Mostrando postagens com marcador mendigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mendigo. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de agosto de 2018

Julho do Leitor: O indigno (PARTE 2) - 2/2

... continuação...

No fim da tarde, quando a meia lua branca estava no céu limpo, o velho pedro contou as moedas que tinha conseguido naquele dia, somou com outras tantas que tinha no bolso e percebeu que eram bastantes. Levantou a cabeça, mas somente o suficiente para que pudesse ver o caminho que tinha que andar – “A vergonha”, pensou o velho, “é como as sacas de feijão que um dia já carreguei no lombo: pesa tanto sobre a cabeça que não consigo dobrar o pescoço no rumo de cima”. Caminhou rápido, com pressa, a ponto de conseguir chegar ao armazém da cidade quando ainda estava aberto. “Senhor, quanto de madeira consigo com esse dinheiro?”, disse pedro ao dono da venda. Ele lhe mostrou, pesando na balança, o tantinho de caibros sujos que correspondia àquelas moedas. “Servem. Muito obrigado”, disse ele, preenchendo o vazio que se fazia presente naquele saco de pano. Dali, o velho pedro tomou a direção do lugar onde a sua derradeira tarefa havia de se cumprir. Andou, e andou mais, até que saiu da cidade. Tomou estrada de terra, contornou as curvas que entortavam o caminho, até que caminhou pela vereda que lhe levaria, finalmente, ao lugar. 
Chegou ao cemitério. No cemitério há ruas, há esquinas, há endereços. Mas, ali não andam carros, só há o vale de lágrimas dos transeuntes desconsolados, sem pressa em prestar suas homenagens desaceleradas naquele espaço despregado do tempo: em cemitérios só há eternidades. O velho pedro tomou seu rumo, que era certo, e dobrou as esquinas que precisava, até que chegou ao seu endereço. Olhou para o chão e viu a cruz de madeira, tão conhecida sua, enfiada na terra. A cruz era feita de duas varetas simples, imperfeitamente sinuosas, envolvidas em folhas de carnaúba no lugar onde se cruzavam. Pedro pegou a cruz com a mão e a arremessou o mais longe que podia – a força que havia feito no movimento foi tanta que, logo após fazê-lo, ofegou por alguns segundos. O homem olhou para o saco de pano, pegou-o pelos fundos e virou-o de cabeça para baixo, derramando sobre o chão os pedaços de madeira que ali havia. Percebeu, então, que precisava de pedras, algo para amarrar, algo para martelar, algo para cobrir. Recolheu tudo o que precisava na mata que havia ao redor e começou a trabalhar. Cortou, amarrou, fincou na terra, ajustou, testou a resistência – corria a noite e o homem trabalhava. Na meia noite, quando era certo o dois de novembro, uma pequena procissão entrou pelo cemitério, sendo possível escutar o canto lúgubre das cinco ou seis senhoras que procuravam o seu endereço na floresta de lápides e jazigos. As senhoras passaram pelo homem e viram-no trabalhar. Uma delas segurou o passo, quando finalmente parou e deixou que seu cortejo seguisse. “O que o senhor faz, a essa hora? Veio homenagear parente?”, perguntou ela curiosa. “Vim, sim senhora”, disse ele sem parar o trabalho. A senhora olhou mais um pouco, viu o disparate e não se aguentou, “Mas, não deveria rezar, ao invés de cortar madeira?”, disse, incrédula, ao que o homem respondeu, “Senhora, eu errei com ela e faço o que tenho que fazer”, disse ele, olhando para a velha mulher com os olhos cheios d’água. “Todos erramos, senhor, somos pó e pecado. Todos que estão aqui, os vivos e os mortos, erraram, e erraram muito. Jesus Cristo tenha piedade da tua alma e que Nossa Senhora te acuda. Conta o teu erro, e alivia a tua alma”.
Pedro vivera naquela cidade por muito tempo. Ali, tivera uma família, era esposo de Maria Cleonice e pai de Helena. O homem batia na sua filha, maltratava muito ela. Sem motivos para tanto, sacava o cinto do cós da calça e marcava as pernas da menina sem abrir mão da força de homem que lhe era disponível. Ele bebia e farreava bastante. Não batia na mulher, mas lhe machucava de outras maneiras, pois todos sabiam o quão mulherengo era pedro. Certa noite, o homem fora para o forró, conhecera uma mulher e por ela se apaixonara. Um mês depois, Pedro fora embora com a nova companheira para o sul, tentar vida nova. A mulher e a menina ficaram sozinhas. Quando a seca chegara, passaram fome e sede. Um dia, a filha reclamara tanto da garganta seca que a mãe a levara para o açude, pegara a lama barrenta de uma poça com a mão e espremera, deixando derramar o líquido preto na boca da criança. Na nova terra, pedro não fora feliz. Não arranjara emprego e a mulher o deixara para ficar com outro homem. Regressara. Fora para a sua antiga casa e encontrara apenas estranhos. Os vizinhos lhe disseram que a menina, Helena, morrera na seca, e Maria fora embora, não se sabendo mais notícias dela. O homem chorara e se desesperara, sentira culpa, sentira vontade de morrer. Desconsolado, fora ao cemitério procurar pelo sepulcro da filha, sem sucesso. O homem que cuidava do cemitério guiara pedro até o lugar onde uma menina que morrera na seca havia sido sepultada. Ele vira apenas a cruz de madeira, nada mais. Não havia identificação, não havia lápide, não havia sequer um papel, que uma boa alma poderia ter pregado naquelas varetas, com o nome da menina. “Uma criança não merece esse abandono”, pensara ele, no auge da culpa. Ali, fizera promessa e dissera que não iria descansar enquanto não construísse sepulcro decente para Helena. Procurara emprego, e não conseguira. Colocara-se, então, a mendigar. Passaram-se anos, décadas, e das moedas de todos os dias, separava uma parte para a sua promessa e gastava o resto com comida.
 Pedro contou esta mesma história para a senhora e terminou dizendo, “Aqui estou, tentando cumprir minha promessa. Sou indigno, porque abandonei minha família e vim me redimir, se possível for”. Pedro percebeu, quando terminou, que a senhora vestia um manto azul sobre a cabeça, que escorria pelos ombros até chegar à cintura. Na parte imediatamente circunscrita à cabeça, havia um círculo bordado em dourado. “Homem és, feito de pó e pecado. Acalma a tua alma, porque foste feito para errar. Que os anjos te guardem e que o Senhor abençoe tua obra. Quando terminar teu trabalho, ajoelha-te e reza um Pai Nosso e um Ave Maria. Assim sendo, ficarás em paz”. A senhora virou as costas e voltou a caminhar, indo em direção à procissão. Pedro, como lhe fora mandado, voltou a trabalhar, e, quando terminou, ajoelhou-se e pôs-se a dizer as palavras santas. Ao fim da reza, uma luz alva desceu dos céus, iluminando todo o cemitério. A luz repousou sobre aquele pobre amontoado de madeira, posto em forma de sepulcro por Pedro e tudo o que era madeira virou pedra; um lindo jazigo, adornado em mármore branco, ali se formou, como numa mágica. A obra estava pronta e o Velho Pedro teve paz.


