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domingo, 28 de março de 2021

Memento Mori

 

O único mal irremediável me aguarda,

Aquele mesmo do qual Chicó tanto falava.

Eu nasci pra morrer.

Como a folha que cai,

E a água se esvai para os polos da terra. 

Sem saber se tem retorno,

Se um dia voltarei sob a forma de outra coisa qualquer.

Compra sem extorno,

Ou certificado de garantia.

Nasci para morrer.

Deixar de ser.

Como a brisa que corre apressada pelos cabelos,

Como o irreversível caos do desmantelo,

Daquilo que tava quieto e eu não sosseguei até quebrar.

Nasci e irei morrer,

Sem saber o que me espera.

Valhalla, elísios, harém, paraíso

Sem esferas do dragão pra desfazer o luto,

Como o doce amadurecer dos frutos,

Cada vez menos polpa, cada vez mais casca.

Para o regozijar dos brutos

E a saudade dos poucos que de alguma forma toquei.

Eles também passarão.

Nascemos para morrer,

Como dormir para nunca alvorecer,

Murchar como aquele suflê que desandou.

Nascemos e morremos.

Como passagem, rito, sem continuidade,

Como deixar de ser bonito, com o passar da idade.

Sem mito.

Verdade, certeza, fato inevitável.

Como o fim certo em que tudo converge para o laudo imutável,

De que somos finitos, passageiros, limitados,

Que expirou-se o prazo de validade.

Certo dessa valsa que, cedo ou tarde, dançarei com Samael

E de que a velocidade é alta,

Resta juntar as moedas 

Para a travessia Estige-Aqueronte

E ver cada pôr do sol no horizonte como se não fosse renascer.

Sempre nasço para morrer,

Morrer de amor,

Morrer de rir,

Morrer de comer, de beber,

Morrer de fazer e dizer tudo aquilo que me faz feliz.

Pois as cicatrizes que ficam das feridas dessa vida também morrerão comigo.

Tudo que temos, que vale a pena,

Vem do sentimento envolvido no processo.

Então eu nasci e vou morrer sim!

Morrer de excesso!

Morrer porque me expresso sobre tudo que me toca.

Morrer possesso pelo que me apraz.

Eu nasci pra morrer!

Não há o que fazer,

Está escrito!

Então que aqui fique dito,

Que nesse meio tempo,


Vou morrer de viver.


