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domingo, 18 de março de 2018

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Quando escrevemos afetamos alguém. Esse alguém pode ser eu que me afeto. Meu próprio texto me afeta, as regras da minha língua me afetam, a necessidade de pensar dentro de uma lógica linguística me afeta. Depois de escrever olho para dentro do vaso sanitário e vejo se está mais consistente, pastoso, a cor, se parece mimeticamente com outra coisa. Isso me faz lembrar a fase anal do desenvolvimento freudiano em que eu espero o aval da minha mãe ao corroborar ou não com aquilo que sai de mim. Para Freud essa etapa da infância é decisiva à nossa produção no futuro. Se elogiado, mais produção, se rejeitado, enclausuramento. Acho, ou melhor penso - pois meu professor Carlos Dália me disse que eu penso e não acho - que as pessoas de hoje acreditam que suas fezes são maravilhosas, tendo em vista a quantidade de excremento que falam. O que o Freud não percebeu é que o ato de defecar não se restringe nem permanece na vida da privada. Existe o esgoto e ele é público. A multidão olha para a fossa reprovando-a ou não.
Antes de querer mergulhar no tipo de excremento que é exaltado pelos grandes papais e mamães sociais, que tão bem conhecemos como: burguês, homem, branco, europeu, cristão, hetero, etc. Quero que você olhe para dentro do vaso e repare em que tipo de merda você cultiva.
Sei que meu texto está escorrendo para um lado que parece fugir do tema inicialmente levantado, mas isso depende do meu sistema digestivo. O que sai de mim depende muito mais do que eu consumo do que da minha vontade.
Hoje, vejo que meu texto está mais pastoso e um tanto esverdeado.  
Paulo Victor Albuquerque
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 25 de junho de 2017

Apocalypse Now

“Eis que eu venho em breve, e trago comigo o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim.” (Apocalipse 22: 12 – 13).
Todos os sinais indicam que o fim está próximo. Irmãos matando irmãos; nações que se aglutinam em lutas mortais; sociedade narcotizada por antidepressivos e substâncias recreativas. O medo, meus amigos, paira no ar podre e tóxico das grandes metrópoles. O terror nos acossa e não temos saída. Todas as placas apontam o fim dos tempos.
O sentimento escatológico é uma constante em nossa cultura. Talvez essa sensação seja proveniente do “instinto de vida e morte” em que Freud afirma existir fisiologicamente nos seres vivos. Microscopicamente nossos corpos encontram-se numa guerra constante entre a vida e a morte. O cadáver de nós mesmos encontra-se sepultado no sarcófago de nossa inconsciência. O que desejo afirmar é: apesar de nossa relação direta com a finitude do existir, o sentimento do fim dos tempos, de uma atmosfera sufocante que não nos deixa saída, a certeza da catástrofe, são sintomas sustentados ideologicamente pelas superestruturas do real. Os filmes hollywoodianos, certas obras literárias, os programas jornalísticos, os fenômenos naturais do planeta e do universo, descrevem um percurso histórico que culminará paulatinamente no seu fim próximo. Todos esperam o eterno retorno do fogo divino heraclitiano que consome a matéria num devir infinito. Especialistas apontam suas causas para a decadência, projetam possíveis soluções em uma realidade tão complexa que depende da variante de múltiplos fatores e estratégias para o seu existir. Tal heterogeneidade transforma-os em sonhadores.
Mas não se preocupem irmãos. Há de vir o messias, aquele que trará a paz e acabará magicamente com todas as mazelas do mundo, sejam na natureza, os assassinatos, as drogas, a morte. Quanto maior a complexidade da vida material atrelada à ideia de progresso humano, causando-nos uma dependência institucional em meio a um emaranhado de forças, acreditamos que somente um ser imaculado e santo será capaz de nos guiar, de nos salvar. É nesse sentimento religioso de inferioridade que sustentam-se os Trumps, Bushs, Le Pens, Bolsonaros ou os Hitlers. Com suas propostas salvadoras da catástrofe arrastam suas multidões de dependentes químicos do espírito. Mas tenho uma novidade a lhes contar, o fim não está próximo, ele não virá.

Paulo Victor de Albuquerque
Vivisseccao.blospot.com