domingo, 27 de janeiro de 2019
Prefiro não dizer.
domingo, 20 de janeiro de 2019
Provehito in altum
Certo dia, cansado de embriagar-se de problemas pertinentes ao "know how" de pagar o aluguel no fim do mês, Erasmo resolvera chutar o pau da barraca e encher a cara de vera. Desgostoso da rotina de lascado, gastara o restante do insuficiente ordenado com um doce e 2 garrafas de rum. Lá pelas tantas, já bastante viajante, resolveu entrar em uma birosca para não correr o risco de dormir ao relento e ser violentado ou incendiado, confundido com um mendigo na "pacata" Fortaleza. Na espelunca não havia quase ninguém, exceto por uma mesa no canto na qual sentavam três figuras estranhíssima, as quais Erasmo não sabia distinguir o que eram. Viajando no céu de diamantes, tampouco fez questão de fazê-lo. No entanto, fortemente influenciado pelos sentidos, Erasmo foi gradativamente captando o estranho diálogo que ali se desenrolava. Os homens falavam sobre algo como um exame vivo de partes funcionais do corpo, ao que pareceu mais um encontro de legistas que uma conversa informal de bar. Ainda que involuntariamente, Erasmo se viu tragado pela torrente de pensamentos dos homens que falavam dos mais variados conhecimentos. De desinteressantes passaram a sábios bardos da modernidade que agora contavam as mais fascinantes histórias que o jovem proletário ouvira em seus vinte e poucos anos. Um par de horas depois, um assunto em particular chamou atenção do viajante. Os mascates falavam sobre a história de um anjo que desafiou o firmamento, porém não referiam-se a Lúcifer. Fascinado, Erasmo transportava-se para dentro da história da mesa ao lado. O ser celestial possuía outra reivindicação, diziam, não tinha ambição de ser maior que Deus, apenas buscava igualdade entre as criaturas do céu. Por possuir as asas negras, diferente de seus irmãos, o anjo fora condenado a viver aos pés da árvore do conhecimento onde recolhia os frutos imperfeitos que ali caíam. Certa vez, encorajado por um transeunte, burlou as regras e comeu um fruto inteiro que lhe fora dado pelo passante indignado ao ouvir sua história. Em seguida o celestial teria voado às portas do céu onde clamou a Deus que o explicasse por quê da diferença entre ele e os seres que ali habitavam. Para sua surpresa, descobriu pela boca de Chamuel, arcanjo da devoção, que Deus não estava ali, o príncipe celestial no entanto concordou em mostrar o verdadeiro conhecimento negado ao caído e notando a fúria que aplacava o mesmo, incumbiu Raguel, anjo da justiça, por levá-lo ao reduto da verdade. No entanto, ao deparar-se com o conhecimento pleno, o caído perplexo chorou lágrimas de sangue enquanto dizia: "era por isso então! Meu pai sabia que eu não estaria preparado, que eu não suportaria esse fardo! Eis que a luz finalmente cegou meus olhos por querer enxergar!" Tomado de desgosto, o anjo caminhou até a beirada do infinito, arrancou com as próprias mãos as asas negras como a noite e se lançou triste e "livre da aflição de não saber". Enquanto percorria o trajeto contrário ao de Ícaro com suas asas de cera, o anjo sentiu a mortalidade tomar conta do seu corpo em forma de dor. Melancólico e convicto desaparecera no infinito.
De volta à mesa do bar, um dos três homens na mesa olhara para o relógio e exlcamara: "deu minha hora! Falou doidos! Tenho que ir! Falou!" Inconformado com o final trágico e abrupto da história, Erasmo foi em direção à mesa dos bardos e exclamou: "e o resto da história? Que fim levou esse anjo? Qual a moral?" Um dos três homens, de cabelos longos e aparentemente ressaqueado respondeu: "que moral?" O segundo de barba loira interrompeu: "alguns dizem que ele morreu na queda. Outros que ele vaga eternamente, cego, sentindo a humanidade sem perecer." Enquanto pagava a conta, o terceiro homem complementou: " E alguns poucos dizem que ele deixou de ser alguém e se transformou em uma ideia, que de vez em quando acomete um ou outro sob a forma de inspiração. Quando isso acontece, dizem as más línguas que ele fala através dos outros sobre a verdade que presenciou." Os três homens então seguiram separados seus caminhos. Já Erasmo saiu em direção ao seu AP quarto/sala, enquanto pensava: "Preciso urgentemente de asas!"
Por Júlio César
domingo, 13 de janeiro de 2019
J.
