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domingo, 28 de fevereiro de 2021

Honra

E quem só honra quer.

E todos também querem,

querendo sair disso.

Uma coisa menos humana

tinha de vir nesse momento.

Uma coisa a mais ou a menos.

Uma Vida que não quer

dessa vida que sempre quer.

Mas de outra Vida que trouxesse algo.


Quem cura,

se deus mais não é?

Quem eu passo para seguir em frente?

Para que viver desses vícios,

criados por nós sem ele?


Todo santo dia, 

Todo santo dia fazemos o que não queremos

E ninguém ouve

Ninguém houve

que consiga aquela Voz escutar.

Aquela Voz que vem de dentro

E passa por cima de tudo

Porque ilumina


Quantas Luzes terão que vir?

Quantas vezes nos alertando?

Que somos capazes disso e daquilo,

mas que principalmente somos capazes.


Todo santo dia,

Todo santo dia fazemos o que fazemos

E ninguém pensa

Ninguém pensa 

Que pode ser feito de outra forma

Aquela forma que vem de dentro

E sai para todo mundo

Porque ilumina


E esses corações que podemos atingir?

E essas canções que podem ser feitas?

O imaginário geral da dor

sentida, porque humana!


Todo santo dia 

Todo santo dia sofremos o que fazemos

E ninguém sofre mais

Ninguém sofre mais

Que quem sofre agora de toda forma

Aquela forma que não é desse ou daquele

Que dói no todo do humano

Porque ilumina


Eu queria poder falar com certeza!

Eu queria confiar com prepotência!

Oh, queria acreditar com soberba!

Mas falo de tantos gerais,

que não falo desse ou daquele

Ajudo o Homem

mas meu vizinho sente fome e dor!

Quem pensa em deus acima de tudo

e esquece do Chão onde pisa.


Todo santo dia,

Todo santo dia, a gente se corrige

Uma morte a mais e uma a menos

Não tolera, a gente. 

Mas não muda.

Todos em sacrifício

da manhã que não tolera

a madrugada torrente acelera, e já era.


Jayme Mathias Netto


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Placa de desvendar




Eu sou um artista/pensador e proletariado. Não dependo de minha arte para sobreviver, dependo financeiramente de minha labuta como “prostituta do saber”. Quem sustenta a produção de minha arte é meu trabalho, não o público. A arte me dá sustança, nutre, coisa de estômago mesmo, de pele, de vida. Num dia mastigo letra, noutro rumino palavras. A arte que me sustém é a mesma que me devora, faz de mim sua matéria-prima.

Não escrevo para servir de consumo, embalagem, reciclagem, escrevo para incomodar, afetar, transbordar. Me desfaço em texto como córrego de rio para que a correnteza não deságue em mercadoria. A reificação de mim é coisa muita, habita o cosmos, alcança constelações estrelares, irrompe da rachadura na parede batida da casa de taipa. Já vi o que a indústria cultural provocou em grandes artistas, uma arte de plástico.

Temo um dia depender de minha arte para sobreviver e torná-la mercadoria. Existe no capitalismo uma perigosa relação de subserviência entre o artista e seus consumidores. A arte não deve ser definida pelo seu consumidor, o comprador exige que seu objeto seja de acordo com o seu gosto, sua satisfação. Mas a arte é onívora, ela devora o ser do humano fazendo dele coisa sua. Quando a obra toma corpo no mundo ela se desfaz dos rótulos, embalagens, dos valores, e fica ali, nua, lançada no berço do tempo e seus espaços dos agoras.


Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O vencedor

 

O pequenino entendeu cedo demais e da maneira mais cruel a dureza de ter de um dia ser grande, sem nenhum aviso prévio. Ou talvez, não tenha aceitado ao certo até hoje que a vida é composta em sua maior parte de adeus.

Desafortunado, jamais entendera da sorte que tinha. 

Ou encarou a ignorância a que fora sujeito como um furto dos inúmeros problemas que se escondem por trás da máscara da face do feliz da foto - o autoproclamado esclarecido.

Jamais escutara o som da comemoração, ouviu de um ou de outro num acaso fortuito. E talvez por isso não apreciasse a paz trazida pelo silêncio em que se encontrava na maioria das vezes.

Cego para jamais compreender que a escuridão é apenas a ausência de luz.

Procurou em tudo o que lhe faltava e por todos os lados, o que afirmou precisar lhe foi negado.

Por aí vagou, procurando se encher, quando nunca fora de fato vazio.

Tentou agregar-se aos experientes, aos sortudos e inteligentes, aos barulhentos de felicidade e aos que viam sempre além. Entregou-se a todos e não pertenceu a nenhum.

Sem escolhas, entendeu que não tinha de escolher.

Condicionado a ser sozinho, encontrou a si.

Entendeu que o que norteia o fenômeno da vida, no constante triunfo da maldade, são os relances de bondade que permeiam a desordem do caos.

E que perceber-se era um desses momentos. Que a melhor companhia era de si.

E então era isso de que se tratava a vitória.

De permanecer. E continuar aprendendo com o fracasso, até um dia tornar-se ele mesmo a própria vitória.

Seria então, finalmente...