Júlio César Barboza

domingo, 23 de dezembro de 2018

Amarelos empambados sem coletes

Basta abrir o olho e ver. Os novos poetas estão aqui. Os novos poetas já nasceram e morreram, mas estão sempre vivos. Poetas de uma linguagem carcomida, cheia de ferrugens de cérebros ácidos. Ciência, ciência? Eu quero é o belo! Basta. Besta! Desprezível bata! Anseio! E toda arte se repete imune aos desvios e desfiladeiros que o medo quis inventar. A repetição de toda tarde em uma única maneira de viver como possível, contemplando o nada, desprezível que se tornara. E Glauber trepa às três da manhã exigindo estourar uma gosma quente nas pernas de Sua Anfitriã para esquecer. E eu só sei lembrar. O dia todo resgata o momento de uma prosódia pré-pronta, rotineira da qual sou espectador. Uma camada do epitélio terrestre que nunca entendi e sempre foi em vão. O gozo absurdo de tardes infindas como a de Paris no entardecer. Milhares de possibilidades e angústias dos seres que nascem e morrem. O medo bate na porta camarada de um dia que não sei se termino, porque exijo da minha carapaça falsa e infame as mais duras e cruéis agonias para o gozo. Aquele mesmo de Glauber, o pedreiro, meu vizinho que come sua mulher antes do trabalho duro. Desço o elevador e, não basta estar assim carcomido, lhe encontro. Desejo-lhe bom dia. Mas Glauber está verde turvo como a penumbra das árvores de uma chuva que ameaça vir. Turvo é um entremeio, o lamaçal que não identifico nem nele nem no sorriso de sua esposa que ainda deve está de quatro, caricata tosca de um brutamonte que a consumiu. Sai cheia de delicadeza logo em seguida, embora sintia-se prostituída, mas algo a erguia em uma pose bem vista nas tarefas sociais de sua função pública. Etiqueta travestida em delicadeza santificada na religião do dia-a-dia. A moça que suporta Glauber, suporta qualquer anseio da vida. Mas amanhã ela sonha de novo como seu sonho e Glauber sonha em dias onde a felicidade reside. Ele senta à mesa do café da manhã por bem mais que apenas um momento são. Coça a barba e cospe no chão quando lembra de Astor, o filho da puta do mestre de obras que acha que sabe mais que ele a envergadura do parapeito que teve que desfazer ontem. “Eu falei até com o Satanás para não trucidar a cabeça daquele verme!”. Isso é o que escuto, já faz um tempo, com o ranger dos passos dados de manhã cedo. E a morte vulgar, traiçoeira sorri em cada esquina que o tédio culmina nas mentes dessa manhã. Vou na padaria e volto sem qualquer poeira abençoada que dê o ar da graça em um bom dia, sem qualquer graça ou sorriso. Volto como quem nunca foi. Numa cidade vazia de sentido. Volto como quem nunca antes havia visto o por que uma memória só pertence ao lá e nunca ao cá. A memória de quem vai é totalmente igual a de quem volta, e os parafusos tortuosos, os esquemas dos fortes, as fronteiras, os mitos sociais, os desejos coletivos, as transações financeiras e qualquer coisa inútil num conglomerado vôo de Fortaleza para Paris, que trouxera não só eu, mas também esse delírio matinal na bagagem, não me faz outra coisa que reter a capacidade de resgatar memórias. E Glauber fode mais uma vez pensando em Astor e quando Deus permitirá que ele desça a mão de porrada. Goza estupefato e Sua Delicadeza pequenina que ele acaricia sem entender o que sente e ela muito menos. É a força onde é possível não matar os seus chefes, os seus mandantes. Sacrificam o trabalho para se encontrar a noite e catucar o meu teto no ranger do amor. E eu só tenho essa merda de vida! Não a minha ou a de qualquer outro, a vida que agora tenho! E não lembro um momento de que um dia vivi outra coisa que não a que lembro. E não prometo senão o que naquele momento me cabe. Volto como quem volta da padaria junto com o sorriso das inúmeras manhãs que cumprimento Glauber e em seguida a Sua Delicadeza. Pude observar, anteontem, a felicidade traduzida no espanto. Pareciam crianças. Um homem inocente e tabernoso que matara sua preza e trouxera para casa a graça da vida consumada. Glauber ria para se acabar e agora estava vermelho de felicidade como a pele de Sua Delizadeza nos arrebatos do gozo que desde que se casaram ele admirava. Meu Deus, ela parecia uma princesa escultural dos primórdios do tempo! Era como se o Neandertal encontrasse de imediato a Venus de Milo. Seus corpos transmitiam uma nudez caricata da inocência vã de uma criança lambuzada de vida. E ele dizia coisas como “esmaguei o filho da puta como quem pisa num pinscher e ele latia e gritava e esperniava”. Sua Delizadeza ria e eles se abraçavam. “Eu cuspi no meu chefe e mandei ele tomar no cu!”. Nem sabia que Sua Delizadeza era capaz de falar coisas do tipo. Eles pareciam delirar. Mas um delírio real, pois quando eu encontrei ele novamente no elevador,  meu olhar dizia num palpitar do coração. Eu fui consumido repentinamente por um choro de verdadeira alegria. Como se eu sentisse suas felicidades reverberar sobre a minha. Meu choro alegre dizia: “Glauber, Glauber, assim você vai longe meu bravo camarada!”. Eles eram as pessoas mais belas que eu havia visto ultimamente. Eles fazem questão de dizer que sou possível poeta, porque enxergo no não visto uma vida feliz. Mas eu retruco dizendo que basta abrir o olho e ver.

Por Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 25 de novembro de 2018

O Parto

"É próprio da literatura filosófica o ter de confrontar-se a cada passo com a questão da representação"
(Walter Benjamin, Origem do drama barroco alemão)

"No início era o Caos..." (Hesíodo, Cosmogonia)

Primeiro a explosão... depois, potência...
Ou seria uma implosão, pois não podemos afirmar um fora? A vida engendra implosões dentro dos fragmentos do existir. A implosão dos fragmentos da matéria geram ideias que são paridas pelo estouro. O parto da ideia nunca é um aborto, um vômito, um alastrar-se. Antes disso ele é uma absorção, uma inalação, uma assimilação. Agora ela (a ideia) está lá. Um organismo vivo, agindo, intervindo, interferindo. O agir da ideia não é explosão, é representação, é potência do pensar. O útero da ideia é o ser humano, que nunca é uma morada já que este útero sofre de histeria, gerando o aborto da ideia. A representação é uma histeria.

