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domingo, 22 de abril de 2018

Rota de fuga

Em mais um percurso diário, ele olhava pela janela do ônibus enquanto as imagens que passavam fora distorciam-se, na medida em que a velocidade aumentava. Pensava: " a simples maneira de olhar as coisas muda tudo sobre elas. Será que as olho da maneira correta? Será que há maneira "correta" de olhar?" Sempre propunha a si esse tipo de exercício. Com os fones no ouvido, transportava-se para os mais inóspitos lugares do mundo e povoava-os com milhares de possibilidades. Certa vez encarnara o James Bond que virou bandido e fugiu sem rumo frustando a MI6, na outra fora o coringa que tomou juízo, desistiu de Gotham e saiu a distribuir sopas para os necessitados passando a se sustentar de shows de humor. Não havia limites para o aberto que se erigia diante da trilha sonora da mente. A cada parada convencia-se mais e mais de que a vida não precisa ser uma via de mão única e de que todo "ismo" era redução. Já havia refletido sobre isso inúmeras vezes antes de ouvir o pensamento traduzido na simples verdade de que "tentar explicar tudo é coisa de ser humano."
Chegou ao ponto de decida, tirou os fones voltou a viver no seu autorama de gesso.
Tão abrupto quanto o começo  foi o fim.
Gradativamente, enquanto caminhava para casa, tornou a si.
Certo de que no dia seguinte voltaria a voar por entre os prédios como um pinguim com asas de condor.
Certo de que a vida é um truque de luz.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 11 de março de 2018

"Smells Like Teen Spirit"

"Fugi do mau cheiro!" Ouvi certa vez de um amigo.
Fugi do dedo ligeiro que tece a explicação fugaz, de um modelo falido.
Que tudo aponta ao próprio umbigo.
Apraz o ouvido destreinado, constitui um novo papado, de um pontífice que não se satisfaz.
Incautos, arautos do novo que já nasce velho.
Fugi do mau cheiro! De achar que humanidade é qualquer coisa inteligente.
Tal uma pedra, que arremessada julga-se consciente da trajetória que "traçou".
Cansei do mau cheiro e com um isqueiro, me esgueiro pelas bordas escuras da casa.
Onde o silêncio é gritante, mesmo com a sala cheia de elefantes.
Fujo de um mundo de infantes, no bater das asas, desperto em meio a uma multidão que sonha medíocre, presos em suas garrafas pet particulares.
Onde a trama da sustentabilidade segura apenas seu próprio ego.
Escapo viajante, almejante, não percebo que "sou pior no que faço de melhor." Mas "é divertido perder e fingir" dá dó!
"Fugi do mau cheiro" disse um amigo. Ah caro companheiro, antes tivesse lhe dado ouvidos!Não teria agora que sufocar meu grito por respostas na ignorância da alegoria de como a vida deve ser vivida.

Destruo o homem que há em mim.

Apenas respiro. Talvez haja algo de bom por vir disso.

Júlio César Barbosa
Vivisseccao.blogspot.com