                               

                                             vencedor.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

I need another way

Tarde inquietante 

Tantas informações conflitantes


A luta da mente em rememorar acontecimentos recentes

A imaginação enquanto habitante


De lugares existentes

Não obstante

meu corpo perplexo 

rastejante

enquanto ambiguidade pensante


O pensamento duvidoso de um futuro presente

Pavoroso e de olhos reluzentes


O conflito a escancarar na

tentativa de pensar 


como foi e determinar 

o que que será


Mas o que foi e o que será é o menos inquietante

pois é visto do presente


Que não é presente

Pois não estou contente


Um olhar rastejante 

que pensa prazos é conflitante


Os prazos recentes

atormentam o contente

ausente


Antes fosse um milagre ausente

Mas o tédio é presente e constante


Eis aqui um homem de profunda 

imaginação 


Eis aqui uma mente

Confiante de sua confusão


Uma névoa colorida e inebriante 

Que ora povoa as lentes


Os olhos já não satisfazem contente

Qualquer resquício que pressente


São

prazos 

muitos 

prazos

demasiados

amparados 


Quero sarar 

grita minha mente 


Escreve algo 

grita na esperança


afundo em mágoa 

Não sobra perseverança


Jayme Mathias Netto

domingo, 24 de janeiro de 2021

Desutilize-se

PROcurei temas, dilemas, dúvidas,aporias


CRASso vácuo criativo deixado pela microscopia do terror


STIgmas que tão cedo serão esquecidos


NEIxente, cria, como provavelmente Krenak diria:


"Você não tem que achar utilidade em tudo."


Júlio César

domingo, 3 de janeiro de 2021

D'abord



Assim como a dança é para o dançarino seu oxigênio, a poesia é para o poeta.

Um universo tão necessário e singular reside em cada um, quanto distingue-se alheio aos que não vivem de dança ou poesia, ou de odontologia, ou quaisquer outros ofícios. Porém nem tanto assim.

De modo que ainda que o poeta não esteja excluído de sentir a dança, a percebe como poesia do corpo. E o dançarino encontra na poesia uma dança de palavras.

Trazemos à nossa percepção o mundo como o amamos ou odiamos, o associando àquilo que conhecemos como real.

Essa captação singular e sensível é o que nos torna únicos.

Uma impressão digital do espírito.

A percepção de um único ato, de uma fração de segundo, que se reinventa a cada novo olhar.

A poesia se desdobra nos lábios, ouvidos e pele de cada um.

"Uma vez escrita, não é mais sua."

Um verso é gatilho para uns e o inverso para outros, indiferente.

De tantas particularidades, da volatilidade, de tantos pequenos instantes, como querer que um ano tenha o mesmo significado para todos?

Ainda assim, em 31 de dezembro, todos se reúnem para "celebrar."

Celebrar o quê?

Na busca pela verdade universal, a filosofia vem tentando entender o que essa relativização guarda como essência comum, que logicamente tornar-se-á irrefutável aos que negam existir qualquer parâmetro objetivo. Assim, aqueles que teimam em desmentir o sentido da vida e das coisas, então, haverão de concordar, pela força da matemática, que a vida tem uma verdade absoluta.

De certo que a tradição revela estar repleta de vastos e inúmeros trabalhos e obras dedicadas a este ofício, que vão desde antigos a contemporâneos, resignados em achar o uno, o elo, o demiurgo, o motivo pelo qual somos.

Os sentidos então brincam nesse percurso, fantasiados de ninfas e sátiros no cotidiano, emaranhando o homem em suas armadilhas.

Mesmo com tudo isso, dia 31 lá estão. Alguns só apanharam o ano inteiro, mesmo aparentemente sem motivos, não se furtam de beber aquela cidra e comer a sementinha de romã, outros pulam 7 ondas, outros usam roupas vermelhas, outros choram, outros bebem até cair, outros comemoram as conquistas, alguns apenas fecham os olhos em silêncio e agradecem mentalmente estar vivos depois de um ano de cão.

Quantos motivos vertem-se em lágrimas no choro? Quantas razões se convertem na força de um abraço? Quantos sentimentos seriam contabilizados no aterro da praia de Iracema depois da meia noite?

Se um instante é tão variável, como é que, em nome de qualquer filosofia, vou achar uma verdade do universo sobre todas as coisas?

Longe de tentar captar uma resposta, ou dar a tão dileta tradição um desfecho relevante, mas como uma observação de quem às vezes conversa com a vida e ela responde, eu chuto. Que essa tal verdade universal seja o amor.

"Só pelo amor o homem se realiza plenamente."

É o amor pela vida que faz aquele que silencia ser grato. É o amor pela prosperidade que faz aquele fulano comer as romãs. É o amor por uma boa sorte que leva o sicrano a pular 7 ondinhas. É o amor pela paixão que fez o Francisco usar vermelho, é o amor pela sabedoria que faz o Jayme e o Paulo se desdobrarem em teses para então descobrir que elas pouco importam e que vivisseccionar vale muito mais, é o amor pela esperança que une mesmo os mais desafortunados para o que se consentiu ser o fim de um ciclo e o início de outro e torcer pelo melhor.

Um ano despedaçante que se encerra, dessa vez em silêncio.

Outro ainda anônimo se ensaia a frente.

Não há queima de fogos na beira-mar.

Mas de certo ela queima na memória de muitos que estarão em casa lembrando. Dos que se foram, dos que ficaram, dos que virão.