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 21 de outubro de 2018

Todo medo

Todo medo. Todo modo. Perigo de liberdade. Apenas quero ver. Liberdade do perigo. E te deixo livre. Como a louca borboleta esvoaçante, mãe terra quer paz.
Lagarta de traje colorido largada em cada curva-abismo. Cheiro de verde e gosto de clorofila. Ventos cortantes na proa de balançada asa e vejo a liberdade corrompida e ultrajante.
Qualquer coisa muda, muda de mudar não de que muda.
Eu ouço o sol maior da música inebriante dos metrôs. Um louco cruza o quarteirão fumando charuto descartável, plásitco e qualquer coisa vagabunda.
As molas do freio metálico do trem. A falta de força para parar o tempo. Ferrugem mantida para corroborar com a bem ordenação dos horários de abertura e fechamento dos estabelecimentos bem estabelecidos e do dinheiro enfiado em bolso mudo.
Da urbanoide fábrica de delírio pessoal e de contas para pagar. Desapercebido delírio meu de cada dia. Desencaixe.
Consumação da fábrica de cimento remota. Expele uma fumaça cuja duplicata esvoaçou até o comissariado da polícia.
O alvará de funcinamento permaneceu intacto.
E ninguém fez nada. "A fábrica funciona amanhã".
Chorava ele quando ainda achava que era livre. Triste pesar de uma segunda-feira.
Deu-me o último abraço antes de dormir e fui triste voltando.
Pressenti a dor vinda, que nada faz, o cimento é mais importante que o ar respirado.
E as nuvens negras permeiam uma manhã de calor.
Charles mete sua cara na manutenção do rotor lateral cíclico.
"Não fosse o alvará, puta merda!"
Ele tinha decorado o manual para passar no teste antes que a sogra jogasse de novo um balde de água fria todo dia para ele arrumar emprego.
"Bombas helicoidais e eixos de suporte",
falava disso dia e noite, sorrindo gordo de que teria futuro.
Disse que ia dar tudo certo agora que era homem de não se conformar, mas ser uma resitência viva.
Agora é pó! Meu deus, é pó! Que dor!
Ele queria o mundo artístico, a vagabundagem não permitida, mas a transição prima dos astros havia esquecido. Sol em gêmeos ou câncer. Dispensou.
Quando o cimento explodiu de puro pó em sua cara, a trepidação do eixo central expeliu como esperma queimado na fusão dos novecentos graus de calcário puro.
Reclamava seu supervisor que deveria evacuar em mil graus antes que a merda toda encerrasse. E o que adiantava?
Eu ouvi o papouco de longe e logo pensei na morte do peçonhento. Mas os melhores morrem primeiro.
Na mesma hora em que sua mulher exprimia pimenta no whisky, na fábrica de pimenta e molhos Mexicana.
Pensara em sacar-lhe no bolso um sachê para o marido que nunca mais viu.
O pó deixado sequer vale algo que se diga corpo. Os padrinhos de casamento de Charles e Ester, enquanto isso, chutavam os cachorros da porta principal do almoço voluntário aos presidiários de segurança máxima, amançados pela fuga geral que tramavam.
Quando souberam, olhavam frios a desgraça de serem sabotadores.
Deixavam escancarar a algazarra.
Os comissários de vôo da Catar saboreavam no céu de dor o champanhe borbulhante.
Enquanto filhas de shakes eram disvirginadas pelo ânus em nome da bendita fé e aclamados pela safadeza geral.
O fato é que o mundo expelia qualquer coisa de si.
Não tinha mais suporte nem grito. Nem reza nem lenda, nem o que mentir nem verdade.
E eu servia à comunidade cavando o buraco desigual da cova onde havia guardado uma carta do passado na minha cidade de infância.
Qualquer coisa me dava esperança de não ser. Ameaçavam-me os olhares vivos e prontos para apanhar-me cavando.
Cheiro de terra molhada e nada. Quente como suor que esquecia de evaporar.
Eu comia terra, barro, vapor e gases borbulhantes. O estouro pré-pronto nunca antes tinha sido coveiro de tão próximo olhar.
Cadê o filho da puta do Dijalma? "Metia seu pênis em qualquer lugar uma hora dessa". E quanto mais eu cavava mais lembrava disso tudo. Até que o abismo anteveio. Não era o outro lado. Era o nada.
O buraco se abriu sobre a terra e uma grande escuridão sacudiu o alarido. Qualquer coisa viria dali. Chamaram polícia, bombeiros, forças de segurança máxima e o verde cheiro do buraco, combatido desde quando o homem é homem e guardado.
Cheiro de guardado era o sentimento empoeirado. Virgem. Não tinha voz, não tinha cor, forma ou qualquer coisa.
Alguns perceberam a ameaça e implantaram sobre ele o fator central da vida.
Lágrimas e suor faziam combinações infindas. Mas era só a porra de um buraco. Esqueceram de enterrar Charles, irreconhecível. E eu chorava a dor de não ter onde cair morto.
Toupeira! Merda! Era o supervisor que eu enterrara. O tempo nunca volta,  mas eu já começava a me sentir criança. Negando na carcaça adulta do triste dia em que o conheci. E Charles escafedeu-se no ar.
A única coisa que eu fazia bem feito na vida, não fiz para ele. Ele deve ter pensado nisso. Susto puro de esperança. Fuga. Sem tempo. Escafedeu-se. Como a borboleta esvoaçante. Como o cheiro verde dessa joça, onde estão todos menos ele.

