domingo, 10 de junho de 2018
Poeira cósmica.
domingo, 20 de maio de 2018
Algo que não estava escrito.
Escrevo para os afortunados, aqueles planadores dos confins do mundo
Escrevo pois sei que o sinal de minhas ondas são surfadas na imensidão
Tsunami atômica, fótons de luz
No timbre de minhas ideias eu sou a interseção
Vibração quântica transpassada pelo nada
Escrevo para os anônimos, aqueles acolhidos pela máscara do incognoscível
Escrevo pois sei que sua identidade subjaz à solidão
Paráfrase do esquecimento, autonomia da negação
O capítulo da minha vida quem escreve é o absurdo
Transeuntes undergrounds do outro lado do muro
Escrevo para os invisíveis, aqueles cujos holofotes estão aquém de suas cabeças
Escrevo pois sei que jamais serão vistos por todos que têm olhos
Penumbra do entendimento, esclerose múltipla da criação
Entre as fendas da matéria há um espaço em construção
Ser é ser percebido, para eles não
Escrevo para ninguém, aquela coisa alguma de fora
Escrevo pois sei que não me darão ouvidos
Sons estridentes, lapsos de memória
Suspiram em mim burburios do aquém
Entre eles não há quem se julgue alguém
Por Paulo Victor de Albuquerque Silva
domingo, 1 de outubro de 2017
Uma sombra que não é minha
As crianças são seres extraordinários, sempre nos despertam para o novo. Recentemente me deparei com um vídeo em que uma garotinha se espantava com sua própria sombra. O espanto socrático nunca foi levado tão a sério como por essas criaturas. Tal fato nos revela como o espanto não se limita àquilo que nos é externo, ele também se produz com tudo o que é projetado por nosso corpo. Parece que as coisas que emanam de nosso corpo não são produto de nossa consciência, daí o espanto. Na verdade não podemos nos surpreender com aquilo que nos pertence, que temos o controle de criação. Nos espantamos sim (!), com o desconhecido, com o fabuloso ou o estranho.
A criança se espanta com o novo. O que ela admira não é a última novidade em modelo de celular, antes é a existência do aparelho de comunicação a distância, é a invenção do “celular” e não o seu tipo ou marca. O que ela produz brincando não lhe espanta, mas ela traz para dentro de seu jogo todos os objetos de sua admiração.
Para surgir o espanto faz-se necessário a distância. Enquanto escrevo esse texto ele é coisa minha, outras vezes não. Com a distância temporal nos espantamos com aquilo que produzimos, ela se torna algo alheio, pertencente ao mundo, detentor de vida própria. O espanto é o reconhecimento do Ser que não está em nós, é o vislumbramento da superioridade da vida que não nos pertence, é o despertar de todas as coisas em sua magnitude. A criança se espanta com a vida do Ser.
Paulo Victor Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com
domingo, 30 de abril de 2017
Daimon
Pensando nos textos anteriores, ia publicar uma poesia, mas desisti. Fui tocado por algumas ideias, fui tocado pelo próprio corpo que se expressou em textos de Paulo e Júlio. Se somos mônadas, nossas janelas estão escancaradas. Saltou-me um júbilo expressivo. De repente eu estava fértil, parindo, brotando. Coisas escapuliam, palavras, imagens, ideias, memórias... Um sentimento. De repente soou meu daimon: “na imanência não há um fora”. Se pensarmos, a ideia, de fato, brota de dentro. Para onde? Para dentro, para adentrarmos no vivo. E o vivo quase nunca aparece em vida, quando aparece somos finalmente tocados, instigados ao “mais”. A vida ímpar pulsa e sai do banal. Mas não sai como uma ilusão da linguagem que picota, transcende, encaixota o espírito num fora qualquer que comprime nosso corpo e pára nossa ideia dia após dia, pensando em mundos possíveis, negando o único que vive. Ilusão. Baixo. Trivial. O Não. O que me ocorreu foi o contrário. O Sim. O próprio corpo pare porque acompanha a mente em uma ideia e transfere para um corpo que é texto nesse momento. Através de outros partos também em texto. O texto vivo é uma ideia que do próprio texto escapa, mas ao próprio texto volta. Faz ideia e é ideia enquanto corpo num movimento único. Saída e entrada sem rumo, em si, juntos, leve. A imanência é chapada e altamente fértil. É a conexão de tudo, cheia de buracos, forças que desconhecemos. Puxa a filosofia para dentro. Desencaixa o dentro para fora na medida em que é expressão. Um texto escrito ou dito é a palavra que força e é forçada por ideias. Só há fora porque sai de um externo vazio triste e adentra nas forças que se comprimem para dizer e criar potencialmente. Exprimir e ter uma ideia é expandir possibilidades de novas ideias. Jamais excludente, o que brota é multíplice, para parirmos de novo. Algo que se abre cada vez que diz sim à vida. E foi esse próprio texto que fez-se como um gozo de um momento vivo!
Por Jayme Mathias Netto
Outrora.net
jaymemathiasnetto.blogspot.com