles me jogaram aqui. Disseram que não sou perfeito como eles, que, portanto, não devo comer as frutas perfeitas, mas sim as defeituosas, assim como eu. Isso, segundo eles é o meu sacrifício e a justiça divina." Com a têmpora denunciando minha pulsação já acelerada perguntei-lhe, ainda: "e por que aceita de bom grado tamanha barbaridade?" Com os olhos verdes safira, agora marejados de lágrimas de cristal, Manicael respondeu: " porque nunca comi do fruto, não conheço, pois, nada sobre o bem e o mal, além do mais, eles são a maioria. Que posso eu, contra uma multidão de asas brancas?"
Em um reflexo rápido, usei uma das poucas perícias que me fora herdada, da minha vida no campo. Habituado e com uma agilidade demasiadamente humana, subi na árvore, peguei o maior fruto e o entreguei a Manicael, altivo. Nunca me senti tão útil debaixo da minha incompletude quando exclamei:  "Não seja o que dizem de você! Voe!

Seja a dinamite do firmamento!"

Por Júlio César
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 7 de outubro de 2018

Vox Populi

Eis que é chegada minha vez  e hei de ser, logo hoje, nesse dia cinza e cheio de insensatez, o rei que com o dedo declara a queda no tabuleiro de xadrez.

No jogo de hoje, no entanto, todos perdem, pretos ou brancos, ledo engano!
Os pinos serão colocados dentro da caixa de madeira. Eu e vocês! Segue o plano! Onde amontoados, estaremos lado a lado, no escuro da impotência.

E logo eu, que não sou lá muito fã da raça humana, logo a mim foi legada a missão insana, de deixar a mensagem poética que intentava falar de algo que nos valesse.
Da ética ou da polidez de um povo que na busca pela sobriedade, só encontrou embriaguez.
Embriaguez do espírito, consumindo para si algo muito pior que álcool líquido, o veneno que escorre da mordida da víbora sorrateira, que com a língua bífida profere ser temente a Deus, enquanto aperta a presa indefesa que não concorda com os seus...

Queria chorar, mas não consigo. Queria abrigo. Onde não tivesse que escolher entre flutuar sobre um pato amarelo, no mar  vermelho do sangue de trabalhadores enganados, ou dos menosprezados, pretos, pobres, minorias que pra os nobres "tem mais é que morrer!"

Difícil acreditar em tamanha fantasia, mas se olho de um lado vejo Franciscos e Marias depositando suas esperanças e alegrias em um falso Messias, que da palavra sagrada só levou em conta o apocalipse.

E, se viro a face, vejo de dentro do cárcere nove dedos regendo a orquestra da perpetuação de uma laia que esqueceu que, à parte de todos os malotes, tem sob os ombros a luz de todos os holofotes, apontando à espada de Dâmocles, que pendula sob a tensão de um fio de cabelo.

É gritante e, além, no mínimo paranóico. Que da polarização do povo heróico, o brado retumbante que se ouve é: "vai pra cuba! Vai pra Venezuela!"

Saudade daquele povo que só se preocupava com novela, pois, pelo menos nela, a ficção não saia nas ruas batendo panela, acreditando, vã, no fim da corrupção.

E a inteligência, hoje, nos põe em definitivo, na previdência da providência, vira burrice em sua essência e de nada nos impediu à chegada deste triste fim.

Ele sim,
          ele não,
                   no final,
                            tanto faz!

Aqui jaz um pátria chamada Brasil.

Por Júlio César
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 16 de setembro de 2018

A morte de Acteon

Somente aquele que teve o infeliz acaso de encontrar-se com a evanescente sensação da perda de si, acometer um ente próximo, consegue ver os pormenores semelhantes ao momento histórico que vivemos. Sim, porque nada mais somos que uma grande catarse coletiva que destrói a si.
Vivo no país do Alzheimer e vos direi o porquê.

O enfermo que apresenta tal moléstia perde-se, por vezes, entre a infantilidade e a incapacidade. Os dias, alternos, por vezes, são de manutenção de uma falsa estabilidade, outrora, de total regressão.
A sombra de quem um dia foi traduz-se em um vulto cada vez mais distópico.