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 8 de abril de 2018

Cartografia da vida adaptada


Em que instância poderíamos nos considerar livres? Corriqueiramente nos deparamos com duas principais teorias que defendem a existência da liberdade. Para a primeira, ser livre significa interagir espacialmente com a coisa extensa obedecendo os limites fisiológicos da carne, na outra, liberdade seria a realização de um ato que parte da minha vontade, não dependendo de um terceiro que me obrigue.
Antes de mais nada devo admitir a possibilidade de que a liberdade não passa de uma mera ilusão humana. Acreditamos que somos livres. Creio que posso agir de acordo com minha vontade decidindo os rumos de minha existência. Contra isso, alguém poderia me questionar se o que eu decido realmente parte de minha vontade livre, se não existem forças externas, as quais não conheço, me obrigando a agir de modo determinado. Em relação a locomoção livre no espaço também cabe outro questionamento: o ambiente onde vivo não delimita de todas as formas minhas ações, seja na locomoção, o lugar onde nasci, a língua que falo, os limites do meu corpo?
Se quisermos levar a sério a questão da liberdade temos que pensá-la sob esses dois aspectos, tanto a volição de nossas escolhas como nossa inserção em meio às possibilidades do espaço. Se pensarmos bem, somente podemos existir dentro de um espaço preenchido com coisas, pois o vazio não está ocupado. Ele (o espaço) paradoxalmente exerce uma dupla função: ao mesmo tempo que delimita nossos atos é também o único que nos permite agir, já que somente existimos dentro dele.
Ainda poderiam nos questionar se o libertar-se não seria semelhante a uma fuga, um desprender-se. O ato de sair de um lugar ou deixá-lo é antes de mais nada a pressuposição da ocupação de um outro lugar, pois não existe um fora absoluto do espaço, um além-lugar. A cartografia de nós mesmos delineia não somente os espaços do nosso corpo mas também os da nossa mente. O que seria liberdade então? Talvez seja aquele momento em que abrimos o mapa da vida e desvendamos os tesouros que encontram-se em meio a ela, ou talvez eu simplesmente me esqueça de olhar o mapa.