O sol tenta aparecer em meio as nuvens amareladas e já de um entardecer de primavera. A poluição é vista do monte alto onde caminho. Encontro J. Ele senta no banco de entrada do parque, finge que está falando com alguém no celular. Traga discretamente sua cannabis, para que eu não veja. Há algo de discreto em J. como em todos os adolescentes. Acho que não confia em mim para essas coisas. Duvida um pouco. Mas parece normal. Aos poucos percebo que decolou. Lembro de um canto no bosque mais adiante para levá-lo, não queria constrangê-lo. Caminho, mas canso rápido corroído pelos pensares. As pessoas olham para J. como um nada e começam a andar rápido. Adolescentes passam com algum vídeo idiota no celular ou coisa burra que J. sempre diz "esses merdas, só fazem isso o dia todo". J. afugenta qualquer um com seu ar ébrio. Uma fitness passa correndo e transpirando, J. está exageradamente chapado e desconexo. Tonto e atento. Observa tudo. Tonto. Pássaros, sombras, um homem fotografa J. na passagem do tempo, tenta fazer contato com sua perspectiva por detrás dele. J. sequer enxerga a sombra das árvores que animava o fotógrafo. As pétalas das rosas brancas caídas no chão. J. entrou dentro de si. Meio sonolento e preguiçoso. Senta. Sons de pássaros. Quer dizer algo. Sons estranhos de um bixo noturno. E a Luz do dia é breve. Que grande viagem de J. ensurdecido. Vestido como se fosse assassinar crianças e velhinhos nesse parque. Como se fosse um maníaco. Imagem destrutiva de J. mesmo. Chapado. J. diz que quer sair, ir para casa não quer conversa. Quer fugir de algo que não é. Ele me diz: "Ouso dizer nos olhares dessas crianças minha inocência neandertal. Minha cara. Devo estar horrível, um monstro procurado pelo medo."
Ele sorri e eu disfarço o meu desespero. Talvez seu sorriso fosse mais desesperado que meu olhar. Desvio do sorriso. Está sombrio como o cheiro de cadáver que sobe nas árvores do Père Lachaise. Há um fundo triste em J. Não sei o que. Como se precisasse resolver algo constantemente. Uma atenção e tensão pelo nada. Ele disfarça no celular trêmulo. Travado e com medo do não-sei-o-que. Ele me olha turvo: "Eu caço como um bicho de rapina."
Aconselho dar passos mais leves no caminhar. Explico que o espírito capta as entranhas do caminhar e reabro o jogo a meu favor. É importante praticar isso. Ele dizia: "Uma criança quer amadurecer em mim. Eu estou grávido de crianças-ideias. De sentimentos vindouros. Eu sou o pai da vida. Devo protegê-la. As ideias todas da humanidade são sementes, cujo jardineiro sou eu. Eu sou a fábrica de sementes. Eu sou a própria abundância da natureza em florear. Ideias são sementes. E eu sou uma fábrica de amadurecimento. Caço os solos prediletos de ideias mães." Passa estranhamente uma polícia a cavalo. Algo raro. Misteriosamente e aos poucos nos acostumamos com a discreta guerra que nunca deixou de haver. Ele diz "Coincidências chapantes." De repente ele entra em um devir... é o próprio policial do parque. Exuberante em sua pose indômita. O barão da bondade onde a sociedade deixa guardar o sentimento de tranquilidade. Projeta-se no herói. O bem aventurado adormecido em todos. De repente ele se diz a própria bondade. Anuncia gritando: "Não sou o erro. Não sou o chapado. Sou o próprio prazer da copa das árvores na luz do sol. Sou um neanthertal nessa terra. Sinto-me assim sem mais nem menos. Como se quando eu falasse e sorrisse eu quisesse uivar, grunhir e subir nas árvores para imitar os pássaros." Gritava igual o corvo todo preto que homenageia a obscuridade das entranhas da terra. Eu lhe dizia que havia algo de uma energia solícita nos montes. Povos migratórios pisaram onde pisávamos. Ele sentia-se meio neanthertal meio corvo. "Milhares de anos e sou ainda capaz de chorar a mesma solidão." O corvo apanha um sapo. Parte a cabeça do bixo ao meio. Um isqueiro no banco do lado surge. Não tínhamos percebido. J. diz "O fogo neanthertal, o fogo como instrumento sentado ao lado. O fogo da caça e num botão frabricado. Abandono de ritual." Um cara forte e sua mulher fumam um beque gigante. Encontramos o tal do homem do século xxi que ele tanto falava, quando saíamos caminhando no bosque. São duas emas gigantes. J neandertal na conexão nua com um passado remoto. Volto para casa e me despeço. J anuncia "Pareço ter milhares e milhares de anos. Velho como o sol." E bebe água como uma nascente. Deitou-se e dormia como uma besta. Sabia eu que quando voltasse, voltava como quem retorna de um passado interno e desconhecido. Rico de proezas misteriosas da própria vida migrante e da caça que grunhe e geme. Havia algo nele de uma atenta tensão de caçador. Usufruindo de radares atentos e de paixões ameaçadoras. Agora estava mais liberto.