Aos poucos, volta-se ao momento do infante e tudo parece novo de novo. O simples abriga a graça da descoberta. A inocência se mistura com a incompreensão de cometer os mesmos erros, que de alguma forma gritam de um lugar ermo no inconsciente e que "já foram cometidos". O conflito de "quem é" com "quem era" provoca choques turbulentos, que submergem o acometido em um torpor cada vez mais intenso e os dias bons tornam-se cada vez mais escassos.
Progressivamente, esquece-se de quem é, das necessidades fisiológicas, de respirar e, por fim, de sobreviver.

Pois, se lhes parece triste a sina ao tratar-se de um ente querido acometido por esse mal, imaginem o quão desesperador seria descobrir que somos nós também a massa cinzenta que a cada dia se autodestrói!?
Pois, se para Hegel a história tem um espírito, vos digo: ele tem Alzheimer.

Somos nós brasileiros, ou mundiais, a prova viva da regressão e transgressão primeira para tudo o que é torpe. Ora, se não somos a inversão de valores, o discurso de ódio, a "fake" news, então o que somos? Se não é a "memetização" do "politicamente correto", a brincadeira "inocente" do Alzheimer com tudo o que demanda seriedade?

E assim somos e vamos, acometidos por uma corrupção metafísica, incorrendo nos mesmo erros, elegendo os mesmos inaptos e nos isolando cada vez mais em nossas ilhas digitais de indignação. Cercados pelas tsunamis do ultraconservadorismo, sofremos continuamente a plasmólise da vida social, buscamos pelo bote esclarecido da salvação que nunca vem. A autorreflexão torna-se ilusão de grandeza e opinião e razão viram sinônimos.

E os que pensavam ser Ágora, eram senão mais uma multidão doidivana a clamar por sangue no anfiteatro Flaviano. Torcendo para que Acteon seja devorado por seus próprios cães. Abrigamos o lobo e atiramos na chapeuzinho, enquanto as cadelas, das quais nos alertara Brecht, continuam a esgueirar-se impacientes, seduzindo os ébrios que cruzam seu caminho.

E o que se entende por reviravolta do absurdo,  tratam-se dos "glóbulos brancos" no cérebro enfermo, atacando repetidamente a si. Na esfera macro ou naquilo que se entende por estado, estas mesmas partículas denominadas "bolsominons" ou, ainda genialmente definidos por Albuquerque (2018) como frutos de uma "ontologia do progresso", atacam o próprio organismo pensando estar poupando-o de um stress maior, enquanto empurram-no incessantemente ao colapso.

Autoimunes, resta-nos agarrarmos à leve sensação de alegria das descobertas já feitas e não lembradas, enquanto voltamos a engatinhar sem entender bem por quê.

Que possamos então aproveitar nossos dias bons, até que não reste nada mais e voltemos a ser poeira cósmica.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 26 de agosto de 2018

Releituras (a)gosto: Oculi speculum animae sunt

Ah o olhar! O olhar reluz, conduz, condiz e apraz.

Seduz, simula, dissimula e ludibria.

Eis que é astuto e seu intuito é muitas vezes voraz!

O que satisfaz a fome do olhar?

Somente a concretização daquilo que está lá no fundo, escondido no coração e deixa nos espelhos da alma brilhar.

Olhar de verniz, prediz no que as palavras se enrolam.

Transmitem os passos que muitas vezes se engodam
e desatam os laços nos quais nos deixamos emaranhar.

Engendra-se para onde ninguém mais vai.

Faz-nos tropeçar onde ninguém mais cai.

O olhar pode ser terno
ou tenso,
resignado
ou propenso.

E tal como se olha para fora, se faz para dentro,
para o centro
da alma do poeta.
Feito seta
o olhar que afeta
também se deixa afetar.

O olhar de inúmeras faces, de inúmeros instantes,  inúmeras almas.
O olhar da calma, o olhar da chance, do alcance ou do simples olhar para o mar.

Sim, pois, para dentro ou para fora, o olhar não demora, não tem hora, nem lugar para se mirar.

Seja o olhar que chora ou o olhar que espera.
O que odeia ou o que venera.
Nada escapa ao seu universo de significar.

É fascinante a multiplicidade que nos invade ao contemplar e perceber
que o olhar que absolve
pode ser o que condena
e o que acolhe
o que envenena.