Paulo Victor Albuquerque
Vivissecção.blogspot.com

domingo, 21 de janeiro de 2018

Crônica sonâmbula

Eu gosto de dormir.
São 8 horas de sono todo dia. Das 24 horas são 8. Um terço do dia, durmo.
Para cada três, um é sono.
Se eu dormisse 24 horas ganhava três dias de vigília.
E assim se engrandeceriam as proporções…
Se fossem 30 dias dormindo, seriam 90 dias acordados.
Um ano, três me traziam.
Se eu dormisse 30 anos, tinha mais noventa.
Se todos nós antes de viver dormíssemos 30 anos, o mundo teria as cápsulas de sono para as pessoas dormirem desde quando nascessem. 
E depois amanheceriam seus dias e longas noites sem ficarem sonâmbulos por 90 anos.
Mas também não sonhariam, porque de tudo já haviam sonhado.
E já não teriam medo do que imaginavam porque já viveram vários pesadelos que permaneceram sem conseguirem acordar de volta e falar “Ufa! Era um sonho!”. Ficaram nesses pesadelos até o fim. Conseguiram esperar passar, por mais demorados que fossem.
E as coisas boas já tinham também imaginado em sonho e até vivido. Não teriam o “ai que pena! Jurava que era real, quero continuar sonhando.” Já haviam passado tim tim por tim tim o sonho que sonharam de bom.
E quando acordassem, todos diriam “bom dia” para várias noites e vários dias, até o resto da vida. 
Mas também ninguém sonharia em vida, só relembrariam de coisas que já tinham vivenciado. Passariam por ruas e alamedas desconfiando que já tinham por ali passado.
E como ninguém, a não ser os que já estivessem dormindo, iria descansar, íamos todos ficar a labutar e depois tínhamos folga a noite sem dormir, só festejar, ir aos bares ou contemplar o nada fazer. Isso se os poderosos tristes e fracos não construíssem logo logo empregos de vinte quatro horas seguidas. Porque eles mesmos, os poderosos, pouco podem na vida. E as pessoas não descansariam até sua morte. O lazer seria coisa pouca porque já tinham passado o tempo do descanso.
O descaso geral seria para os hotéis, hospedarias, pousadas que não iam precisar de cama. Os apartamentos já não teriam quartos, bastava uma sala para conveniência dos amigos e visitas e os armários para guardar as coisas. As camas seriam todas reservadas para os que ainda dormiam no berço. Já as casas noturnas, os cabarés, os bares, restaurantes e tudo que contempla o lado mais escuro do dia seria sempre lotado, afinal poucos aturariam ficar em casa de madrugada.
Teríamos enormes berçários nos hospitais. Afinal só teríamos camas em duas ocasiões: nas doenças e ao nascer. Não precisaríamos de descansos que necessitassem de cama. Nela já tínhamos estado muito.
As pessoas só descansariam, mas nunca chegariam à profundidade do sono. Nem fechariam os olhos por horas seguidas. Todas acordadas, quantas revoltas, quantas revoluções fariam os humanos. Haveria guerra fácil, porque os insuportáveis não suportariam a vida. 
Quantas virtudes nunca se revigorariam porque ninguém mais amoleceria o coração ao anoitecer. 
Ninguém mais saberia atuar e ser o espectador ao mesmo tempo. Coisa que só se faz em sono. Apenas atuariam, sem perceber o que olhar. Atores, mas não autores. As coisas secretas de nós mesmos que vem no sonho seriam coisa que jamais acessaríamos. 
Os sonâmbulos seriam os únicos bem vindos nesse sentido. Porque eles conseguiriam resgatar aqueles estados do início da vida. Sonhariam acordados como os loucos. 
E os loucos julgariam que eram capazes de dormir e sairiam dizendo nas ruas que coisa grande era aquela novidade e que importância suas vidas tinham. O poeta anunciaria que deveríamos ouví-los, pois era o sonho que haviam sonhado depois de trinta anos. Ninguém acreditaria que eles tinham conseguido isso. 
E para todo o resto que não sonhara em vida, na labuta de seus patrões tristes, apenas se encerrava a vida sem sonho. A morte era o puro cansaço de uma vida que nunca mais sonhou. Era a bênção tão prometida, recompensadora do vazio da vida.
Nada disso é muito distante do que hoje fazemos sem sonhar, sem descansar, sem viver, mas também sem morrer.

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 3 de dezembro de 2017

O bote

O inverno chegou no sertão. A água que cai derrete o solo numa lama pastosa que atola o pé dos dois meninos felizes que correm embrenhados nos mato. Eles correm pois a chuva anuncia a chegada da grande serpente que engole tudo pela frente. O anseio dos dois é de fazerem parte do bucho da gigante, desejam serem engolidos em uma abocanhada só.

lá está ela, seu movimento é ligeiro. A cascavel feroz agita a cauda ao avistar suas duas presas. O ataque é certeiro. Não há saída. A digestão da fera consome os meninos por inteiro.

