domingo, 18 de setembro de 2022

Ponto na curva.


Arnaldo Antunes nos diz que o “real resiste”, mas ele não resiste ao século XXI. A geometria clássica já nos dera o diagnóstico. O espaço é formado pelo alinhamento dos planos. O plano, por sua vez, se constitui por retas alinhadas. A reta é o conjunto de pontos que não fazem curva. E os pontos, bem, os pontos não possuem forma nem dimensão, são objetos adimensionais. O ponto não está no espaço, mas o constitui. Nosso mundo pós-moderno com seus terabytes é uma superestrutura maciça construída em cima do abismo. A edificada selva de concreto e aço que esconde o que sobrou do céu, suspira atomizada, é ponto disforme e sem dimensão. Então você vem me dizer que a verdade é o real? O real é o vácuo esquecido pelo mundo. Mas, na verdade, o mundo real é isso, um ponto que não está no espaço mas que o constitui. Coisa que o fascismo capitalista compreendeu muito bem.

Paulo Victor de Albuquerque Silva


domingo, 11 de setembro de 2022

Nada escrito

 

Eu não tenho nada escrito.

Tenho o que cito e tão logo esqueço.

Tenho o cálculo mas também o devaneio.

Receio ser esse o preço da geração fast food.

Fast think, fast poetry. Tudo tão a miúde.

Robin Hood, tiro da gramática, pra dar ao motivo.

E sai tira da Mafalda com piada sem sentido.

Acho que entender é melhor que soar bem na norma culta.

A vida adulta transcorre por mim como brisa que não marca. Não conta.

Como passar batido no fotosensor.

Aguardo pela multa do excesso de velocidade.

Salvo pelos cabelos brancos que se reproduzem em minha barba, denunciando a idade,

Vivo a eterna ressaca de dias fúteis.

Carrego em minha Arca de Noé, porquês raros e vazios.


Eu não tenho nada escrito.

Nenhuma frase em negrito, nada que denote brio, que a algures possa ser citado em algum rodapé.

Tudo que falo, já foi dito.

Ando por aí feito um céu repleto de nuvens carregadas sem que, no entanto, caia delas um reles pingo d'água.

Não decoro nada do que falo.

Não recordo nada do que escrevo.

Não declamo.

Me derramo sobre o silêncio constrangedor.

Nas horas vagas, reclamo.

Bodejos fluem como enxurrada, arrastando barrancos de sensatez e prática.

Me misturo em solução eutrofizada onde algumas poucas partes por milhão são jóias, que nem acredito que tenham vindo da minha foz.

Tão raro quanto as avisto é ouvir sua voz.

É preciso tempo.

É preciso deixar acalmar, para perceber que a vontade precisa de falta para se revelar. 

Deixar a torrente virar calmaria, rio cheio de volta.

Rebelião e revolta, darão lugar a um fino fio de sensatez.

Depois de toda a baboseira que se solta e vai embora de vez no resmungo sobrenadante, brilha no fundo do espelho d'alma o instante pensante do não dito.


Perturba como zumbido de mosquito.

Ressoa como as 7 trombetas...

E eis me aqui a escrever algo que amanhã já não lembrarei.

Mesmo assim...


Ainda que nunca tenha realmente estado aqui...


é bom estar de volta.


Júlio César 

domingo, 4 de setembro de 2022

Feito ou Perfeito?

É arrumar a casa sabendo que por mais impecável que fique ainda terá muita bagunça

É dar um jeito, sabendo que a grande parte não tem jeito

É pagar as contas sabendo que muitas contas nem precisava ter

É saber que a gente morre e muita coisa não deu tempo

É saber que fomos acostumados a deixar a felicidade para depois e os problemas primeiro

É se indignar porque ainda não resolveu muita coisa

É viver resolvendo coisa

É fazer declarações mesmo sem saber por que

É fazer afirmações que amanhã não serão nada

É estar pronto, sabendo que pronto mesmo nunca estamos

É dormir cheio de coisa na cabeça, mesmo sabendo que o dia não foi tranquilo

É acordar para trabalhar, mesmo sabendo que o dinheiro pode não dá

É se desfazer de roupas velhas mesmo sabendo que muita roupa velha ainda tá lá guardada