Dos tolos que não percebem, só resta a pena de
não notar
que a comunicação pelo olhar
é notória demais para se deixar passar,
pois quem olha sabe o significado e é sempre para um resultado que se lança
essa dança,
que não precisa proferir uma palavra ou som,
para significar
para alguém,
um alento,
um intento,
um lugar,

seja ele de paz, ou de guerra,
no inferno,
ou na terra,
ou em tantos lugares quantos se possa imaginar.

Quantos poemas nos dizem do olhar?

Em quantas músicas a nossa bossa,em verso, ou prosa tentou nos mostrar
que olhar é privilégio
e fechar os olhos um sacrilégio
digno de quem quer se matar?

Seja quem for, valorize seus olhos,
os espólios
que eles lhes proporcionam,
sempre emocionam
aqueles que com eles não podem enxergar.

E que sejam quantas forem as músicas,
quantos sejam os versos,
ainda que se escreva o inverso,
deles haverá o que dizer.

Pois já dizia aquele velho ditado,
daquele pobre que sofreu um bocado, porque não sabia do outro,
porque ria ao ver o sol nascer. 

Àqueles que agora perdem tempo lendo esse projeto de poesia,
que possam sentir a alegria
do entardecer e que estejam cientes
de que não há lente
que limite o que os olhos falam à vida.

Não importa o que essa gente metida
a interpretar o que sente diga
o que dos olhos se deve dizer,
nunca ninguém em parte alguma jamais traduzirá, por completo, a essência do olhar.

Júlio César Barbosa Dantas
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 24 de junho de 2018

Mr. Nobody

Quando as luzes se apagam...
Ouço minha própria voz, chamando de um lugar sombrio.
"Há algo lá, mas nunca lá!" Diz ela sobre tudo.
Conduz-se uma espécie de "desorganon" que decompõe minusciosamente tudo o que se aparece completo, encerrado, objetivo.
"Piece by piece", examino os propósitos de cada "razão de ser", cada nome, cada porquê.
A mente borbulha. Temendo um colapso, ignoro a voz. Não importa!
"Há algo lá, mas nunca lá!".
No dia seguinte, a sentença persiste.
De modo que percebo que a voz não teme a luz.
Está "lá, mas nunca lá!".
Quando olha-se "Tudo" de muito perto, é possível ver o quão repleto de "Nada" ele é.
A pergunta primeira, do porquê de tudo, é uma Nau que navega ao redor de uma ilha esférica.
O "Nada" é o "zero grau" e o "trezentos e sessenta" que sempre surge da mesma pergunta. "Por que tomei esse caminho?" E assim inicia-se uma nova volta.
A filosofia, a qual usei como bengala para me sustentar, estava lá, mas nunca lá. Trezentos e sessenta graus, para notar que se voltou ao zero.
E para onde quer que eu olhe, só o que vejo é nada.
A realidade me chama de volta: "é preciso ir agora! É preciso!"
É preciso? Ir aonde? Dar mais uma volta na ilha. Tentando chegar à Índia nunca descoberta por Cristóvão.
Anoitece. A voz retorna: " eu avisei!" debocha.
Não lembro ao certo quando a ouvi a primeira vez. Mas depois que começou, nunca mais parou.
Desde então, percorre todo meu ser como a peçonha de uma víbora, que, travestida de coruja, seduz prometendo sonhos de grandeza e sabedoria.
Diz vender a "verdade", mas "esquece" de dizer o quão amarga ela é.
No início, tentei resistir. Como John Nash, ignorava a presença esquizofrênica daquela voz que se confundia com a minha.
Até que, feito Sísifo, cansado de ver a pedra rolar montanha abaixo, após todo o esforço para erguê-la ao topo, aceitei-a.
Depois, passei a Prometeu. Vendo todos os dias a águia do Real arrancar pedaços do meu fígado aos gritos.
Hoje, já não me abalo com isso. Na verdade, dificilmente com quaisquer coisas outras.
O que porém ainda me assusta é que, ultimamente, passei a gostar da voz.
Por um instante, acho estar brigando com minha própria sombra, como "Peter".
Antes de me entregar por completo, ainda reluto, me dou conta de que posso estar sofrendo do mal de Estocolmo. Apaixonei-me por meu captor.
E tudo o que ele sussurra é

NADA!