Após o descanso do bicho os dois são expelidos e voltam para sua casa alegres como se eles é que tivessem feito a refeição. “Que animal magnífico!” Pensava Emanuel consigo. “Pena que só fica aqui enquanto chove”. Mal sabia Emanuel que aquela foi a última vez que ele fôra engolido pela serpente.

No dia seguinte receberam a visita de um homem muito ilustre que até mesmo seu nome era subjugado pela alcunha de Doutor. Bicho da cidade, homem da ciência, inteligência incontestável. Ora, logo os meninos se aperriaram para mostrar o bicho que eles encontraram no meio dos mato, ver se o Tio Doutor gostaria de conhecer.

Enquanto caminhavam, Alberto imaginava o espanto que seu Tio iria receber com o bote da serpente, sorria sozinho enquanto andava construindo sua imaginação. Lá está ela. Os dois fecham os olhos. A respiração pára esperando o bote. Nada. O Doutor imóvel fala. “Mas isso é só um rio”. Morte. A morte da serpente estava anunciada. O homem da ciência proclama o seu sepulcro.

Os invernos se passaram e Emanuel nunca mais voltou para o ventre da serpente, a terra rachada ou a lama sebenta refletiam na melancolia do seu olhar. Alberto, por sua vez, tomou outra escolha, decidiu fugir da terra dos homens e ir morar no bucho da cascavel, pois somente lá ele era feliz.

Certa vez me embrenhei no meio dos mato e perguntei para a chuva: “O que vale mais para uma única vida, a realidade do barro ou a felicidade da serpente?”.       

Paulo Victor Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 26 de novembro de 2017

Desafinado

Acorda, a corda que segura a melodia do teu juízo arrebentou.
Arranje um arranjo que concorde com os acordes dessa canção melancólica.
Que segure o som do fracasso mesmo com uma corda de aço a se fazer faltar.
Afine, afim de que o fim seja a mais doce e fina melodia.
Porque a música da sua vida não para, ainda que não haja cordas.
Mesmo que o único som seja o do passar das horas no relógio a estalar.
Invente uma forma de com as cordas restantes se reinventar, mesmo que numa reviravolta impressionante, encontre uma dissonante que teima em contrariar a harmonia das tuas ideias.
Encontre o contratempo e o vire ao seu favor.
E se mesmo assim, a música desafinar, toque com suas cordas quebradas, da maneira que for.
Porque na música da vida, o silêncio é a morte.
Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 15 de outubro de 2017

Sentimento em 4 estrofes

Cego, sigo a saga do sensível.
Certo de que o fim me é alheio.
Disperso, no espaço, escasso.
Como um porco no campo de centeio.

Destruo, destrono, desvirtuo tudo aquilo que me apoia.
Equilíbro-me entre a sanidade e a paranóia.
Torço para que a clarabóia não suporte.
O peso das frustrações de um passado latente.

Chamo pela chama falsa de uma vida plena.
Clamo pela erva vil que envenena minha mente.
Deslizo, liso pela borda do abismo.
Deduzo o relevante, uso o incoerente.

A mente, mente num último recurso.
Mostra-me um futuro distante,  contente.
Mentiras, em tiras de romance barato.
Descarrego a última bala do pente.

Por Júlio César Barbosa
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 1 de outubro de 2017

Uma sombra que não é minha

As crianças são seres extraordinários, sempre nos despertam para o novo. Recentemente me deparei com um vídeo em que uma garotinha se espantava com sua própria sombra. O espanto socrático nunca foi levado tão a sério como por essas criaturas. Tal fato nos revela como o espanto não se limita àquilo que nos é externo, ele também se produz com tudo o que é projetado por nosso corpo. Parece que as coisas que emanam de nosso corpo não são produto de nossa consciência, daí o espanto. Na verdade não podemos nos surpreender com aquilo que nos pertence, que temos o controle de criação. Nos espantamos sim (!), com o desconhecido, com o fabuloso ou o estranho.
A criança se espanta com o novo. O que ela admira não é a última novidade em modelo de celular, antes é a existência do aparelho de comunicação a distância, é a invenção do “celular” e não o seu tipo ou marca. O que ela produz brincando não lhe espanta, mas ela traz para dentro de seu jogo todos os objetos de sua admiração.
Para surgir o espanto faz-se necessário a distância. Enquanto escrevo esse texto ele é coisa minha, outras vezes não. Com a distância temporal nos espantamos com aquilo que produzimos, ela se torna algo alheio, pertencente ao mundo, detentor de vida própria. O espanto é o reconhecimento do Ser que não está em nós, é o vislumbramento da superioridade da vida que não nos pertence, é o despertar de todas as coisas em sua magnitude. A criança se espanta com a vida do Ser.