É ter esperança, mesmo sabendo que o medo é que bate na porta

É se sentir bem com as pessoas, mesmo sabendo que muita gente fala mal

É ter certeza, mesmo sabendo que a cabeça tá cheia de dúvidas

É ter vida, mesmo sabendo que boa parte em mim tá morta

É estar alegre, mesmo sabendo que dura bem pouco

É fazer faxina sabendo que muito ainda ficou e vai ficar por fazer

É ter a morte, mesmo sabendo que boa parte em mim tem vida

É se embriagar, mesmo sabendo que tem ressaca

É ser isso e não ser nada daquilo

É fazer arte, mesmo sabendo que a sociedade que criamos é enfadonha em suas entranhas

É ver a beleza, mesmo sabendo que é um jeito de ver

É sentir firmeza, mesmo sabendo que o humano nunca construiu nada de firme

É sentir clareza, mesmo sabendo que todos os nossos projetos são dúbios

É apontar para um objetivo, mesmo sabendo que nada pode dar certo

É dar sua vida, mesmo sabendo que tudo pode se perder

É limpar o vidro da janela sabendo que por trás dos móveis tá sujo

É sair de casa, mesmo sabendo que se pode morrer

É saber, mesmo sabendo que não dá para saber com certeza

É cuidar de uma coisa, mesmo sabendo que muita coisa não é cuidada

É ser atravessado por tudo isso, mesmo sabendo que podíamos fazer tudo sem saber

É tentar fazer, mesmo sabendo que muito não vai ser feito

É ficar velho, mesmo sabendo que cada dia você enxerga mais e melhor

É saber que vai morrer e a vida pode ter passado e você pensando que sabe

É saber que há um conforto em pequenos momentos passageiros que poderiam ser eternos

É saber que nem todo conforto vem do que é resolvido

É resolver, sabendo que nada tá resolvido

Tentar estar contente com isso, mesmo sabendo que contente mesmo não vai estar com aquilo

É saber decifrar a angústia, mesmo sem ela nos poupar

É saber-se finito, mesmo sabendo que temos sensações infinitas

É saber-se imperfeito, mesmo que possamos fazer perfeito

E nada mais angustiante, do que ficar entre achar que dá ou não dá

Jayme Mathias







domingo, 28 de agosto de 2022

Releituras (a)gosto: Altares Profanos

 



Da matéria profana ao sagrado posto em matéria

A arte sacra é o encontro paradoxal entre o corpo mundano e a imaterialidade divina

Quanto mais próximo dos espaços religiosamente ilustrados tanto melhor experimenta-se o sobrenatural

É possível existir uma matéria sacrossanta?

Toda arte é divina na medida em que, a cada obra, se eclodem outros mundos de sentidos e emoções

A arte é o limiar entre o sagrado e o profano

Ela é o barqueiro que nos leva ao Hades

Transforma mercadorias em ruínas

Ruínas em altares

A arte evoca os mortos numa marcha necromântica pela história

Dissolve mitos

Eterniza mártires

A arte representa o que há de inumano no humano

A imaterialidade na matéria

O sagrado no que é profano

Paulo Victor de Albuquerque Silva

domingo, 21 de agosto de 2022

Releituras (a)gosto: Ranhuras

 Preencho esse espaço


com mais um pedaço de nada.

Encho ele com o vazio que estava em mim.

Em mais um regaço do meu avesso

me pego examinando as ranhuras do real.

Dos contrastes escancarados que ninguém vê.

Estampados na tv de led, nas manhãs de yoga e iogurte grego.

Nas noites de céu estrelado de traçante no Rio de Janeiro.

Preso em dilemas dimensionais da existência, examino a essência que ninguém mais sente. 

Tudo que encontro é angústia.

E a linha, cada vez mais indistinta, do bem e do mal.

Exercício hercúleo.

"Como o drible sem objetivo que se perde além da linha lateral".

E os espaços físicos ficam cada vez mais escassos.

Assinaturas digitais substituem momentos especiais.

Solenidades, reduzidas a QR codes

Não se ouve uma palma.

Na concha acústica sequer viva alma.

Apenas silêncio.

E está feito.

Outorgado mais um grau de imprestabilidade do sujeito 

que vê diante de si possibilidades tão próximas e tão equidistantes, inrreconciliáveis como os polos iguais de um eletroímã.