O amor que era junto, permanece, ainda em "pequenos pontos de luz ancorados."

Iniciou-se a pouco mais de 2 dias e cá estou eu divagando sobre o que aconteceu depois desse cruzado que a vida acertou em cheio na têmpora da humanidade.

Nocauteados, seguramos nas cordas para levantar, buscamos o rosto do juíz.

Último texto de um ano ruim, ou primeiro de um ano que sabe-se lá como será...prefiro pensar nele como um Blaise Pascal, que ganharei mais acreditando que seja bom, de sorte, que mesmo depois de um "C'est fini", há de vir um "D'abord."

Arrisco, portanto, dizer que a única convicção que tenho é aquela que sinto, a de que ainda amo.

Júlio César

domingo, 27 de dezembro de 2020

Meta



Dirigindo-se à entrega de um texto para concurso literário. Inédita era essa obra tão especial. Fazia dele um verdadeiro poeta. Um verdadeiro artista e sentia-se bem com essas denominações. Excitado, vinham imagens na sua cabeça, a pulsação de um coração que acompanhava as imagens que advinham. A sensação de ser alguém que ele tanto admirou, leve como tudo aquilo lhe inspirava, feliz como tudo aquilo o felicitava. 

Pensava em Kurt Cobain e seus olhos inspiradores, em Jim Morrison e sua serpente xamânica, ia até John Lennon como um símbolo. Descia até à braveza de um Beethoven surdo, à inocência de uma criança pequena e compositora que se chamava Mozart. Cambaleava no pacto de Goethe, encaixava suas palavras como Shakespeare, revoltava-se melancólico como Fernando Pessoa. Pegava-se em pensamentos que compunham dramaturgias como Ariano Suassuna. Mistérios como Poe. Sacadas de um Manoel de Barros, ousadia de um Oswald de Andrade, beleza angustiada de uma Lispector. Daria entrevistas como um Ferreira Gullar. Seria intempestivo como um Hemingway. Louco como um Burroughs e cru como um Henry Miller. Ou qualquer outra coisa de importante que o caro leitor queira considerar: Buda, Jesus, Sócrates ou um desses poetas metafísicos. 

E o fato é que muitos faltavam à excitação daquele dia em que depositava sua esperança em ser reconhecido, como reconhecera dentro dele o que cada um que ele admirava representava. 

A secretária que estava recebendo a papelada para o concurso literário entregou-lhe um formulário: 

- Basta o senhor preenchê-lo e depositá-lo na caixa verde ali ao lado. 

Indicava a moça como se tudo fosse tão simples como escovar os dentes, ou como amarrar os cadarços. Simples como enviar uma carta, simples como dizer a quem ama que está com saudades, simples como um enterro, simples como um parto ou um casamento. Simples como abrir o coração e escrever tudo que escrevera. Simples como ser um poeta! 

Apoiava-se no balcão para preencher o formulário. Preenchia sem pensar duas vezes as partes relativas aos dados pessoais básicos. Titubeou na parte concernente à profissão. Ficou de preencher depois. Tomou fôlego. Seguiu em frente, tinha que dar certo. 

“Pseudônimo” 

Pensava o que preencher ali. Achou que podia ser ele mesmo, hesitou, pulou para a próxima lacuna inquisitória. 

“Defina em poucas palavras suas características artísticas” 

Foi a pergunta mais inconveniente depois de tantas outras daquela inquisição. Parou tudo e se deteve em reflexões sobre o assunto. Nunca havia feito aquilo na vida. A mesma sensação que temos quando, bem longe, lembramos-nos do dia em que nos perdemos de algum adulto que nos acompanhava: pais ou não, no centro da cidade, num supermercado, numa feira, num parque, numa praia, numa rodoviária, num aeroporto, no meio do mar, a onda levando pra lá e pra cá sem colocar os pés no chão, no meio do rio levado pela correnteza sem ter um galho ou uma raiz pra meter a mão ou qualquer outro abismo que o leitor queira. 

Perguntou-se o que lhe definia sinceramente. Sentia medo de não saber a resposta, de não mais ser concebido como poeta, artista ou pensador. Acanhado, tentava ultrapassar os limítrofes do que poderia ser uma boa resposta para conseguir ser aceito naquele concurso. 

Aglutinou proposições, justapôs palavras, tentou ouvir música nos fones de ouvido para se inspirar. O coração palpitava como se um passo errado o desafiasse a não ser o seu próprio sonho, a não ser ele mesmo de verdade, a não ser sua própria verdade, a não ser seu próprio sucesso e seu próprio fracasso, como se pisasse em cascas de ovos, como se num campo minado estivesse, como se estivesse numa corda bamba em um abismo muito alto, pisou errado adeus, ou qualquer tipo de reprovação que o leitor exageradamente queira. 

Nada fazia sua mente se adiantar em uma resposta segura que satisfizesse tanto ele mesmo como o concurso literário, então veio escrever isso que apresento agora. Aliás, talvez mais importante que concursos literários. E esse personagem que hoje nem sei o nome, apesar de tudo, segue sem saber o que é. E talvez a grande meta seja nem querer saber. 

Jayme Mathias Netto 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Desperdício

No desdém que o cotidiano tem ao homem de pensamento, houve certa vez uma roda de conversas.