Por Willem Carneiro
vivisseccao.blogspot.com

domingo, 29 de julho de 2018

Julho do Leitor: O indigno (PARTE 1) - 1/2

O homem era velho. Era difícil saber sua idade com exatidão, mas sua barba grande e suja, que passava por tons de cores do cinza escuro ao branco e as rugas bastante demarcadas, acusavam que aquele senhor já passava dos sessenta, de certo. Mas, como iríamos saber quantos anos tinha, se ninguém perguntava sequer o seu nome? O nome, este já o sabemos. As outras pessoas da rua o chamavam de velho pedro e diziam que ele não falava muito, que era tímido, era infeliz, mas era andador e sabia trabalhar. O velho vestia um trapo de calça preta, bem manchada e suja, uma camisa de botão que, um dia, já foi branca, mas que, hoje, mais caminhava para aquele tom encardido que só as roupas muito usadas, imundiçadas e nunca lavadas alcançam. Era a muda de roupa que tinha e nada mais. Como sabia trabalhar com madeira, juntou pedaços de caibro que um dono qualquer de mercearia por onde passou lhe deu, cortou, amarrou, armou e conseguiu preparar a estrutura do que viria a receber a cobertura daquele plástico preto em que se põe lixo. Estava feita a sua casa. Era feia, mas os outros da rua tinham inveja, pois, além de não precisar correr quando chovesse, pedro poderia até levar visitas íntimas para o seu particular. Não era necessário inveja: há muito não chovia e há muito, mas muito, pedro não levava ninguém para qualquer particular. 