Por Jayme Mathias
domingo, 6 de janeiro de 2019
O satanás da revolta.
domingo, 30 de dezembro de 2018
C'est fini
Já faz um tempo agora...mas é mal de ser humano (incluindo eu) entender que tem hora pra começo e hora para o fim.
É mal de ser humano se apegar à finitude do supérfluo. E, ao mesmo tempo, negar aquilo em que reside a amplitude da nossa medida, aquilo que a priori causou inveja aos moradores do Olimpo e agora tem tornado a vida egoísta, diminuta, um garimpo cada vez mais destituído de beleza singular. A liquidez do tempo escorre desapercebida pelas mãos do devir, enquanto se derrama no balde imaginário que sustenta as recompensas da transcendência. Fé e virtude conduzem a humanidade às promessas de uma suposta eternidade .
E cada vez mais nos esquecemos de sentir o hoje, de viver a brevidade do instante humano, escorados em uma criação mental, um "porvir", um "amanhã" unicamente metafísico. Nessa espécie de Matrix não há um Neo, senão nós mesmos. Nessa "realidade" enxuta, versão beta, aquilo que é de importância complexa passa para uma espécie de plano diferente deste, "onde teremos entendimento sobre todas as coisas", restando-nos voltar a atenção no plano corrente, a atualização do Android, aos pixels da câmera frontal e se o "carango" tem injeção eletrônica, airbags laterais e câmera de ré. E, assim, o cimento passa a valer mais que o ar, tal como o rotor lateral assume maior valia que a vida de Charles "escafedida" em pedaços enquanto mexia na bomba helicoidal.
Se é clichê clamar pelo Carpe Diem com o qual se riem os leitores que neste ponto se deparam e pensam: "de novo essa baboseira!", que de fato se encontra a torto e a direita nos status de "WhatsApp" e nas tatuagens dos "influencers", então é válido que entendamos o que a sentença simboliza. Também não é como se devêssemos seguir à risca o código de Epicuro, mas se hoje nos é possível orar e pedir por algo, interessante seria se, ao invés de uma vida eterna, ou de 500 virgens para nos aguardar no além, pedíssemos por discernimento, para seguir o conselho do mago cinzento que certa vez, sabiamente proferiu a um pequeno grande, que aquilo que nos cabe é "decidir o que fazer com o tempo que nos é dado", para que então compreendamos que o fim não se lamenta, simplesmente chega e se acaba. Para que possamos lamentar menos pela finitude da vida e principalmente das coisas materiais, tal como fazemos com o fim de um capítulo, de um semestre letivo, ou do ano que agora se encerra...
Que lamentemos menos nossa finitude e a vivamos mais, porque cedo ou tarde o fim chegará e quando ele se for...
C'est Fini.