Paulo Victor Albuquerque
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domingo, 3 de setembro de 2017

N.C.S

Acordara, mas ao olhar para o teto de seu quarto mais uma vez, pensou em voltar a dormir. Para sempre. Tarde demais! A mente, a mil, já começara mais um dia de seu processo de autodestruição e a primeira pergunta que vinha a tona era: "em que momento da minha vida deixei de ter um propósito? A resposta cortante vinha de imediato: "não há propósito!". Ao dedicar a vida inteira ao que está "atrás da cortina", tudo o que encontrara era triste. Esclarecedor, mas trágico, tal como, quando descoberto o truque, o mágico se transforma em charlatão. Não há arco-íris para quem persegue a verdade, tudo é monocromático. Em quarenta e um anos de vida, perguntas como essas o corroeram internamente todos os dias. O raciocínio, afiado como uma espada samurai, despedaçou qualquer traço emocional suficiente para o fazer mudar de idéia. Como um "Jedi" que se converteu ao "lado sombrio da força", por usá-la em demasia, fora tomado por um "mal" amoral, da apatia, da ataraxia, do nada!
Era como se todos os conhecimentos, estratagemas,teorias, métodos, linguagens, agora corroborassem com a intransponível aporia com a qual se deparava: a da existência.
Sentia- se desnecessário, incompatível, inalcançável. De início, achou que conseguiria, repetia em vão os mantras entoados pela autoajuda de levar "um dia de cada vez" e como alguém que com uma âncora amarrada aos pés, tenta chegar a superfície, sentiu a pressão aumentar assustadoramente a cada questionamento sem resposta, a cada descoberta sem volta, a cada túnel em que a luz no fim era do trem. Sucumbira de tal forma ao mar revolto da depressão, que atingira a região abissal do ser.
Era o homem que descobrira o fogo em meio aos neandertais, o escravo liberto da caverna de Platão, o primeiro a pisar na lua e perceber que não havia ninguém, era tudo e era nada! Levantou-se, olhou-se no espelho do guarda- roupas, mirando os próprios olhos, constatou que não havia nada lá para ver, nada além de seus próprios erros e incapacidades o encarando de volta.
Sem ressentimentos, sem adeus, sem mensagens subliminares, sem moral da história, como um patógeno prejudicial ao corpo,num último esforço, retirou o cinto que ainda estava na calça usada pela última vez cerca de um mês atrás, dobrada no criado mudo e usando os conhecimentos da física, pendurou-se pelo pescoço na porta do quarto que tanto o aprisionara. Antes de fechar os olhos, constatou, ainda nos últimos lampejos, que não havia nada de poético, na agonia de ceifar a própria vida, nada de significativo nas pernas que tremiam com a falta de oxigenação, ou no sangramento nasal devido ao trauma provocado pelo cinto e consciente da escolha feita, aceitou o fardo da pressão exercida em seu pescoço, como muito menor do que a que sentira em seu âmago por ser insuficiente. Jaz a mente de um consciente de ser vítima do anticorpo da vida.

Por Júlio César Barbosa Dantas
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 23 de abril de 2017

O Parto

"É próprio da literatura filosófica o ter de confrontar-se a cada passo com a questão da representação"
(Walter Benjamin, Origem do drama barroco alemão)

"No início era o Caos..." (Hesíodo, Cosmogonia)

Primeiro a explosão... depois, potência...
Ou seria uma implosão, pois não podemos afirmar um fora? A vida engendra implosões dentro dos fragmentos do existir. A implosão dos fragmentos da matéria geram ideias que são paridas pelo estouro. O parto da ideia nunca é um aborto, um vômito, um alastrar-se. Antes disso ele é uma absorção, uma inalação, uma assimilação. Agora ela (a ideia) está lá. Um organismo vivo, agindo, intervindo, interferindo. O agir da ideia não é explosão, é representação, é potência do pensar. O útero da ideia é o ser humano, que nunca é uma morada já que este útero sofre de histeria, gerando o aborto da ideia. A representação é uma histeria.

Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
vivisseccao.blogspot.com