Júlio César Barbosa
vivisseccao.blosgpot.com

domingo, 3 de junho de 2018

Pablo Fracasso

Hoje, o texto não tem contexto.
Pautado no que foi dito: " o mundo permanece tal e qual" sempre foi, com ele ou sem.
A poesia não tem rima, o clima não é de sol.
Me agarro ao texto e só a ele.
Porque escrevo não "para os afortunados planadores dos confins...", mas para mim mesmo.
Como "munífico homem" que não sou, anoiteço na sombra do medíocre.
E não vejo nele incômodo algum.
Há nele algo de familiar, que não me deixa sair...para baixo ou para cima.
O anonimato me permite apenas respirar e com ele vou...
Me agarrando à escrita como reflexão e justificativa para o meu sentido.
Sou, no momento, um peixe ladrão, que, da boca dos tubarões junta o que cai e dos restos vai sobrevivendo.
Nado no "bucho da serpente", ao mesmo tempo que "nas entranhas do meu Ser".
Transformo esse texto, não em interseção, mas em reflexo. Vivissecção de mim.
Junto os pequenos pedaços de incoerência e transformo aqui em algo que faça sentido para o plural que sou.
"Escrever sem objetar." Para bastar a si.
Pedaço a pedaço monto meu Franknstein tirando dos braços da "donzela dos lutos", vislumbres ainda úteis de redefinição.
Pois que sem graça seria a poesia estática, onde o preto é sempre preto e não ausência, onde o branco é sempre branco e não essência de qualquer atribuição moral.
Que seria de mim se não atribuísse?
Quem sabe algo melhor.
Remendo a remendo, apronto minha colcha de retalhos, nela os metralhos do general Fonseca ditam o ritmo da minha máquina de costura.
Ponto a ponto, apronto meu mosaico poético, como um Picasso um tanto patético, sem ânsia de criar.
Junto para mim um estandarte sem pé, nem cabeça, esperando que mais uma vez anoiteça e o amanhã me traga uma nova imagem dessa reciclagem, sem propósito outro que não me despir de mim para me vestir em outro eu com novos farrapos adicionados.

Por Júlio César Barbosa
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 13 de maio de 2018

ALIenado

Preciso de uma nova perspectiva da narrativa que inspira, empolga e enche os olhos do leitor faminto.
Preciso de um novo instinto para criar. Um labirinto do qual a saída seja possível somente aos que enxergam além da escrita.
Preciso da rapidez, da esquiva de Cassius Clay, onde só no replay se viam os movimentos executados para fugir do choque dos socos da opinião alheia.
É preciso que se"Float like a butterfly, sting like a bee",  tem-se de ser afiado, para quebrar a barreira de "cimento" em fragmentos de mentira bem fundamentada.
Para escapar da encíclica de afirmar que quem clica não se comunica, porque as letras estão em todo lugar.
Mudar a perspectiva!Virar o disco, correr um risco, transformar meu risco em ogiva que torne nuclear a mente de quem lê.
Como a dinamite que  Nietzsche foi para a filosofia dos melindrosos.
Transcender a redundância do código sem resposta, da sombra no escuro.
Deixar de ser instrução, obedecer padrão,comando, esquema, deixar de ser botão, gema...

FLORESCER!

Por Júlio César Barboza
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 22 de abril de 2018

Rota de fuga

Em mais um percurso diário, ele olhava pela janela do ônibus enquanto as imagens que passavam fora distorciam-se, na medida em que a velocidade aumentava. Pensava: " a simples maneira de olhar as coisas muda tudo sobre elas. Será que as olho da maneira correta? Será que há maneira "correta" de olhar?" Sempre propunha a si esse tipo de exercício. Com os fones no ouvido, transportava-se para os mais inóspitos lugares do mundo e povoava-os com milhares de possibilidades. Certa vez encarnara o James Bond que virou bandido e fugiu sem rumo frustando a MI6, na outra fora o coringa que tomou juízo, desistiu de Gotham e saiu a distribuir sopas para os necessitados passando a se sustentar de shows de humor. Não havia limites para o aberto que se erigia diante da trilha sonora da mente. A cada parada convencia-se mais e mais de que a vida não precisa ser uma via de mão única e de que todo "ismo" era redução. Já havia refletido sobre isso inúmeras vezes antes de ouvir o pensamento traduzido na simples verdade de que "tentar explicar tudo é coisa de ser humano."
Chegou ao ponto de decida, tirou os fones voltou a viver no seu autorama de gesso.
Tão abrupto quanto o começo  foi o fim.
Gradativamente, enquanto caminhava para casa, tornou a si.
Certo de que no dia seguinte voltaria a voar por entre os prédios como um pinguim com asas de condor.
Certo de que a vida é um truque de luz.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 11 de março de 2018