Estavam todos a gabarem-se de seus afazeres e ocupações que trazem o dinheiro, pois dessa forma é que todos querem muito poder. 

Cada qual fervilhava no ardor quente das gabações e vantagens a serem contadas, esforçavam-se para chamar atenção do quanto eram aplicados em suas profissões. 

- Sabe, fui promovido ontem e o chefe vai dá um churrasco pra gente comemorar lá na firma.

- Uau, isso merece um brinde com Chivas.

- Uau, é mesmo. Vou buscar.

E, por detrás das amarguras reais, um homem de pensamento apenas pensava:

"Quantos demônios ainda terei de expulsar de dentro de mim para que essas pestes saiam da minha vida? Quantos ainda tão desconhecidos vão me atormentar? Quero expulsá-los do nada para lugar nenhum para ver se ao menos sangram por algo que não seja preço e números. Não observo muito bem nenhum deles, mas existe ainda luz até no nada?"

No entanto, como que encerrando o assunto, aquelas cabeças voltaram-se com desprezo para ele que ao menos aparentemente e inocentemente nada fazia. E  passaram a fazer valer o mal-estar de seu ócio. 

Ao que o homem de vita contemplativa, para usar um termo mais filosófico, afirmou docemente - com ar de sobriedade de quem trouxe aqueles pensamentos de cumes bem altos e cheios de neve - e como quem odeia com modéstia suficiente para ser um guerreiro em palavras. 

- Bem, eu vos responderia, não faço eu nada? Pois bem. Ousem, sair dessas fervuras egóicas, ousem sair de suas comodidades que querem tanto encobrir com finanças, isso que em excesso torna evidente a vossa insegurança. Ousem tecer em seus espíritos a liberdade, não essa de proatividade que tanto esquentam vossos couros com chibatadas abstratas que vocês se orgulham com o nome de trabalho, mas parecem mais macacos no trono cheio de lama! Ousem ministrar não respostas, afinal vocês têm muitas, mas perguntas silenciadas por conhecimentos que beiram a loucura. Ousem admitir a náusea da descoberta de uma ideia em seu corpo e, depois de muito tempo, ousem aquela suprema alegria, da ideia de gerar um modo de vida próprio, um valor próprio. Ao fazerem isso verão que jamais quem assim vive está de férias, jamais encerra o ato de pensar, jamais deixa de incomodar-se nem mesmo nos seus sonhos. Verão ainda que não temos quase nenhuma recompensa material. Nada que possam dizer férias. Nada que nos faça assumir de fato o orgulho de sequer "ter algo", pois percebemos o domínio que nos encobre e que nos utiliza como instrumento, bem como as entranhas capazes de nos fazerem forasteiros. E verão que tão hábeis para a guerra somos também hábeis para a fuga.

Calaram-se todos, desconversaram como covardes. Quem é lá debaixo não sente o fogo da coragem, querem sempre a novidade. Eles simplesmente mudaram de assunto. Enquanto ele ainda pensava:

"A vida nos pega pela mão e nos ajuda a entender da melhor forma que podemos, ela nos deu a melhor forma que podemos e o que há por aí é muito desperdício."

Jayme Mathias Netto

domingo, 29 de novembro de 2020

Velho mundo

Hoje, acordei procurando algo novo

Na esperança do diferente me deparei com o mesmo

Vasculho o velho baú encostado no porão

Dentro, empoeiradas lembranças do sempre igual


Onde está a diferença que tanto procuro?

Onde habita o novo, em mim ou no mundo?


O novo me vem no velho que me habita


Paulo Victor de Albuquerque Silva


domingo, 22 de novembro de 2020

Diafragma

De onde surge a poesia?
É a pergunta da vez. 
Com quantos anos você fez seu primeiro poema?
Viu na linguagem o primeiro problema entre sentir e dizer?
Respondo que,
como o canto da voz,
como o vento assobia,
como água da foz,
ela "brota no bailão."
Como o regurgitar,
involuntário,
daquilo que não se consegue segurar, um transbordar que se finda no alívio da expressão.
Sem pressão,
feito respiração diafragmática,
ocorre sem que percebamos.
Ray Bradbury disse certa vez que "o homem precisa ter algo para fazer, caso contrário sente-se inútil" deve-se, nestes momentos, lembrá-lo de que existem outras coisas. Lembrá-lo "da honestidade, beleza e poesia que se perdeu pelo caminho."
Aquilo que se fez verbo, possível foi somente por parar para observar na contramão da repetição técnica.
"Homens ativos rolam tal como pedra conforme a estupidez da mecânica."
Camus diz que isso acontece pois:
"Adquirimos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar. Nessa corrida que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo mantém esta vantagem inalterável."
Por isso é importante,
que uma vez ocorrido o rompante,
é preciso treinar o olhar, para ver adiante,
tal como se treina o diafragma.
Dar atenção à beleza colateral.
Nela pois, reside a poesia,
na fantasia de sonhar acordado,
de olhar de lado e enxergar, 
por entre as frestas da rotina,
no reflexo da piscina,
durante a sabatina do professor,
o arranjo de palavras, usadas todos os dias, 
ordenadas de tal forma,
como o retumbar de uma metralhadora,
que atinge diretamente a alma,
lembrando o homem daquilo que  criança nunca esquece.
Pois pode ser que no fim das contas,
a junção de todas as pontas, 
a resposta de todas as somas que fazemos em nossa cabeça, 
é de que o sentido da vida é sentir e não pensar.
Expressão,
concretização da impressão.
A tantas pressões somos expostos. Mas é justamente da contramão que nasce a poesia,
da mesma fonte da filosofia que responde a teimosia do corpo em existir e questiona o motivo.
Mas também pelo que foi sentido na pele, nos olhos, nos ouvidos.
Reflexão,
reagir a uma ação.
Como o respirar. 
Relaxar.
E assim, o que começa como um tatear no escuro,
um sapatear no desconexo,
toma forma de sentimento que não cabe em nenhuma gramática.
A muitos porquês atribui-se a causa poética, ao absurdo, ao avesso,
a estar perto do fim,
ou logo no começo,
a resistência,
a essência e a beleza,
até mesmo ao estranho.
Gostaria pois, de adicionar a estes ganhos, o diafragma.
Ele está em todos nós,
move-se silencioso, sem que notemos. Involuntariamente,
tal como ouvimos o silêncio,
como enxergamos a escuridão e consertamos o que quebrou.
Está lá!
E uma vez que passamos a percebê-lo, podemos usá-lo sempre que julgarmos pertinente.