Por Júlio César
Vivisseccao.blogspot.com
domingo, 23 de dezembro de 2018
Amarelos empambados sem coletes
Basta abrir o olho e ver. Os novos poetas estão aqui. Os novos poetas já nasceram e morreram, mas estão sempre vivos. Poetas de uma linguagem carcomida, cheia de ferrugens de cérebros ácidos. Ciência, ciência? Eu quero é o belo! Basta. Besta! Desprezível bata! Anseio! E toda arte se repete imune aos desvios e desfiladeiros que o medo quis inventar. A repetição de toda tarde em uma única maneira de viver como possível, contemplando o nada, desprezível que se tornara. E Glauber trepa às três da manhã exigindo estourar uma gosma quente nas pernas de Sua Anfitriã para esquecer. E eu só sei lembrar. O dia todo resgata o momento de uma prosódia pré-pronta, rotineira da qual sou espectador. Uma camada do epitélio terrestre que nunca entendi e sempre foi em vão. O gozo absurdo de tardes infindas como a de Paris no entardecer. Milhares de possibilidades e angústias dos seres que nascem e morrem. O medo bate na porta camarada de um dia que não sei se termino, porque exijo da minha carapaça falsa e infame as mais duras e cruéis agonias para o gozo. Aquele mesmo de Glauber, o pedreiro, meu vizinho que come sua mulher antes do trabalho duro. Desço o elevador e, não basta estar assim carcomido, lhe encontro. Desejo-lhe bom dia. Mas Glauber está verde turvo como a penumbra das árvores de uma chuva que ameaça vir. Turvo é um entremeio, o lamaçal que não identifico nem nele nem no sorriso de sua esposa que ainda deve está de quatro, caricata tosca de um brutamonte que a consumiu. Sai cheia de delicadeza logo em seguida, embora sintia-se prostituída, mas algo a erguia em uma pose bem vista nas tarefas sociais de sua função pública. Etiqueta travestida em delicadeza santificada na religião do dia-a-dia. A moça que suporta Glauber, suporta qualquer anseio da vida. Mas amanhã ela sonha de novo como seu sonho e Glauber sonha em dias onde a felicidade reside. Ele senta à mesa do café da manhã por bem mais que apenas um momento são. Coça a barba e cospe no chão quando lembra de Astor, o filho da puta do mestre de obras que acha que sabe mais que ele a envergadura do parapeito que teve que desfazer ontem. “Eu falei até com o Satanás para não trucidar a cabeça daquele verme!”. Isso é o que escuto, já faz um tempo, com o ranger dos passos dados de manhã cedo. E a morte vulgar, traiçoeira sorri em cada esquina que o tédio culmina nas mentes dessa manhã. Vou na padaria e volto sem qualquer poeira abençoada que dê o ar da graça em um bom dia, sem qualquer graça ou sorriso. Volto como quem nunca foi. Numa cidade vazia de sentido. Volto como quem nunca antes havia visto o por que uma memória só pertence ao lá e nunca ao cá. A memória de quem vai é totalmente igual a de quem volta, e os parafusos tortuosos, os esquemas dos fortes, as fronteiras, os mitos sociais, os desejos coletivos, as transações financeiras e qualquer coisa inútil num conglomerado vôo de Fortaleza para Paris, que trouxera não só eu, mas também esse delírio matinal na bagagem, não me faz outra coisa que reter a capacidade de resgatar memórias. E Glauber fode mais uma vez pensando em Astor e quando Deus permitirá que ele desça a mão de porrada. Goza estupefato e Sua Delicadeza pequenina que ele acaricia sem entender o que sente e ela muito menos. É a força onde é possível não matar os seus chefes, os seus mandantes. Sacrificam o trabalho para se encontrar a noite e catucar o meu teto no ranger do amor. E eu só tenho essa merda de vida! Não a minha ou a de qualquer outro, a vida que agora tenho! E não lembro um momento de que um dia vivi outra coisa que não a que lembro. E não prometo senão o que naquele momento me cabe. Volto como quem volta da padaria junto com o sorriso das inúmeras manhãs que cumprimento Glauber e em seguida a Sua Delicadeza. Pude observar, anteontem, a felicidade traduzida no espanto. Pareciam crianças. Um homem inocente e tabernoso que matara sua preza e trouxera para casa a graça da vida consumada. Glauber ria para se acabar e agora estava vermelho de felicidade como a pele de Sua Delizadeza nos arrebatos do gozo que desde que se casaram ele admirava. Meu Deus, ela parecia uma princesa escultural dos primórdios do tempo! Era como se o Neandertal encontrasse de imediato a Venus de Milo. Seus corpos transmitiam uma nudez caricata da inocência vã de uma criança lambuzada de vida. E ele dizia coisas como “esmaguei o filho da puta como quem pisa num pinscher e ele latia e gritava e esperniava”. Sua Delizadeza ria e eles se abraçavam. “Eu cuspi no meu chefe e mandei ele tomar no cu!”. Nem sabia que Sua Delizadeza era capaz de falar coisas do tipo. Eles pareciam delirar. Mas um delírio real, pois quando eu encontrei ele novamente no elevador, meu olhar dizia num palpitar do coração. Eu fui consumido repentinamente por um choro de verdadeira alegria. Como se eu sentisse suas felicidades reverberar sobre a minha. Meu choro alegre dizia: “Glauber, Glauber, assim você vai longe meu bravo camarada!”. Eles eram as pessoas mais belas que eu havia visto ultimamente. Eles fazem questão de dizer que sou possível poeta, porque enxergo no não visto uma vida feliz. Mas eu retruco dizendo que basta abrir o olho e ver.
Por Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com