Era primeiro de novembro. O dia não tinha surgido e o sol só iria dar as caras dali a uma hora.  O velho pedro se levantou, subiu o fecho-éclair da calça e a abotoou, vestiu a camisa, pôs o chapéu preto e saiu com um saco de pano vazio nas costas. Foi à esquina, dobrou à esquerda, andou três quarteirões, dobrou de novo, mais três quarteirões. Chegou. Quando parou, pensou, “É aqui. Aqui passam muitas pessoas”. Sentou ao chão e pôs-se a esperar. O dia chegou e os carros começaram a passar, as pessoas a andar e o sol a aquecer. Quando a primeira pessoa apontou na esquina, o velho pedro a observou, respirou fundo e estendeu a mão. A pessoa passou e não desenhou reação com relação a pedro. Era a primeira a fazer isso, mas não seria a última. Quando o sol apontou no cimo do céu, não havia mais sombra e o dia estava quente. O concreto da calçada fervia e pedro resolveu levantar. Aquele que estava ao chão, de mão estendida com a palma para cima e com os dedos arcados a fazer uma curva côncava, agora estava de pé e fazia-se mais visível. Visível só se for para o sol, que não o perdoava, porque, para aquelas pessoas que passavam, pedro e o poste, pedro e a placa, pedro e a calçada, eram a mesma coisa, eram cenário urbano. Juntava, por aquela altura do dia, um par de moedas. “Tenho que conseguir”, pensou ele, “mas é melhor que eu ande, pra que prestem atenção em mim”. O couro grosso daqueles pés descalços sentia apenas uma parte do calor escaldante do chão de concreto e pedra. Quando um homem vinha, pedro apontou em sua direção, meio sem jeito, como quem não quer ir, e disse, “...”, desculpem, mas, mesmo eu, que sou narrador onisciente e  onipresente, que tudo sei, que estou em todo lugar, não pude ouvir coisa da boca daquele senhor. O homem que vinha percebeu aquela figura, olhou e, à medida que passava, virando o pescoço, disse, “Desculpe, o que disse?”, e continuou o seu caminho. Pedro sentiu vergonha de estar naquela condição – pedir era difícil. Percebeu, quando escorou-se na parede a pensar, que não conseguia falar na altura para que o ouvissem. Não por timidez, era dignidade que faltava. “Como vou conseguir falar a outra pessoa se minha barriga dói de fome, se não há borracha entre meus pés e o concreto quente do chão duro?”, pensou ele, chegando às conclusões. O velho pedia, mas não queria pedir. Duas coisas o seguravam naquela posição: a primeira, o fato material, sensível e simples de que, se não pedisse, morreria. Pedia, também porque precisava de algum dinheiro necessário para cumprir um dever auto imposto. O homem pediu e pediu outras vezes naquele dia, pediu até conseguir o que precisava. Era invisível o velho e era igual a outros objetos da rua, mas, como todo objeto, que tem sua função definida, a daquele senhor era a de ser mendigo. Mendigos recebem moedas de pessoas. Afinal, não são mendigos as coisas para as quais damos moedas, com a intenção de descarregarmos a consciência de suas culpas? Mendigos são como cofres, e à medida que neles depositamos moedas, acumulamos qualidade para um sono cínico e passos dados para o alcance de um paraíso desejado...

continua... (próxima postagem: domingo 05/08)

Por Willem Carneiro

vivisseccao.blogspot.com