Júlio César 

domingo, 15 de novembro de 2020

Pus

"Fugi do mau cheiro. Fugi da idolatria dos supérfluos. Fugi do mal cheiro. Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos. 
Ainda agora a terra está livre para as almas grandes. Vazios estão ainda, para os solitários e os sozinhos a dois, muitos lugares em torno dos quais corre o cheiro dos mares quietos. Ainda está livre, para as almas grandes, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos será possuído: louvada seja a pequena pobreza."
(NIETZSCHE em Assim Falou Zaratustra ) 

A poesia tornou-se um pus da sociedade, anunciando que há uma luta interna entre a cura da doença que a gente vive. Sinalizando a luta do corpo doente. Anunciando a ação de um anticorpo. No futuro, verão esse século e falarão: "Eles eram isso e isso, eram uma transição entre tal e tal coisa”, como sempre fazem os historiadores e acrescentarão: “Mas aquele século era o século onde a arte se disseminou para qualquer um. A Áurea por trás do artista apagou-se e deu lugar ao artista que havia em cada um, porque seu tempo sufocava um por um. Eram seres expressivos por excelência que não queriam deixar sufocar a vida que 
levavam. Tinham turismos acessíveis, viajavam em vários cantos do mundo, tinham informações para saber sobre qualquer tempo de qualquer lugar e época, mas algo sufocava aquele século pelo qual eles tinham que expressar artisticamente sem serem artistas 
consagrados." 
Então pergunto-me hoje: seremos nós a efetivação do triste eterno retorno? Sou uma espécie de Nietzsche não germinado? Um tipo de Spinoza corrompido? Incapaz de operar qualquer mudança na forma de concepção dessa realidade de ‘panem et circenses’? Um decrepto incrédulo e fruto de uma sociedade abortiva que me desceu pelo ralo? “Fugi do mau cheiro”, mas ele não se foi totalmente. Permanece entranhado cada vez que tento me comunicar... E quanto mais passo o rodo da língua, mais sujeira eu vejo que me cerca. Sou o peixeiro que se lava compulsivamente após o expediente e ainda assim não cheira bem. Por hora me concentro em passar o sabão da forma mais intensa que consigo. Que minha tentativa de ser diferente não me leve a uma igualdade qualquer. 

Jayme Mathias & Júlio César 

domingo, 8 de novembro de 2020

Poesia ruim

Não sei escrever uma poesia que preste

Nem minha mãe elogia

Ainda insisto escrevendo, pensando, rimando

É gostoso compartilhar meu infortúnio


Acho mesmo pretensioso chamar isso de arte

Até chego a me preocupar com uma vírgula, pontuação, peço a ajuda de um amigo

Mas é só pra confirmar o inevitável

“Tá uma porcaria”


Cansei de tentar escrever bem

De onde vem sua inspiração? Perguntam

Da mosca que atazana minha cabeça

Respondo me coçando


Vocês já se perguntaram o quanto é difícil escrever algo bonito?

Por isso prefiro o ridículo

Esquisito, medonho, grotesco...enfadonho

Tentar ser bom cansa


Melhor do que a boa escrita é admitir minha falha, a incongruência e ruindade que habitam em mim. A poesia sonoramente inferior é aquela que fere o ouvido, que arde o olho, que fadiga, que causa nostalgia.

Sim!

Nostalgia…

Nos deixa com saudades da boa poesia

Do mundo dos sonhos que se abre na linguagem

Que faz da língua portuguesa um parceiro de dança

Ao som do silêncio que repousa nas páginas e os sinais das palavras cravadas em nossa pele.

Nas extremidades do meu corpo, encontro o limite da boa poesia

Assisto o fracasso do escrito cuidadosamente amparado pelas páginas

Sinto vividamente o sentimento mais puro e honesto dos últimos dias

Me encerro compartilhando a mais doce e velha nostalgia.