"Smells Like Teen Spirit"

"Fugi do mau cheiro!" Ouvi certa vez de um amigo.
Fugi do dedo ligeiro que tece a explicação fugaz, de um modelo falido.
Que tudo aponta ao próprio umbigo.
Apraz o ouvido destreinado, constitui um novo papado, de um pontífice que não se satisfaz.
Incautos, arautos do novo que já nasce velho.
Fugi do mau cheiro! De achar que humanidade é qualquer coisa inteligente.
Tal uma pedra, que arremessada julga-se consciente da trajetória que "traçou".
Cansei do mau cheiro e com um isqueiro, me esgueiro pelas bordas escuras da casa.
Onde o silêncio é gritante, mesmo com a sala cheia de elefantes.
Fujo de um mundo de infantes, no bater das asas, desperto em meio a uma multidão que sonha medíocre, presos em suas garrafas pet particulares.
Onde a trama da sustentabilidade segura apenas seu próprio ego.
Escapo viajante, almejante, não percebo que "sou pior no que faço de melhor." Mas "é divertido perder e fingir" dá dó!
"Fugi do mau cheiro" disse um amigo. Ah caro companheiro, antes tivesse lhe dado ouvidos!Não teria agora que sufocar meu grito por respostas na ignorância da alegoria de como a vida deve ser vivida.

Destruo o homem que há em mim.

Apenas respiro. Talvez haja algo de bom por vir disso.

Júlio César Barbosa
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 26 de novembro de 2017

Desafinado

Acorda, a corda que segura a melodia do teu juízo arrebentou.
Arranje um arranjo que concorde com os acordes dessa canção melancólica.
Que segure o som do fracasso mesmo com uma corda de aço a se fazer faltar.
Afine, afim de que o fim seja a mais doce e fina melodia.
Porque a música da sua vida não para, ainda que não haja cordas.
Mesmo que o único som seja o do passar das horas no relógio a estalar.
Invente uma forma de com as cordas restantes se reinventar, mesmo que numa reviravolta impressionante, encontre uma dissonante que teima em contrariar a harmonia das tuas ideias.
Encontre o contratempo e o vire ao seu favor.
E se mesmo assim, a música desafinar, toque com suas cordas quebradas, da maneira que for.
Porque na música da vida, o silêncio é a morte.
Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 18 de junho de 2017

Homo homini Lupus

Dizem que existo dentro de cada um de vós.
Preso, enjaulado, sob duas distintas ópticas. Do bem e do mal.
Mas como julgas moralmente um animal? Irracional? Desconheço tal palavra.
O fato é que bom ou ruim não me cabe, sua linguagem, humano, não me contém. Pois sou lobo, acima de tudo.
O frio e a noite não me amedrontam, mas também a luz do dia não me restringe.
Caço em bando, quando do bando me beneficio, mas em companhia qualquer encontro vício.
Sou o mesmo, em bando ou sozinho, meu caminho eu mesmo crio, esguio, esquivo com perícia das intempéries de um mundo hostil.
E nada me para, nem mesmo a vara e as armas do pastor de ovelhas.
Ao definir minha trilha, sigo obstinado minhas vítimas e as armadilhas, mesmo elas, não ceifarão meu propósito.
Nem que para isso tenha de arrancar minha própria pata, pois em mim há apenas uma chama inata.
Ômega, alfa ou Beta, minha meta é apenas​ uma, sobreviver.
A qualidade da qual falam vcs humanos e que a mim cabe, não é bom ou mal. É vida. Liberdade minha alcunha.
Não me furto da discórdia e da guerra intestina. Abraço-a.
Clandestina é a minha presença.
Não espere de mim complacência.
Isso também é outro nome que tem essência num viver que me é alheio.
Inocência não pertence a lupinos, mas a meninos que ao aprender o que é o mundo, nem mesmo donos são de seus destinos.
Minhas garras não tem amarras e minhas presas destreza para perfurar exatamene onde desejo.
Não há beleza na morte. Apenas sinta-se com sorte se algum dia me avistar. Do contrário caro humano, fique esperto. De certo não apareço nem sou notado por quem desejo atacar.
Muito prazer. Nem bom, nem mal, nem amigo, ou cordial. Lobo e só.

