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domingo, 2 de dezembro de 2018

Uma conversa síncope

Criatividade: Não faça isso comigo. Não me deixe cair.

Ego: Eu sei. Tenho eu de ir mais um pouco nessa vasta terra infértil.

Criatividade: Não suporto mais sua falta de atenção. Não me deixe cair.

Ego: Eu sei. Eu tenho de regular aos moldes dos outros, senão não falo a ninguém.

Criatividade: Merda! Sempre esse papinho de merda! Sou a doce donzela que arde e inspira
poetas e você me quer no encaixe. Nunca mais voltarei para essa merda de morada.

(Ela partiu como o sopro da manhã e calada ante a razão imperatriz.)

Razão: Ela gosta de brincar. Qualquer dia desiste de mim, essa vadia. E perambulará pela vida e pela cabeça dos outros. Pescará ideias similares. Abrupta distração de alguns. Selvageria em outros. Quantas vezes calou-me a boca. Quantas vezes fez-me ousar. Já já ela volta, amançada, amordaçada pelas correntes dominadoras da falta de gosto pela vida. Atraída por tudo que é humano, mas distante deles, achando em mim consolo livre. Vai-te. Vai-te perambular. E namora com o Entusiasmo que está no canto. Mal deixa-me organizar um pouco as coisas e já parte também com alguma raiva de suas próprias crias: o Tédio e a Preguiça.

Jayme Mathias Netto
Vivisseccao.blogspot.com

domingo, 17 de junho de 2018

Entre cães e pães

Os cachorros, dizem, sentem cheiro do medo. Esses que aqui latem todo dia fogem da regra. Porque se assim fossem me devorariam por inteiro. Mas eu vivo. Vivo e sinto antes de pensar. Sinto até livre, porém responsável. Sem compromisso, mas o tendo. Sem liberdade, mas a tendo. Querendo o ritmo do dever, mas sem querer. Exigente com o que faço. Livre para exigir. Como se tivesse aberto em mim a possibilidade de se abrir. Florescer. E não o fosse por completo. Nunca. No mínimo de soltura, tensão. Na abertura, prisão. Prender como quem escapa da jornada com que meu dever fizera livremente. Prender como quem escapa do próprio ritual criado. Hábitos breves, dos quais os leves não sinto poder. Exigência do querer ou não querer. Como se no momento do ápice liberto, gastasse em demasia a energia para me prender. Condenado ao ato livre. Condenado a não poder. O infinito delírio do ter que fazer. Os olhares me demonstram um tempo que com nada disso se importa. Eu poeta, solto e aberto, fechado e manifesto do ter que ter, do ter que fazer. Mas é isso que fazem os pedreiros erguerem as colunas do nosso tempo. Os papéis assinados dos grandes negócios! Os pães, até os pães diários e seu cheiro de tensão! Dos pães aos especialistas! Dos piores aos recordistas! No meu caso é prisão e preguiça!

Por Jayme Mathias Netto
vivisseccao.blogspot.com