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 1 de novembro de 2020

Ozymandias

Adrian, altivo, observa de cima de seus ombros bem postados a humanidade em decadência. Tanto tempo se passara e ainda assim quase nenhuma ruga denunciava seus dias. Não fosse a mecha de cabelo prateada, partindo do topo da fronte e descansando serpeante parietalmente, atrás da orelha, lhe diriam ter seus vinte e poucos anos. Sempre bem tratado pelos cativos que enfileirou aos pés do seu intelecto, das mais diversas etnias, religiões e filosofias, ele bebeu. Absorveu o que dinheiro nenhum, mesmo os seus bilhões o proporcionaram. Empírico, se inspirou em grandes conquistadores, atraído por suas perfeições estratégicas. Alexandre, Ramsés, com os quais sonhava e se inspirava, mas que após conhecer detalhadamente suas trajetórias, regurgitou os anseios ao ver o quão pequenos eram e o quanto os livros tinham sido para eles enormes lentes de aumento. Agora suas imperfeições o fascinavam ainda mais. Questionava o que teriam feito esses homens de bom para serem tão honrosamente retratados, por matar e escravizar, por ter em suas mãos culturas e povos desmanchando-os como esculturas de argila. "Esses--refletia ele com desdém-- são os maiores exemplares da humanidade", almejava chegar em outro patamar, construir para si a hegemonia perfeita. Em contramão, era concomitante o quão às vezes pegava-se no introverso cotidiano dos comuns e os observava inquerindo como idiotas erráticos conseguiam errar de novo e de novo e continuar errando depois disso? Como tartarugas a escorregar no lodo da saída do lago e voltar ao fundo para tentar tudo novamente. Mas é do feitio da própria existência que genialidade alguma, de grande homem qualquer, por maiores que sejam suas conquistas, consiga superar o inato. Como que num giro do plot, o destino colocou Adrian junto ao joio do qual tentara a todo custo se separar, quando murmurava repetidamente para si e seus cativos: "Meu nome é Ozymandias rei dos reis, contemplem minhas obras ó poderosos e  desesperai-vos." Adrian julgou que o conhecimento ultrapassa o tempo e o tempo daquilo que ele julgava saber passou e transformou tudo ao seu redor. Como numa espécie de círculo perfeito. Seu Q.I rapidamente assimilou que o tempo engole tudo, até mesmo a certeza científica, fazendo o mais inteligente ser o mais tolo por não ter percebido o simples giro de um ponteiro.
Já com ombros nem tão altivos assim, Adrian se viu espatifado. Dos seus pedaços, sobrou a cara não mais astuta, mas resignada. Em cacos diante de seus próprios pés, repetia seu mantra com os lábios quebrantados em meio aos gentios, que aos poucos sumiram dali deixando Adrian soterrar-se lentamente no próprio deserto de solidão quase inabitável, exceto para si e seu fabuloso ego.
Pouco antes do oblívio, sua mente mesmo convalescendo, em um relance de acuidade, entendeu tarde demais que, defronte ao tempo, a verdade se torna mentira, o absoluto vira relativo, uma quimera é louvada de sensatez, e impérios de reis viram o caos do tolos. 
Que "homens gostam muitíssimo de construir e pouquíssimo de preservar"
E o que um dia fora fidúcia da imponência, hoje se esvai distante na narrativa fantástica de um viajante de terras antigas que certa vez se deparou com "duas imensas e destroncadas pernas de pedra erguendo-se no deserto... e no pedestal apareciam essas palavras: "Meu nome é Ozymandias rei dos reis, contemplem minhas obras ó poderosos e desesperai-vos."
De quase tudo que se vai, o que permanece nos lembrando volta e outra é que, seja pelos olhos de Shelley, ou de Smith, seja nos reinos de Alexandre, Ramsés, ou até mesmo o do impetuoso Adrian, é que todos os impérios caem.

Até mesmo os da mente.