Resta tentar preencher o vazio dos outros

Para que, de alguma forma, pelo menos fique registrado

"Caso meu carro saia da estrada,

ou o avião que eu pegar decida que é meu último dia". Que quando você estiver só e assustado, não é só você que não está bem. Milhões de pessoas também não estão.

Pessoas infelizes e infelizes tem a mesma cara e se misturam na multidão de perdidos.

Mas como tudo que teve um começo, um dia esses dias encardidos encontrarão seu fim.


Já tem bastante tempo que não é apenas setembro que é amarelo. 

Mas o elo do ouroboros que une começo e final está próximo.

Em breve estaremos aptos a começar novamente.


Júlio César




domingo, 14 de agosto de 2022

Releituras (a)gosto: Antoine

 Certa vez, viajei até a cidade em que Van Gogh tinha falecido. Auvers-sur-Oise. Lá tinha um artista que escreveu na porta de seu atelier: "Aberto, pode entrar, não espere eu morrer para valorizar minha arte. assinado: Antoine". Eu sorri e ele me sorriu de volta. Ele deu com os ombros como quem diz "mas num é verdade?". Eu afirmei com a cabeça como quem diz "eu sei bem". Eu entrei e ele me explicou:

- É que essa valorização do passado é por causa do mal-estar. Se a gente separar, se uma arte dadaísta vinhesse primeiro que uma arte clássica, então para muita gente essa seria a verdadeira arte, boa e bela. O que eles estão negando é o mal-estar, não a arte. Quando criticam uma arte dos dias de hoje dizendo que não é arte, na verdade querem se livrar do mal-estar contemporâneo e não daquela forma de arte específica. Olham meu trabalho e dizem: "ele é como eu, é do meu tempo, ele vive toda essa merda, então não presta! A não ser que faça igual antigamente!"

Eu não tinha o que dizer e saí anotando o que ele havia dito, mas também não comprei nenhum quadro e ele sabia que não compraria. E eu sabia que ele sabia. Mais tarde, no final da tarde após ver o quarto do Van Gogh, o cemitério onde ele está enterrado e todas as pinturas de todos os ângulos que ele fez na cidade, eu voltei para o senhor Antoine com um café e uns biscoitos que comprei. Sorri pra ele novamente. Era o máximo que podia fazer, os quadros eram caros demais. Ele agradeceu gentilmente pela visita e pela conversa enquanto terminava sua mais recente obra. A noite chegou, conversei bem mais coisas, peguei o trem e fui embora atordoado. A arte faz essas coisas e não possui remédios ou preventivos. Afinal, por que simplesmente um artista contemporâneo é tão menosprezado? Por que tantas desculpas para não comprar seus quadros? Por que tão pouco valor damos? Como diz Paulo Victor: "é mesmo, tem como não!". Ou Júlio que diz com preponderância : "é mah, esse bicho". Aí pensando nisso fiquei até agora. Se num escrevesse isso acho que eu ia explodir, e o senhor Antoine deve fazer a mesma coisa para não explodir também.

Jayme Mathias Netto

domingo, 7 de agosto de 2022

Releituras (a)gosto: Anunciação

  


Tu não viestes de longe estrela cadente

Pronuncias o vindouro do dia

Alumia o amanhã num caleidoscópio póstumo

Tens na chegada fria e cálida minha sina


Itinerários ramificam-nos às lonjuras

Ocupam fendas nos pés rachados

que

Assentam morada no barro barroco da modernidade


A noite descultiva, tal qual girassol a espera do dia

Ninho sacro profano, guarda-me nú

Roubaste-me a esperança na espera

Finca-me no agora sujo e arraigado da margem


És tu, ó finito, quem anuncias a senhora morte

Dama vestida à foice em sepulcro mórbido

Doas o sabor à vida, pois em queda vislumbramos o abismo

Abocanha-nos a profundeza com suas notas de desespero


Daí amar-te,

amo-te porque sei que findas

Amo-te pois não me pertences indistintamente

Amo-te pois nunca mais serás minha, já que não há amanhã

Amo-te pois sei que findo-me em teus abraços


Paulo Victor de Albuquerque Silva