Júlio César Barbosa Dantas

domingo, 28 de maio de 2017

Oculi speculum animae sunt

Ah o olhar! O olhar reluz, conduz, condiz e apraz.

Seduz, simula, dissimula e ludibria.

Eis que é astuto e seu intuito é muitas vezes voraz!

O que satisfaz a fome do olhar?

Somente a concretização daquilo que está lá no fundo, escondido no coração e deixa nos espelhos da alma brilhar.

Olhar de verniz, prediz no que as palavras se enrolam.

Transmitem os passos que muitas vezes se engodam
e desatam os laços nos quais nos deixamos emaranhar.

Engendra-se para onde ninguém mais vai.

Faz-nos tropeçar onde ninguém mais cai.

O olhar pode ser terno
ou tenso,
resignado
ou propenso.

E tal como se olha para fora, se faz para dentro,
para o centro
da alma do poeta.
Feito seta
o olhar que afeta
também se deixa afetar.

O olhar de inúmeras faces, de inúmeros instantes,  inúmeras almas.
O olhar da calma, o olhar da chance, do alcance ou do simples olhar para o mar.

Sim, pois, para dentro ou para fora, o olhar não demora, não tem hora, nem lugar para se mirar.

Seja o olhar que chora ou o olhar que espera.
O que odeia ou o que venera.
Nada escapa ao seu universo de significar.

É fascinante a multiplicidade que nos invade ao contemplar e perceber
que o olhar que absolve
pode ser o que condena
e o que acolhe
o que envenena.

Dos tolos que não percebem, só resta a pena de
não notar
que a comunicação pelo olhar
é notória demais para se deixar passar,
pois quem olha sabe o significado e é sempre para um resultado que se lança
essa dança,
que não precisa proferir uma palavra ou som,
para significar
para alguém,
um alento,
um intento,
um lugar,

seja ele de paz, ou de guerra,
no inferno,
ou na terra,
ou em tantos lugares quantos se possa imaginar.

Quantos poemas nos dizem do olhar?

Em quantas músicas a nossa bossa,em verso, ou prosa tentou nos mostrar
que olhar é privilégio
e fechar os olhos um sacrilégio
digno de quem quer se matar?

Seja quem for, valorize seus olhos,
os espólios
que eles lhes proporcionam,
sempre emocionam
aqueles que com eles não podem enxergar.

E que sejam quantas forem as músicas,
quantos sejam os versos,
ainda que se escreva o inverso,
deles haverá o que dizer.

Pois já dizia aquele velho ditado,
daquele pobre que sofreu um bocado, porque não sabia do outro,
porque ria ao ver o sol nascer. 

Àqueles que agora perdem tempo lendo esse projeto de poesia,
que possam sentir a alegria
do entardecer e que estejam cientes
de que não há lente
que limite o que os olhos falam à vida.

Não importa o que essa gente metida
a interpretar o que sente diga
o que dos olhos se deve dizer,
nunca ninguém em parte alguma jamais traduzirá, por completo, a essência do olhar.

Júlio César Barbosa Dantas
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 16 de abril de 2017

Telófase

Vagueio. Percorro espaços amorfos, mofados da sala que se desenha morta. Finjo um interesse em algo que realmente não me importa, mas é breve. Me perco no tempo que se alonga estendendo seu "tic-tac" como tentáculos, oráculos de um futuro encriptado. Genética, probabilidade. Que habilidade o tempo tem de guardar o que ainda não foi? Escapo, mas não demora estou de volta, com a apatia de olhar a hora e o tempo que chora em não passar. Segundos  estagnados e um cérebro cansado de absorver. Meus olhos percorrem uma sequência de rostos dispersos, que tais como os meus buscam versos em um ou outro universo qualquer. Encontro os dela, rapidamente se cruzam tal como os pólos opostos de um ímã, inconveniente, proveniente de um inconsequente que a todos grita que o passado morreu. E o assunto, presumo saber do que se trata, besteira! Uma piada que se solta do tédio, do sério. Espero, mas o momento não passa, a paciência escassa lixiviada pelos "porquês" que ninguém quer responder. Realizo. Poesia bruta que não tem verso nem prosa, fruto do maldito momento, que podia ser como o vento e levar a melancolia até o próximo assunto.

Por: Júlio César Barbosa Dantas
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