Júlio César 

domingo, 25 de outubro de 2020

À Hilda

As horas chuvosas que trazem essas manhãs tardias são as melhores. Eu não sou poeta se o dia não me vem com essa brisa passageira. Não bastasse a embriaguez matinal que sinto 
apenas por ser manhã, ainda ouvi os gritos de Gaspar e sua amada ao gemerem hoje cedo. Fiquei a imaginar um pornô explícito. Um pornô francês do tipo “Ah Putain! Vas-y, Vas-y.” A língua francesa nasceu para o chuchoter e para o sexo sussurrado, Rousseau notou bem isso numa de suas cartas. Basta ouvir de onde vem os tons e fonemas dessa língua que Gaspar admitia ouvir gemidos e sobrevoos de orgasmos na esteira do tempo. Uma sensualidade nas cordas vocais é o que Gaspar já tinha ouvido de uma puta nas suas primeiras aventuras. Nunca tinha ouvido a palavra ‘cu’ sendo dita de maneira tão poética. Logo Gaspar, que aprendeu logo cedo a exprimir essa palavra como a primeira de seu vocabulário. “Papai”, “mamãe”, não! Foi “cu” a primeira palavra que disse! E anos depois uma puta falava cu no seu ouvido e ele percebia pela primeira vez o poder que as palavras têm! As cordas vocais são provenientes das entranhas sexuais. Chuchoter já é uma palavra sexual aos ouvidos de uma tara perturbadora como a de Gaspar. Ontem eles gritavam, um grito abafado pela vergonha repentina. Um travesseiro ou qualquer coisa do tipo abafou a gozada. Primavera, souberam eles, todas as janelas escancaradas e logo quiseram distrair o gozo tão belo que eu ouvia. Sei lá se tinha a ver com cu, mas ela gritou enquanto ele gemia. Dava para escutar de qualquer lugar ou queriam eles serem escutados. Vai ver que o cu queria expressão! Os órgãos têm vida própria! Deve ficar puto o cu que se exprime quando peida e todos riem! Fazer coisas que as pessoas só riem todo tempo deve ser um saco, enjoa ser bobo da corte! Gaspar estava numa de expressão abstrata nos últimos quadros que tinha pintado. Era mandala oval. Sabia que havia algo de tudo menos vaginal na sua tara expressiva. Ele queria transpor o chakra base em formas de mandalas. No fim, o cu de alguém queria dizer algo! Quando fui hoje no indiano que vende jornais aqui no bairro, vi que os jornais não diziam nada demais, mas a paz que esse cara me trouxe valia mais que qualquer dia de notícias boas. É raro o dia que vivenciamos nós mesmos. Ele trouxe o tempo igual ao que o tempo era no infinito. Ou seja, tudo parou. A paz. Tudo cabia no lugar adequado e o ritmo das pessoas entrou em harmonia no serviço que ele prestava ao tirar xerox e liberar telefonemas nas cabines. Ele previa a orquestra matinal e ritmava cada um em seu tempo certo. Se alguém queria adquirir algo de sua lojinha ou de seus serviços, ele conversava e abençoava cada um com reflexões do tipo: “vale mesmo a pena gastar seu tempo com isso?” Quando o vi pela primeira vez, fiquei estarrecido. Eu permanecia em sua frente, atrapalhando a fila de pessoas que já tinha se formado, apenas para ouvir suas palavras claras. E ele sorria com um conjunto de belos dentes brancos, bem organizados como tudo que ele transparecia. E foi justamente ontem que Gaspar me perguntava o que tinha a ver o cu com o indiano. Eu lhe disse que ambos estão na base de nossa conexão com a terra. No chakra base. Falei-lhe sobre a kundaline e as meditações. Ele, peludo como um boi, levantava sua caneca de triple blonde e voltava o olhar para mim como seu pai fez na época que ele repetia a palavra cu tomando a mamadeira: “Ha ha pobrezinho! Num sabe nem o que fala!” E, até hoje, ele gagueja em qualquer coisa obscena. Mas aí o indiano chegou em seguida no bar. Tomou um gole com a gente e tentava harmonizar para os astros, que é de onde parecia ter acabado de chegar, o sabor do álcool, como se telegrafasse uma mensagem ao além. Ele ensinava aos deuses coisas humanas! E Gaspar finalmente entendeu a espiritualidade do sexo e a sexualidade das coisas espirituais! A vida é mais simples quando o indiano chega em um ambiente! Ele carrega a paz! E Gaspar só susurrava sem que saísse de sua boca a palavra cu! A paz e o cu sempre querem dizer algo.

Jayme Mathias Netto 

domingo, 18 de outubro de 2020

Máquina de moer bois


Eu não passo simplesmente pela Osório de Paiva, eu corro sobre ela. No volante, minha atenção está direcionada ao sinal, ciclista, carro, buraco, meio fio, cooper, pisca, moto, freio, ônibus. A avenida Osório de Paiva, para quem dirige o automóvel, não é a mesma para quem caminha. Quando nela ando vejo o carrinho de doces do Dé, cachorro morto no meio fio, roupas de ginástica emolduradas em corpos que correm, sinal, plantas, mato, ciclistas, churrasco, rachaduras na calçada. Eu simplesmente passo sobre a Osório compondo seu quadro.
Em tantas idas e vindas sempre me deparo com ele. Vem andando sobre o lado direito do meio fio respeitando a direção do fluxo do trânsito. Quando chega no desvio, retorna, ainda em respeito ao novo fluxo que não é uma volta mas somente o outro lado do meio fio. Tem o ombro direito mais elevado que o esquerdo, fazendo com que seus passos respeitem a velocidade de seu desvio corporal. Blusa marrom, não sei se devido ao tempo, calça cinza e empoeirada pelos agoras da calçada. Nunca olhei para os seus pés, não sei se usa sandálias, se caminha descalço, se percebe o chão. No rosto, nenhum sorriso, nenhuma lágrima ou dúvida, apenas a certeza do caminho, a avenida do sempre igual. A pele suja e a cabeleira amontoada em grandes blocos de cabelos concentrados de oleosidade, numa espécie de colmeia capilar, anunciam os longos anos de cuidado com sua trajetória.
Ele caminha. Em meio a tantas incertezas, desejos, procuras, atrasos e disputas, entre acidentes de vida e morte, ele caminha na certeza do seu lugar. Anda sobre o meio fio como o equilibrista sobre a corda no abismo que paira a Osório de Paiva. Nunca o vi parado conversando, observando, cheirando, contemplando, respirando, nunca o vi parado.
O homem que caminha sobre a Osório nunca é percebido, logo, não é interrompido. Seu perímetro é um fragmento da avenida. Ele circula um trecho de vida. Ele movimenta-se não como o Flâneur, não observa a vivência das ruas, antes, ele é o ser pulsador na artéria aberta transitória da periferia de Fortaleza. Sua casa é o passo, a jornada para chegar no mesmo lugar.
Em uma cena do filme de Walter Salles “Abril Despedaçado”, o “menino” questiona seu irmão se a vida de sua família não seria semelhante a dos bois que fazem a máquina de moer funcionar devido ao seu movimento eternamente circular. Pergunto-me o quanto nossa vida é maior do que a atmosfera da Osório de Paiva e se, afinal, o homem que caminha sobre a Osório realmente seria o boi.

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 11 de outubro de 2020

Tempo esguio

Dia a mais, dia a menos.
Amenos, já não são os minutos
Que diminutos se transformam em horas flutuando com o vento.
Advento da apatia, advance da monotonia, traduz-se num funk: sequência de dia e noite, sequência de noite e dia.
Esguio, o tempo escorre como num haikai escrito tempos atrás
Fazendo parecê-lo muito mais lento o tempo ali descrito, quando escrito, que hoje.
Embrolho, o abrir e fechar de olhos aproximar-se vertoginosamente do passar dos dias.
Vertigem em nossa mente transitando no piscar.
Pisco é dia, pisco é noite.
De modo que falar sobre tristezas e alegrias do presente é árdua tarefa, antes que o agora vire ontem.
Nem sei mais o que, quando e quanto sinto, apenas que o sentimento existe no instante que sou.
Absinto da alma é ser livre e voar
estando preso.
A única certeza que me resta é o tempo...

   ele 
         tá 
             rolando
                          escada 
                                      abaixo.

Júlio César 

domingo, 4 de outubro de 2020

É o novo!

Um segredo:
o
novo...
repete 

A Repetição virtude?
Repetir 
repetição.

Abecedário da vida,
aprender um modo outro: 
possível.

Como não? 

«Colocar em movimento a matéria pensamento!» 
Deleuze

Escutar gente besta, 
viver a vida besta é
aprender algo para não sê-lo!

Devagar e constante até que algo «velocita»
é um porvir.

Encontro necessário: 
filosofia
atraso, 
retardo, 
latência 
do pensamento
e ...
PLIM: o novo abre fissuras!

Jayme Mathias Netto 

domingo, 27 de setembro de 2020

Cangaço

- Minha literatura é de resistência. - Da terra rachada. - Do conflito de pistola contra a polícia sustentada pelo Estado que assegura o capital. - A bala é minoritária, sai das mãos de Maria Bonita, Lampião e Lunga. - Como no cangaço, a literatura de resistência não tem que produzir espectadores, mas sim novos combatentes. - Armado até os dente, me embrenho nos mato na procura do grande rosto opressor que nos vigia. - Eu não escrevo, eu me armo. - Em minha memória reluzem gritos oprimidos. - Seu Mathias tem razão, a maior munição é a letra, então escreva. - Convocamos combatentes na contramão da rua de mão única, os que foram apagados do grande mapa territorial dominante e que vivem no Bacurau. - Ou como fala seu César, quantos padeiros espirituais silenciados à espera do estrondo do canhão. - Nosso estouro irá ressoar em todos os ouvidos extraviados. - Nossa mira tem como alvo o grande rosto masculino branco, heteronormativo, colonizador, fascista, egocentricamente fálico e dono dos meios de produção. - Queremos diferença, não repetição. - A revolução se faz com a peixeira torta afiada na nossa carne, ou como quando o poeta Zé da Luz fura o bucho do céu. - É da caatinga, do cacto que resiste na seca, da foice que corta cana, do pé que se racha como a terra, é de lá que vem o vigor de quem cria. - Que sejamos os produtores inacabados de nós mesmos. -

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 20 de setembro de 2020

Fractal

Não tenho nada além do que sou.
Não sou nada além do que sei.
Quem então dirá ao certo qual o meu valor?
Quanto vale o amor que estou disposto a dar?
Como medir a distância dos passos que dei por onde passei?
Quanto custa o litro do meu sangue?
Das páginas que li, o que tiro de teoria e prática
é que sou só um ponto em uma linha infinita.
Um fractal em uma nevasca que cai. Bonita, mas fatal para os cristais que se derreterão no solo.
Por que me importar com o que acumulo no trajeto?
Quando tudo que possuo se esvai?
Ganhei o que nunca pedi.
Perdi o que sempre quis.
O que eu tenho?
Sentir, sem ti. Pois sem ter, não sou!
O amor é real?
Ou apenas autoconsolo de um mundo que reza pelo coletivo e idolatra o individual?
"Todo mundo busca desesperadamente algo para idolatrar",  
disse certa vez o dito profeta.
Ser ou ter? O que te afeta?
O que você busca dessa vida?
O que deixará?
Memórias ou fortunas? Observe o defeito nessa pergunta.
Em um mundo perfeito, não seriam essas duas uma mesma coisa?

Em meio a tantas perguntas sem resposta, o que hoje se reposta é o contrário do que penso.
Permaneço então avesso. Não tendo. Sou final sem começo. Sendo como posso. Doando o meu terço, esperando o vosso. Ainda que não venha.
Não tendo nada além do que sou.
Não sendo nada além do que sei.
Existo apenas para mim e para aqueles que entendem onde reside o "valor" das coisas.

Júlio César 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020